Capítulo 2 – A Moça Que Carrega a Terra no Sangue

1983 Words
Maya Acordei antes do sol, como sempre. Não precisava de despertador. Meu corpo já sabia o que fazer. Meus pés tocaram o chão de cimento ainda frio e a lembrança da dívida pendente com o banco veio como uma pancada no peito. A Fazenda Monte Verde não era só terra e gado. Era a memória do meu avô. Era o suor do meu pai enterrado sob a raiz de cada árvore. Era meu sangue misturado à poeira vermelha e ao cheiro do leite ordenhado de madrugada. Eu era filha do campo. E filha da dor. Enquanto lavava o rosto, respirei fundo. A água fria não apagava o peso nos ombros, mas despertava a coragem que eu fingia ter todos os dias. Não havia tempo para medo. Muito menos para distrações... como o novo capataz de olhos escuros e sorriso de pecado. Miguel. O nome dele ecoava com uma força desconfortável na minha mente. Era só um funcionário. Nada mais. Mesmo que os olhos dele me queimassem por dentro. Mesmo que meu corpo, ingrato, respondesse com arrepios e calor cada vez que ele passava por mim. Ajeitei o coque no alto da cabeça, vesti a calça jeans já desbotada, a camisa branca que resistia às lavagens, e enfiei as botas firmes nos pés. Aquela era a minha armadura. E o campo, meu campo de guerra. Desci para a cozinha. Dona Olívia, minha funcionária mais antiga e quase uma segunda mãe, já preparava o café. — Dormiu m*l de novo, Maya? Dei de ombros, pegando a caneca de barro. — Dormir bem dá prejuízo. E eu não posso me dar esse luxo. Ela balançou a cabeça, servindo o café quente. — Cuidado pra não endurecer demais. Seu pai já era assim, e olha o que aconteceu. Engoli o gole com dificuldade. Ela estava certa. Mas eu não podia me permitir fraqueza. Ainda mais agora, quando a venda da fazenda parecia iminente e os boatos sobre um leilão circulavam como urubus sobre carniça. — Hoje vou até a cidade tentar renegociar com o banco. Se não der certo... — suspirei, sem terminar a frase. Olívia se aproximou e segurou minha mão com carinho. — A fazenda vai sobreviver. Você tem o sangue da terra, menina. E essa terra ainda vai florescer sob teus pés. Assenti, engolindo a emoção. Aquela mulher sabia mais de mim do que eu mesma. E mesmo sem dizer, ela via o que me corroía por dentro: o medo de fracassar. O medo de perder tudo. Horas depois, já no curral, vi Miguel montando o cercado com habilidade surpreendente. Forte, ágil, concentrado. A camisa colava no peito suado, revelando músculos que pareciam esculpidos em madeira bruta. Mas não era só o físico. Era a forma como ele dominava o espaço. Como se aquele lugar fosse dele. Como se tivesse nascido ali, entre bois, arames e poeira. Aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir. — Está se saindo bem, capataz — falei ao me aproximar, cruzando os braços. Ele ergueu o olhar. E, de novo, aquele choque. — Quando o lugar inspira, o trabalho flui — respondeu, com um sorriso que ameaçava desarmar minhas defesas. Revirei os olhos, tentando esconder o impacto. — Só espero que continue fluindo quando o bicho pegar. Porque vai pegar. Essa fazenda não é para os fracos. — Nem eu. A resposta veio firme, quase num sussurro. E, por um instante, nossos olhares se prenderam como se o tempo tivesse congelado. A brisa levantou poeira. O som distante do berrante ecoou no vale. Mas tudo o que eu sentia era o calor dele. A presença dele. E o perigo de me perder de mim mesma. Mas eu não podia. Eu tinha um objetivo: salvar a fazenda. E Miguel, com todos os seus músculos e mistérios, não era parte do plano. Por enquanto. Maya me chamou com um gesto firme da mão. Seguimos por um caminho de