Capítulo 3 – O Toque Que Não Deveria Arrepiar

1988 Words
Maya Ele estava lá. Escorado na porteira como quem domina a paisagem. Braços cruzados. Camisa semiaberta. Olhos fixos em mim como se estivesse vendo um filme que já sabia de cor, mas não cansava de assistir. Miguel Dias, o capataz de nome comum e presença perigosa, me assistia como se meu corpo tivesse o poder de parar o tempo. E o pior é que... eu sentia isso. Cada passo que eu dava parecia ecoar mais alto quando ele estava por perto. Cada movimento simples, como prender o cabelo ou levantar a perna pra montar a cerca, ganhava um peso novo, um olhar a mais, um arrepio a mais. A trave estava solta. Peguei a chave inglesa, tentando manter o foco no trabalho. Mas o olhar dele me queimava a nuca. — Precisa de ajuda com isso? — ele perguntou, e a voz veio grossa, arrastada… como mel quente derramando na pele. Respirei fundo. Eu não era o tipo que aceitava ajuda fácil. Ainda mais de um homem como ele. Orgulho e sobrevivência andavam lado a lado comigo. — Não preciso de homem pra me ensinar a lidar com arame — respondi, seca, sem desviar o olhar da madeira rachada. Mas ele se aproximou mesmo assim. Senti antes de vê-lo. O cheiro de suor e terra invadindo o espaço entre nós. O calor do corpo dele se aproximando como se o sol tivesse se arrastado pra mais perto. Ele tirou as luvas devagar, como se estivesse despindo intenções. Os dedos grandes, firmes, sujos de terra… esticaram-se junto aos meus. E foi ali, naquele instante pequeno e gigante, que aconteceu. Nossas mãos se tocaram. Não de propósito. Mas o choque foi real. Percorreu meu braço como uma faísca elétrica. Senti o formigamento subir pelo cotovelo, alcançar meu pescoço, explodir no peito. Minha pele arrepiou inteira. Até atrás dos joelhos. Recuei de imediato. Rápido demais. Como se tivesse encostado numa cerca viva, numa ameaça. Mas não era a madeira. Era ele. Era Miguel que queimava. O pior? Ele viu. E sorriu. Aquele sorriso torto, lento, que começa no canto da boca e termina onde o juízo se perde. Um sorriso que diz “eu sei o que você está sentindo, e vou fingir que não sei… só pra ver até onde você aguenta”. Maldito seja. Tentei disfarçar, engolindo seco, voltando minha atenção pra trave, como se nada tivesse acontecido. Mas a verdade é que… tinha acontecido. E não era só o choque. Era o que veio depois dele: O calor entre as pernas. O aperto no estômago. A lembrança da mão dele ainda grudada na minha. Aquele toque não devia arrepiar. Mas arrepiou. E pior: me deixou com vontade de sentir de novo. Narrado por Miguel Ela se afastou rápido demais. Como quem se queima antes mesmo da chama tocar. Mas eu vi. Vi o leve arrepio nos braços bronzeados. O modo como os dedos dela tremularam por um segundo. Vi a respiração contida no peito, aquele segundo de silêncio que só o corpo entende, porque o corpo não mente. Nunca mentiu. Maya era força e espinho, e isso me atraía mais do que qualquer maciez polida que já experimentei. As mulheres com quem me envolvi no passado sabiam sorrir com a boca, mas não com o olhar. Sabiam fingir, agradar, abrir as pernas com pressa. Com Maya… não. Ela não cedia. Ela me testava. E isso… me incendiava. Me aproximei mais um passo. Não o suficiente para tocá-la de novo, mas bastante para invadir o campo da sua pele. Aquele espaço onde o calor fala antes das palavras. — Não esperava te ver mexendo com arame — comentei, rouco, controlando a fome na garganta. Ela nem se virou. Continuou com os olhos na cerca, as mãos ainda inquietas, como se lutar contra a trave fosse mais fácil do que lutar contra o que sentia. — E eu não esperava um capataz com mãos tão limpas — retrucou, cortante, mas