Capítulo 5 – A Primeira Noite, o Primeiro Choque

1375 Words
Narrado por Maya A casa de hóspedes era simples, mas Miguel fazia tudo parecer menor. Até as paredes pareciam estreitar quando ele entrava. Eu estava de braços cruzados na porta do quarto, vendo as malas jogadas sobre a cama de casal que agora, por contrato, era nossa. Nossa. Maldita palavra. Ele saiu do banheiro com a toalha pendurada no ombro e o corpo ainda molhado, o cheiro de sabonete misturado ao da pele quente. Estava sem camisa, os músculos do peito e do abdômen iluminados pela luz amarela do abajur. As gotas de água escorriam lentas por entre as linhas definidas, descendo até o cós da calça jeans. E por um instante... Eu esqueci de respirar. Mas só por um. — Vai dormir no sofá? — perguntei, tentando soar indiferente, enquanto minha libido gritava feito égua solta em cio. Ele se virou, calmo, como se meu olhar não tivesse percorrido cada centímetro do corpo dele. — Não — respondeu, com a voz baixa e firme. — Estamos casados. Vamos dormir no mesmo quarto. Não vou ser alvo de piada no meio dos peões. E então o olhar dele afundou no meu. — A não ser que você tenha medo de não resistir. Arregalei os olhos, mas a boca... travou. Porque ele estava certo. Não só pelo que disse. Mas pelo que meu corpo denunciava. — Medo? — rebati, fingindo escárnio. — Tenho medo de aranhas, Miguel. De peão com ego inflado, não. Ele sorriu. Lento. Sacana. E, maldito seja, bonito demais. — Pra quem não queria dividir quarto… você saiu ganhando — disse ele, olhando pra minha blusa fina colada ao corpo. — Vai negar que gostou do que viu? Meu sangue ferveu. Peguei o travesseiro e taquei nele com força. — Babaca. Ele pegou o travesseiro no ar e riu. Riu alto. Como se tivesse vencido alguma guerra íntima entre o sim e o quase. — Boa noite, esposa — provocou, indo até a cama. — Vai dormir no chão se continuar com esse sorriso. — Vai me olhar enquanto eu durmo? — Não. Mas vou sonhar que te asfixio com outro travesseiro. Ele deitou com os braços atrás da cabeça e fechou os olhos, ainda sorrindo. E eu... Eu fiquei parada. Porque aquela noite não ia terminar em beijo. Mas o desejo... Ah, o desejo já tinha arrancado a minha paz. E a guerra que se iniciou ali; entre cobertas divididas, corpos separados e vontades gritantes, seria só o começo. Deitei do lado esquerdo da cama, o mais longe possível. A distância entre nós era de apenas alguns palmos. Mas parecia um campo minado, cada movimento errado podia explodir o que restava da minha sanidade. Virei de costas pra ele. Mas era inútil. Porque o corpo sentia. Sentia o calor que vinha do lado dele. Sentia a respiração profunda e ritmada. Sentia... o desejo que não dormia. Fechei os olhos, tentando focar no barulho do ventilador. Um chiado contínuo, quase hipnótico. Mas a imagem do peito dele molhado, das costas largas, da toalha pendurada nos ombros, invadia minha mente como uma praga boa. Daquelas que você quer arrancar... mas não consegue. Ele também não dormia. Eu sabia. Porque o silêncio dele gritava. Era um silêncio tenso, carregado de palavras não ditas. De vontades engolidas a seco. — Tá acordada? — ele perguntou, com a voz baixa, rouca, como se tivesse sido arrancada de um sonho quente. Demorei a responder. — Tô. Silêncio de novo. Mas agora, não era mais o mesmo. Era um silêncio que pesava no peito, que aquecia entre as pernas, que fazia a pele arrepiar só de imaginar a possibilidade... — Tô tentando ser respeitoso — ele murmurou. — Mas você não facilita. Me virei. Devagar. — E você acha que é fácil dormir com um homem feito você do meu lado? Ele me olhou. Intenso. Cru. Verdades dançavam entre nós. Nenhum dos dois teve coragem de soltá-las. — Boa noite, Maya — ele disse, desviando o olhar. — Boa noite, Miguel. Mas o que a gente queria mesmo dizer era: “Se você me tocar agora, eu não fujo.” E