Capítulo 1 - O Homem Que Não Era Um Simples Capataz
Miguel
A poeira da estrada vermelha subia conforme o carro velho avançava pela porteira da Fazenda Monte Verde. Por fora, eu era apenas mais um homem em busca de trabalho. Jeans gastos, camisa de linho desbotada, barba por fazer e um chapéu torto na cabeça. Por dentro, eu era Miguel Montenegro. Bilionário, dono de três vinícolas premiadas e filho do homem que tentava comprar aquela fazenda havia três anos.
Mas eu não estava ali por dinheiro. Nem por herança.
Estava por respostas. E, talvez, por redenção.
A primeira coisa que me atingiu foi o cheiro da terra. Depois, o aroma de lavanda e suor. Mas foi o terceiro aroma, vindo com a brisa quente, que fez meu corpo inteiro despertar. Algo entre flor e fogo. E então eu a vi.
Ela estava encostada na cerca de madeira, braços cruzados, pernas firmes como as de uma amazona que domina seu cavalo com o olhar. Usava um short jeans curto demais para ser esquecido e uma camisa branca amarrada abaixo dos s***s, que marcava cada curva de um corpo moldado pela terra e pelo sol. Cabelos grossos, castanhos, presos num coque rebelde. Pele dourada. Boca cheia, tentadora, como se tivesse sido desenhada para provocar pecados. E os olhos...
Ah, os olhos dela.
Castanhos, profundos, com aquele brilho que denuncia fogo onde deveria haver calma. Quando nossos olhares se encontraram, o mundo parou. Literalmente. Tudo ao redor emudeceu. O som dos pássaros, o ranger do portão, até o motor do carro que deixei ligado.
Foi como um raio.
Ela me olhou como quem reconhece sem nunca ter visto. E, pela primeira vez desde a adolescência, meu corpo respondeu antes da minha mente. Senti o calor subir pela nuca, o arrepio descer pela espinha, e algo se acender abaixo do cinto com força quase dolorida. Aquela mulher não era só bonita. Era uma ameaça. Um perigo com cheiro de lavanda e pernas longas.
— Precisa de alguma coisa? — ela perguntou, e sua voz me atravessou como a lâmina de um bisturi.
Apenas assenti, lutando para recuperar o fôlego.
— Vim pela vaga de capataz. Miguel Dias.
Ela não sorriu. Seus olhos desceram pelo meu corpo com precisão cirúrgica, como se pesasse cada parte de mim. Depois voltaram aos meus olhos. E algo ali... algo quebrou. Como se ela também sentisse. Como se a pele dela tivesse formigado. Como se, por um segundo, esquecesse o mundo. Porque ela prendeu a respiração. E mordeu o lábio inferior.
Sim. Ela também sentiu.
— Capataz? — repetiu, a voz levemente rouca.
— Experiência com gado, cerca e homens teimosos?
Dei de ombros, com um meio sorriso que escondia a urgência de tomá-la ali mesmo contra a cerca.
— Com tudo que respira.
O brilho nos olhos dela aumentou. Mas ela não recuou.
— Então está contratado.
Virou-se com firmeza. Mas antes de desaparecer, lançou um último olhar por cima do ombro. Foi rápido. Um segundo. Talvez menos. Mas aquele olhar me segurou de um jeito que nenhuma mulher fez desde os meus dezessete anos.
Ali, no meio da poeira, com suor escorrendo pela testa, percebi duas coisas:
A primeira: aquela mulher ia me fazer esquecer por que vim até ali.
A segunda: eu ia deixar.
Maya
Eu senti.
Desde o primeiro instante. Antes mesmo de ele falar. A presença dele bateu em mim como uma ventania em dia seco. Firme. Quente. Irresistível.
O homem era pecado em carne viva. Alto, moreno, com ombros largos e um andar que parecia dominar o chão. Havia algo nele que não combinava com o chapéu surrado ou as botas empoeiradas. Algo nos olhos. No queixo. Na forma como me olhou. Como se me conhecesse nua. Como se já soubesse o gosto da minha boca.
E eu odiei o quanto aquilo me fez tremer por dentro.