a voz falhou no fim. Sorri. — Quer ver de perto? Foi quando ela se virou. Devagar. Olhos nos meus, como se cada milímetro de distância entre nós estivesse sendo medido por alguma parte sensível do corpo dela. — Te conheço faz dois dias, Miguel. Isso não é tempo suficiente nem pra te oferecer café. A forma como ela disse meu nome… me fez endurecer por dentro. Era como se me xingasse com desejo. Como se quisesse cuspir fora a vontade que sentia. Como se tentasse resistir ao próprio corpo que clamava pelo meu. — Às vezes, dois dias é o tempo exato pra saber o que se quer — falei com calma, mas meus olhos cravavam nela como um lobo farejando fome. Ela abriu a boca pra responder, mas parou. Não disse nada. Não precisava. O corpo dela já tinha falado por ela. E eu entendi. A pele dela me queria. O peito dela me sentia. O sangue corria mais rápido quando eu chegava perto. E, mesmo que ela mordesse os lábios, fechasse os punhos ou fingisse ignorância… O corpo não mente. E o dela gritava o que a boca ainda não tinha coragem de sussurrar. Narrado por Maya O pior não era o toque. O toque eu podia evitar. Desviar a mão, usar luvas, inventar desculpas. Mas o olhar… Ah, o olhar dele me rasgava sem piedade. Miguel não precisava me tocar com os dedos. Bastava aquele par de olhos escuros, fixos, famintos, para eu sentir minha pele arrepiar como se já estivesse nua diante dele. E o mais absurdo? Eu deixava. Deixava ele me despir com o olhar em silêncio. Como quem me explora centímetro por centímetro, sem pressa, sem pudor, sem nenhuma licença. Como quem se apropria de algo que nunca foi dado, mas também nunca foi negado. Havia algo perversamente sensual no jeito que ele me olhava. Como se eu fosse um enigma antigo, escrito com suor e terra, e ele quisesse decifrar cada curva, cada ruga, cada cicatriz com as pontas dos dedos… e da língua. Era um desejo bruto, sem floreios, mas também um fascínio inquietante. Como se minha força o desafiasse. Como se o fato de eu não me render fosse exatamente o que fazia ele me querer mais. E isso me tirava o equilíbrio. — Vai continuar me olhando assim ou pretende ajudar de verdade? — disparei, com a voz afiada, tentando esconder a vontade de gemer ao invés de gritar. Ele ergueu uma sobrancelha. O sorriso veio lento, impiedoso, do tipo que não pede permissão pra entrar no seu corpo — invade. — Se eu tocar de novo, você vai tremer? Filho da mãe. Respirei fundo, sentindo a barriga contrair, como se o corpo quisesse responder antes da boca. — Vai se ferrar, Miguel. Mas foi um sussurro. Um sussurro que soou mais como um convite do que uma ameaça. E ele sorriu. Devagar. Delicioso. Provocador. Como se tivesse vencido uma batalha sem dizer mais nada. Aquele sorriso me atravessou. Meu coração, ingrato, não bateu no peito. Bateu onde não devia: entre as pernas. Num pulso quente, ansioso, quase desesperado. Eu me odiei por isso. Mas também desejei mais. Porque naquele olhar, eu vi: Ele me queria. Mas mais do que isso… Ele me entendia. E ninguém jamais tinha me olhado assim antes. Como se soubesse do que eu fujo. Como se soubesse exatamente do que eu preciso. Narrado por Miguel A cerca entre nós era de madeira. Mas o campo de batalha… era a pele dela. E a minha. Aproximei-me devagar. Não encostei. Não precisava. Só de chegar perto, senti a tensão vibrar entre nós como fio de arame puxado demais. Ela recuou um passo, mas não o suficiente. Porque parte dela a parte que gritava no silêncio do olhar, queria que eu ficasse. A sombra da cerca projetava nossos corpos no chão batido. Dois vultos intensos, lado a lado, prestes a explodir em algo que nem o sol do meio-dia ousaria iluminar. Inclinei o