essa verdade não dita... Queimou mais que qualquer beijo. Narrado por Miguel Ela respirava fundo. Não era sono. Era resistência. Cada suspiro que vinha do lado dela me fazia cravar as mãos no colchão. Porque Maya… ela era um veneno que eu não queria curar. Um fogo que me queimava devagar, sem pressa, como se estivesse me ensinando a perder o controle de forma consciente. Vi quando ela se virou, os olhos fechados, os cílios tremendo como se lutassem contra um sonho. Mas não era sonho. Era o corpo dela... respondendo ao meu. Mesmo sem toque. Mesmo sem palavra. Pensei em levantar. Tomar um banho frio. Me afastar. Mas havia algo ali, entre nós, que me mantinha preso. Um ímã. Uma promessa. Um inferno disfarçado de paraíso. Ela murmurou alguma coisa. Meu nome. Baixo. Raspado. Quase um suspiro que escapou sem querer. E por um segundo, eu me aproximei. Milímetros. Só o suficiente pra sentir o calor dela atravessando a distância. Minha mão quis tocá-la. Mas parei no ar. Porque se eu tocasse... não teria volta. E eu ainda queria fingir que estava no controle. Me deitei de costas, encarando o teto escuro. Mas tudo o que eu via era a curva do corpo dela, a boca entreaberta e o jeito como dizia meu nome sem saber. Ela não sabia que me acordava só por respirar. E eu não sabia que resistir à vontade de tê-la… doía mais do que qualquer ferida da minha vida. Narrado por Maya Acordei com o coração acelerado. O quarto estava escuro, mas eu sentia... Ele ainda estava ali. Virei devagar, os lençóis sussurrando meu movimento. E o encontrei. Olhos abertos. Fixos em mim. Como se ele também não tivesse conseguido dormir. Como se estivesse me vigiando com os olhos e desejando com o corpo. — Não consegue dormir? — sussurrei, a voz baixa, rouca de sono... ou de algo mais. — Não com você tão perto. A resposta veio sem hesitar. Crua. Honesta. Do tipo que a gente sente entre as pernas. Engoli em seco. Meus olhos desceram pelo peito dele, nu, coberto por metade do lençol. O contorno dos músculos. A pele dourada pela luz tímida da lua. — Vai ficar me olhando como se eu fosse sobremesa? — ele provocou, com aquele sorriso de quem sabe exatamente o efeito que causa. — Vai ficar acordado me provocando até eu perder a cabeça? — retruquei, de volta. Silêncio. Denso. Elétrico. Quase palpável. — Um passo seu... — ele murmurou — e eu não paro. Fiquei ali. A respiração presa. A pele fervendo. Mas não me movi. Porque parte de mim queria avançar. E a outra... ainda lutava pra não se render. Ele virou de lado. E eu também. Mas o calor? Esse ficou entre nós. Como um fio invisível. Tenso. Quase estourando. Como um toque que não aconteceu… mas marcou do mesmo jeito. Narrado por Miguel Ela virou de costas. Mas eu sabia. A respiração dela não estava calma. O corpo não estava tranquilo. E eu… Eu estava em guerra comigo mesmo. O lençol virou obstáculo. A cama, um campo minado. Mas o corpo dela… Era a perdição mais doce que o silêncio já me ofereceu. Avancei. Com a coragem de quem não ia fazer nada… Mas queria tudo. Toquei a cintura com uma das mãos, sentindo a pele quente através do tecido fino. Ela congelou. Mas não se afastou. Não gritou. Não disse “não”. Puxei-a devagar, até que as costas dela encostassem no meu peito. E ali, no escuro, no meio daquela cama de mentiras e promessas não ditas… eu a abracei. — Dorme, Maya — sussurrei contra seu cabelo, o nariz roçando a nuca dela. A mão dela tocou a minha. Os dedos não entrelaçaram. Mas se aceitaram. E eu fechei os olhos, como quem tenta domar um incêndio com respiração lenta. Mas não adiantou. O calor dela me incendiava. E o que era só um contrato… já ameaçava virar desejo com nome, cheiro e corpo. Ela dormiu primeiro. Eu? Passei a noite inteira… queimando no abraço que deveria ser seguro. Mas era tudo. Menos seguro.
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