Não era só atração. Era uma onda. Um choque que começou entre as pernas, subiu para o estômago e me fez morder o lábio para disfarçar. Eu o desejei. Como não desejava ninguém desde... nunca.
Mas isso era problema. E eu não precisava de mais um.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, tentando parecer fria.
Quando ele falou, minha pele arrepiou. A voz dele era grave, quente, com aquela lentidão de quem sabe que o silêncio também seduz. Miguel Dias. Nome comum demais para aquele olhar incomum. Para aquele cheiro de homem que já viveu demais. Para aquela boca que parecia feita para ser beijada até a alma doer.
Meu Deus.
Respirei fundo e recuei, disfarçando. Mas antes de sair, precisei olhar de novo. Precisava confirmar se ele ainda me olhava como se me despisse. E sim... estava.
Aquele homem não era um simples capataz.
E eu estava em perigo.
Miguel
Trabalhar ao lado dela durante o resto do dia foi um tormento doce. O jeito que ela andava. A forma como as coxas se contraíam quando subia na cerca. O suor deslizando pelas tênues frestas da camisa. E aquela boca...
Tudo nela era um convite para o desejo. Mas não o tipo rápido. Era um desejo que surgia no peito e ia escorrendo lento, como vinho escuro em taça de cristal.
Maya me chamou com um gesto firme da mão. Seguimos por um caminho de terra batida que levava até o curral. O sol ainda estava alto, o ar cheirava a feno e suor, e os gritos dos peões eram abafados pelo ronco de um trator ao fundo.
— Miguel! — ela disse alto, chamando a atenção de todos os funcionários.
— Esse aqui é o novo capataz. Chegou hoje. O nome é Miguel Dias. Vai estar no comando da lida com o gado e dos reparos gerais. Qualquer problema, falem com ele.
Olhares desconfiados se voltaram para mim. Havia ali cerca de dez homens, cada um com o rosto queimado pelo sol e os olhos marcados por cansaço e tempo.
— Capataz? — murmurou um deles, alto, braços cruzados. — Mais um pra mandar e sumir na primeira semana?
— Se ele sumir, eu mesmo boto ele pra fora — Maya respondeu com a voz afiada. — Mas se alguém quiser testar a autoridade dele, que me avise antes. Pra eu preparar a demissão.
O silêncio caiu como uma foice. Ninguém retrucou. Ela se virou para mim e ergueu uma sobrancelha.
— Alguma dúvida, capataz?
Neguei. Meu olhar estava nela. Sempre nela. Aquela mulher era fogo e aço. E eu queria me queimar.
Os homens dispersaram aos poucos, voltando ao trabalho. Maya ficou parada por um momento, observando a movimentação.
— Você vai dormir na antiga casa do Zeca, ao lado do galpão. — Maya falou sem nem pestanejar, a voz firme como quem dá ordens ao vento e espera que ele obedeça. — Tem banheiro, cozinha e uma cama dura. Amanhã quero você no curral às cinco em ponto.
Miguel arqueou uma sobrancelha, o sorriso enviesado que nunca deixava de provocar.
— Alguma chance de um café antes disso?
Ela parou, inclinou levemente o rosto, e o sorriso nasceu devagar, carregado de uma malícia que ele sentiu até nos ossos.
— Se quiser meu café, vai ter que me convencer.
As palavras não eram só desafio. Eram um convite mascarado, um jogo que deixava claro quem mandava naquele pedaço de chão.
Maya se virou sem esperar resposta, os cabelos soltos balançando no compasso de suas passadas firmes. O perfume dela — terra molhada misturada com doçura inesperada — ficou no ar como uma promessa difícil de esquecer.
Miguel ficou parado, olhando, sentindo a boca seca e o coração acelerado.
Ele sabia lutar. Sabia mentir, negociar, vencer homens em salas cheias de gravatas.
Mas não sabia o que fazer com uma mulher como ela.
E talvez, bem no fundo… não quisesse saber. Porque havia algo na forma como ela caminhava, como se o mundo fosse dela por direito, que o fazia desejar se perder ali.
Maya não era apenas uma mulher.
Ela era a terra. A raiz. O fogo.
A moça que carregava a fazenda no sangue.
E ele… já estava condenado a querer arder junto.