Capítulo 6 – Me Beija Como Se Fosse Ódio

1562 Words
Narrado por Maya — Essa parte do celeiro não precisa de reforço, já foi arrumada! — gritei, arrancando a ferramenta da mão dele. Miguel me olhou como se eu fosse uma tempestade prestes a desabar, um vendaval capaz de virar a vida de ponta-cabeça. — Foi m*l. Achei que precisava — disse, seco, mas os olhos… ah, os olhos queimavam como brasas. — Acha demais pra quem chegou ontem — rebati, erguendo o queixo como quem ergue uma espada invisível. Ele se aproximou. Devagar. Como quem provoca um touro bravo apenas com a força de um olhar. — E você defende demais o que já está prestes a cair — retrucou, com um sorriso torto que era veneno e convite ao mesmo tempo. O ar entre nós ficou pesado, quase sólido. Não era só disputa de território. Não era só orgulho. Era química. Era o corpo gritando tudo aquilo que a boca tentava calar. — Vai me dizer como cuidar do que é meu? — sibilei, a voz carregada de fúria. — Se fosse realmente seu, não estaria prestes a perder. — As palavras dele me atingiram como um tapa, sem mãos, mas com toda a força. Dei um passo à frente. O peito quase tocando o dele. E vi um lampejo nos olhos de Miguel. Não era medo. Era provocação. — Você não sabe nada sobre mim, capataz. Ele inclinou o rosto, tão perto que sua respiração quente roçou meu nariz. O maxilar dele se contraiu como se tentasse segurar um desejo perigoso. — Sei que você treme quando eu chego perto. E eu… fiquei muda. Porque ele tinha razão. E isso me deixava furiosa. Não com ele. Comigo mesma. Narrado por Miguel Ela tentou passar por mim, altiva como sempre, mas o olhar… aquele olhar me ferveu por dentro. Antes que conseguisse escapar, segurei o braço dela e a encostei contra a parede de madeira do celeiro. O som seco das costas dela contra a estrutura ecoou como um trovão abafado. Mas ela não gritou. Não recuou. Ela me encarou. Firme. Linda. Insuportavelmente desejável. — Solta. Agora. — A voz dela era como uma lâmina mergulhada em mel: cortava, mas ao mesmo tempo seduzia. Me aproximei mais, o corpo quase colando no dela. — Você quer que eu solte... ou quer que eu segure mais forte? As narinas dela se dilataram, o peito subindo e descendo num ritmo que não tinha mais nada de controle. Maya tentou empurrar meu peito com as duas mãos, mas eu capturei seus pulsos com facilidade e os prendi acima da cabeça, contra a madeira. — Isso aqui é só raiva, capataz! — ela cuspiu as palavras, os olhos faiscando como lâminas em duelo. — Então por que sua respiração tá toda errada? — sussurrei contra o rosto dela. O nariz dela roçou no meu, e por um segundo… o mundo inteiro ficou pequeno demais pra conter aquilo. Ódio. Tensão. E um desejo que urrava dentro de mim, pedindo pra explodir. Ela estremeceu. E eu… me perdi naquele tremor. Narrado por Maya Eu o odiava. Odiava o jeito que ele me prendia como se tivesse esse direito. Odiava o calor que subia pelas minhas pernas só porque ele estava perto demais. Odiava não conseguir olhar para a boca dele… sem desejar provar. Quando ele me desafiou com os olhos, eu deveria ter virado o rosto. Mas virei o corpo. Dei um passo à frente. E ele também. A distância desfez-se num estalo, como se algo dentro do universo tivesse quebrado. Ele me beijou como se estivesse com raiva. E eu respondi como quem busca vingança. A boca dele tomou a minha, quente, úmida, faminta. Um beijo que parecia soco. Um beijo que parecia grito. As línguas brigaram primeiro, ferozes, até se entenderem num ritmo febril. Era como se o ódio nos empurrasse e o desejo segurasse firme pra gente não cair. Mordi o lábio dele. Ele gemeu contra minha boca, me puxando pela cintura e colando nossos corpos até não sobrar espaço nem pra um pensamento. As mãos dele subiram pelas minhas costas, e a parede virou prisão e refúgio. — Isso não devia… — tentei falar, sem fôlego, mas ele não deixou. Me calou de novo. Com a boca. Com o corpo. Com tudo que ele era e que eu sempre tentei ignorar. E ali, entre feno, farpas e respirações ofegantes… eu beijei o homem que jurei não querer. E desejei que ele nunca parasse. Narrado por Miguel Ela me empurrou. Não com força. Mas com medo. E não era medo de mim. Era medo dela mesma. As mãos dela tocaram meu peito como quem tenta apagar incêndio com vento — um gesto inútil, desesperado, cheio de contradição. Senti a palma quente contra