rosto, devagar, como se minha voz precisasse ser um sussurro íntimo demais pra ser ouvido por mais alguém além da pele dela. — Você sempre reage assim quando sente alguma coisa? — perguntei, rouco, com o desejo preso na garganta como um animal selvagem no cio. Ela ergueu o rosto. Lenta. Olhos castanhos, úmidos, com aquele brilho de terra depois da chuva. Umidade e fúria. Vontade e resistência. Confusão e fogo. — Eu não sinto nada — ela disse. Mas a voz veio trêmula. Uma mentira tímida vestida de orgulho. Sorri com a boca, mas foi o corpo inteiro que respondeu. — Não mente pra mim, Maya — sussurrei, aproximando mais o rosto, quase roçando meu hálito no dela. — O corpo fala. E o seu… está gritando. Ela respirou fundo. O peito subiu e desceu num movimento contido, como se contivesse mais do que ar, contivesse desejo. Um desejo que a machucava de dentro pra fora. E então, de repente, ela me empurrou pelo peito. Um empurrão seco, urgente, mas sem força. Como quem precisava afastar o que mais queria, antes que fosse tarde demais. — Não encosta — avisou. A voz embargada, as pupilas dilatadas, a pele arrepiada na base do pescoço. — Ainda não — respondi, encarando os olhos dela como se fossem promessa. Porque eu encostaria. Não agora. Mas em breve. E quando isso acontecesse… não seria só toque. Seria possessão. Me afastei devagar, lutando contra o impulso de agarrá-la, jogá-la contra a cerca e provar com a língua tudo o que os olhos já tinham percorrido. Dei dois passos pra trás, mas levei algo comigo. O cheiro dela. Um misto de lavanda e suor. E o arrepio que vi subir pela nuca dela… como um mapa que meu desejo queria seguir com a boca. Maya estava fugindo. Mas era de si mesma. E eu… eu estava me perdendo. E adorando. Narrado por Maya Voltei pra casa com os passos apressados e o coração batendo em lugares que não deviam bater. Não era só raiva. Era algo mais denso. Mais quente. Mais perigoso. A camisa branca, suada e amassada, colava no meu corpo como se quisesse me lembrar da presença dele. Do olhar. Do calor. Do quase toque que me deixou em chamas. Entrei e fechei a porta com mais força do que devia. Como se a madeira pudesse me proteger dele. Como se trancar o mundo lá fora fosse suficiente pra calar o que tinha explodido cá dentro. Mas não adiantava. O toque ficou. Mesmo sendo breve. Mesmo não tendo sido nada. Ou talvez tenha sido tudo. Ainda podia sentir a mão dele tocando a minha. O peso leve, quente, que percorreu meu braço feito um raio lascivo. Ficou no ombro. Na palma. No estômago. Na memória. Na pele arrepiada. Passei os dedos pelos meus próprios lábios. Como se pudesse apagar a sensação de ser... devorada com os olhos. Porque Miguel não me olhava como mulher. Não. Ele me olhava como posse. Como terra fértil que ele queria fincar estaca. Como pasto que ele queria marcar. Como bicho bravo que ele queria laçar só pra ver se conseguia me domar. E parte de mim odiava isso. Odiava esse jogo de poder, esse fogo que ameaçava engolir tudo o que construí com tanto esforço. Odiava ele me tirar o ar com um olhar. Odiava o modo como meu corpo traía minha razão. Mas a outra parte? Ah… A outra parte sussurrava coisas que eu fingia não escutar. A outra parte queria ser domada. Só pra provar que ninguém consegue. Queria o toque dele. Queria a língua dele me desmentindo na pele. Queria o peso do corpo dele por cima do meu. Queria as mãos sujas dele abrindo espaço nas minhas defesas. Mas o pior não era isso. O pior era saber que... eu queria. E não podia admitir. Nem pra mim mesma. Não ainda. Mas um dia... talvez. E isso era ainda mais perigoso do que o próprio Miguel.
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