terra batida que levava até o curral. O sol ainda estava alto, o ar cheirava a feno e suor, e os gritos dos peões eram abafados pelo ronco de um trator ao fundo. — Miguel! — ela disse alto, chamando a atenção de todos os funcionários. — Esse aqui é o novo capataz. Chegou hoje. O nome é Miguel Dias. Vai estar no comando da lida com o gado e dos reparos gerais. Qualquer problema, falem com ele. Olhares desconfiados se voltaram para mim. Havia ali cerca de dez homens, cada um com o rosto queimado pelo sol e os olhos marcados por cansaço e tempo. — Capataz? — murmurou um deles, alto, braços cruzados. — Mais um pra mandar e sumir na primeira semana? — Se ele sumir, eu mesmo boto ele pra fora — Maya respondeu com a voz afiada. — Mas se alguém quiser testar a autoridade dele, que me avise antes. Pra eu preparar a demissão. O silêncio caiu como uma foice. Ninguém retrucou. Ela se virou para mim e ergueu uma sobrancelha. — Alguma dúvida, capataz? Neguei. Meu olhar estava nela. Sempre nela. Aquela mulher era fogo e aço. E eu queria me queimar. Os homens dispersaram aos poucos, voltando ao trabalho. Maya ficou parada por um momento, observando a movimentação. — Você vai dormir na antiga casa do Zeca, ao lado do galpão. Tem banheiro, cozinha e uma cama dura. Amanhã quero você no curral às cinco em ponto. — Alguma chance de um café antes disso? Ela sorriu. Lento. Provocante. — Se quiser meu café, vai ter que me convencer. E então se virou, deixando para trás um rastro de perfume e uma promessa implícita. Eu sabia lutar, mentir, vencer. Mas não sabia o que fazer com uma mulher como ela. E talvez, bem no fundo... eu nem quisesse saber. Acomodação era um elogio para aquele lugar. Uma casinha simples de madeira, com reboco descascando nas bordas, uma cama de solteiro com colchão fino, uma pia antiga de ferro e uma geladeira que fazia mais barulho do que gelava. Não havia luxo, não havia frescura. Mas havia o cheiro da terra. E um pedaço de silêncio que eu não sabia que precisava. Larguei minha mochila no canto, tirei a camisa suada e encarei meu reflexo no espelho quebrado. A imagem era de um homem comum. Mas o fogo dentro do peito era tudo, menos comum. Porque uma mulher tinha mexido comigo de um jeito que nem os negócios, nem a guerra da minha família, nem os anos fora do país conseguiram. Maya. Aquela mulher ia me destruir. Ou me salvar. Maya caminhava à minha frente com passos firmes, as botas batendo contra a terra seca, marcando o ritmo do meu novo destino. O sol já estava alto, mas o calor que me queimava por dentro vinha dela — da mulher que cheirava a lavanda, carregava o poder nos quadris e a altivez no olhar. Era impossível não notar a forma como os outros homens a observavam. Alguns com respeito. Outros com desejo. Um ou dois com inveja. Mas nenhum com o olhar que eu estava tentando esconder. Ela me conduziu até o espaço ao lado do galpão, onde um grupo de peões ajeitava fardos de feno e consertava uma cerca danificada. — Atenção aqui — ela chamou, com a voz firme que cortava o ar como um chicote. Todos pararam. Um silêncio pesado caiu no ambiente. — Esse aqui é Miguel Dias. A partir de hoje, ele é o novo capataz da Monte Verde. Alguns se entreolharam. Um dos mais velhos, com a pele curtida pelo sol e um cigarro preso no canto da boca, ergueu as sobrancelhas. — Outro? — murmurou ele. — O último não durou duas semanas. — Miguel é diferente — Maya respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa. — E se não for... eu mesma coloco pra fora. Um riso abafado ecoou, mas cessou rápido. Maya não sorria. Ela comandava. E eles sabiam disso. — Qualquer