minha camisa, um toque rápido, mas carregado de uma eletricidade que percorreu direto minha espinha. As pernas dela tremiam. Vi cada músculo se contorcendo na luta silenciosa entre orgulho e entrega. Ela queria se manter firme, mas eu sabia: estava desmoronando por dentro. — Isso foi um erro — ela sussurrou, a voz tão baixa que poderia ter se confundido com o som do feno sendo esmagado sob nossos pés. Mas nem ela acreditava no que dizia. Eu percebi na hesitação, no olhar que fugiu e voltou, no tremor da boca ainda marcada pela minha. Me afastei um passo. Só um. O suficiente para ter uma visão completa dela. E a cena me atingiu como um soco. A boca vermelha, úmida, latejando de desejo. O peito arfando como se cada respiração fosse pecado. E os olhos… aqueles olhos que gritavam: “Vai embora”. Mas imploravam: “Fica mais um pouco”. E naquele instante, percebi o quanto Maya era feita de contradições. Forte e frágil. Orgulhosa e vulnerável. Brava como tempestade, mas prestes a se partir com um toque. — Quer que eu peça desculpas? — perguntei, a voz rouca, impregnada da vontade que ainda queimava em mim. Ela demorou para responder, como se precisasse juntar todos os pedaços do próprio orgulho antes de soltar as palavras: — Quero que suma. Sorri de canto, um sorriso mais amargo do que provocativo. — Mente m*l demais, Maya. E era verdade. A mentira estava estampada nela. No corpo que ainda tremia, nos olhos que não conseguiam me expulsar de verdade, na respiração que pedia mais de mim. Ela virou o rosto, como quem tenta se esconder do que sente. Mas não se moveu. Ficou ali, colada à parede, os braços cruzados sobre o peito como se fossem um escudo contra um inimigo que ela não queria derrotar. Era proteção. Ou, talvez, uma tentativa falha de manter vivo o vazio que deixei quando afastei meu corpo do dela. Dei mais um passo atrás. Lento. Preciso. Mas deixei minha presença cravada nela, como faca na carne. Eu sabia que, mesmo sem minhas mãos, ela ainda me sentia. O cheiro do meu corpo. O peso do meu olhar. A lembrança da minha boca. Porque quando o corpo fala primeiro, a alma passa o resto da vida tentando fingir que não escutou. E o dela… já tinha gritado para mim. Narrado por Maya Saí correndo do celeiro. Não por ele. Por mim. Cada passo parecia um golpe contra o chão de terra batida, como se eu pudesse esmagar a confusão que latejava dentro de mim. O ar frio da tarde invadia meus pulmões em rajadas curtas, mas não era suficiente para apagar o incêndio que Miguel deixara em mim. Porque o gosto da boca dele ainda estava na minha. Doce e amargo. Um veneno que vicia. Porque meus lábios ardiam mais do que qualquer palavra que eu pudesse cuspir para afastá-lo. Não era dor, era memória. A lembrança úmida, quente, quase c***l daquele beijo que me arrancara de mim mesma. Corri até a varanda, os pés pesados como se carregassem o peso de um segredo. Apoiei as costas na parede, tentando me fundir à madeira fria, e fechei os olhos. Mas o beijo voltou. Não como lembrança distante, mas como uma repetição viva. Violento. Molhado. Real. A boca dele esmagando a minha, as línguas duelando, os dentes roçando como se quisessem marcar território. Eu podia jurar que ainda sentia o cheiro do feno, o gosto metálico da raiva misturado ao calor úmido da entrega. Maldito seja o homem que sabe exatamente como me ferir… e, ainda assim, me fazer querer mais. O silêncio do campo parecia zombar de mim, como se cada grilo, cada folha balançando ao vento soubesse que eu não era mais a mesma depois daquele beijo. Ele ficou lá dentro. Eu sabia. Sentia. Imóvel, com o corpo queimando de raiva e desejo, os lábios ainda manchados de mim. Miguel não precisava aparecer para estar presente; a energia dele atravessava paredes, cercas, distâncias. Ele era uma marca invisível na minha pele. — i****a — murmurei, a palavra escapando como um sussurro rouco. Apertei a mão contra o peito, tentando conter o coração que batia descompassado, teimoso, no mesmo ritmo que a boca dele tinha imposto ao meu corpo. Do outro lado, mesmo sem vê-lo, eu sabia: Miguel estava pensando a mesma coisa. Foi um erro. Um erro quente demais pra não repetir. E o silêncio da fazenda, carregado e denso, guardava o eco daquilo que nenhum de nós ousava dizer em voz alta: “Me beija de novo… mesmo que doa.”
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