problema, resolvam com ele. Se não resolverem, venham a mim. Mas eu garanto: quem testar, vai se arrepender. Ela se virou para mim, o rosto a poucos centímetros do meu, os olhos fixos nos meus como se buscassem algo além do homem que eu fingia ser. E talvez, por um instante, ela tivesse encontrado. — Tem algo a dizer, capataz? Engoli em seco. Parte de mim queria dizer tudo. Que eu não era Miguel Dias, que eu não estava ali só pela vaga, que o sangue que corria nas minhas veias não era de peão. Mas a parte que estava fascinada por ela; aquela parte que queimava toda vez que ela se movia, escolheu o silêncio. — Estou aqui para fazer o que precisa ser feito — respondi, a voz firme, sem entregar o turbilhão que ela provocava dentro de mim. — Ótimo. Os homens vão mostrar a rotina, mas é você quem vai liderar. Comece amanhã às cinco. — E onde eu fico? Ela assentiu com a cabeça em direção à pequena construção nos fundos. — Antiga casa do Zeca. Simples, mas funcional. E então, antes de virar as costas, ela me lançou um daqueles sorrisos que não vinham dos lábios — vinham dos olhos. Um sorriso curto, rápido, quase imperceptível... mas que me atingiu como um soco no estômago. E por mais que meu plano fosse manter distância, observar, entender... eu já não conseguia. Porque a cada vez que nossos olhares se cruzavam, a pele dela queimava a minha. E a cada vez que ela sorria... eu esquecia quem era. Aquela mulher estava me destruindo em silêncio. E nem sabia. Ou pior... sabia, e fazia questão de ignorar. Eu a observava de longe, fingindo revisar uma trave da cerca, enquanto ela conduzia uma bezerra recém-nascida para a sombra. Seus dedos calejados eram firmes, mas havia ternura nos gestos. A camisa branca colada ao corpo por causa do suor revelava mais do que devia. A calça jeans, encardida de poeira, subia até a cintura fina como se tivesse sido feita sob medida pela própria terra. Maya era o tipo de beleza que não precisava de maquiagem, salto ou salão. Ela era crua. Feita de sol, barro e fogo. E era exatamente isso que me desarmava. Eu, que sempre estive cercado por loiras polidas da alta sociedade, mulheres que sorriam sem mostrar os dentes e falavam como se nunca tivessem pisado no chão — agora estava ali, com o olhar grudado numa mulher que chutava pedras com a ponta da bota, xingava como um peão e suava como quem luta por tudo o que ama. E eu… eu estava encantado. Com aquele coque bagunçado. Com aquele olhar que mandava e mordia. Com a boca que parecia feita pra ser beijada com os olhos fechados e o coração aberto. — Cuidado, patrão… — murmurou uma voz grave ao meu lado. Virei a cabeça devagar e dei de cara com o rosto enrugado de Zaqueu, o peão mais antigo da fazenda. Tinha mãos tão grossas quanto troncos e olhos que viam mais do que deviam. — Como é? — perguntei, franzindo o cenho. Ele cuspiu no chão, limpou a boca com as costas da mão e sem tirar o cigarro do canto da boca, falou com um sorrisinho de quem já viu muito: — Conheço esse brilho no olho aí, moço. Já vi antes. No olhar do pai da Maya, quando conheceu a mãe dela. E também no de um cavalo bravo que se apaixonou por uma égua indomável... No fim, nenhum dos dois sossegou. Mas morreram tentando. Soltei um riso pelo nariz, sem responder. — Essa moça carrega a terra no sangue — ele continuou. — E terra, quando pega na pele, não sai fácil. Assenti devagar. Porque eu sabia. Aquela mulher já tinha manchado a minha pele. Mas o que me assustava... era que eu queria mais. Queria que ela sujasse tudo. Minha mente. Minha cama. Meu nome. E talvez, até meu coração.
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