Capítulo 4 – Casamento em Troca de Raízes

2395 Words
Narrado por Maya O ventilador do banco girava devagar, como se tivesse pena da gente. Cada volta era uma sentença. A sala cheirava a papel antigo, suor e indiferença. O gerente me olhava por cima dos óculos, como quem já sabia o final da história e não se importava com ele. — A Fazenda Monte Verde está em vias de leilão, dona Maya. Você tem até o dia vinte e oito. Depois disso, nada mais estará em seu nome. A forma como ele disse “nada” bateu fundo. Como se ele não falasse só da terra. Mas do meu passado. Do meu nome. Do meu sangue. Assinei o documento com mãos suadas. Nem li direito. Era só mais um aviso. Mais uma contagem regressiva. Saí do banco com os passos pesados e a garganta seca. A cidade parecia ter encolhido. O som dos carros era abafado pelo zumbido dentro da minha cabeça. Meu coração batia como se tivesse encurralado. Porque estava. Voltei pra caminhonete e encostei a cabeça no volante. A imagem do meu avô veio de novo, mãos calejadas segurando um punhado de terra e dizendo “isso aqui é herança. Isso aqui é semente”. E agora... essa semente estava à beira de ser arrancada. Eu não chorei. Porque não sou dessas. Mas senti. Senti no estômago. Na alma. Na pele que já era cicatriz de luta. E então, como se o universo soubesse que eu estava prestes a quebrar, meu celular vibrou. Número desconhecido. Atendi. — Boa tarde. Falo em nome do escritório jurídico Munhoz & Rodrigues. Recebemos uma proposta de solução extrajudicial para o caso da Fazenda Monte Verde. — Proposta? — Uma forma legal de salvar a propriedade sem leilão. Envolve um acordo matrimonial com cláusula contratual. Você continua como proprietária, mas se casa, em regime parcial de bens, com um parceiro que se compromete a quitar o débito junto ao banco. É legal, limpo e imediato. Silêncio. Casamento? Com um estranho? Meu orgulho gritou. Mas minha razão... ajoelhou. — Quero ouvir os termos — respondi. Porque quando a raiz da tua história está sendo arrancada... Você faz o que for preciso pra não deixar a terra morrer. Narrado por Miguel O pneu do trator estava furado. Eu estava coberto de graxa, com os braços suados e o boné enfiado até as sobrancelhas quando o telefone tocou no bolso de trás. — Sr. Montenegro, aqui é do escritório Munhoz & Rodrigues. Temos uma alternativa legal para garantir a aquisição da Fazenda Monte Verde sem chamar atenção pública ou gerar escândalos. Envolve um casamento contratual com a herdeira. Sem exposição. Sem riscos. Tudo legalizado. Fiquei em silêncio por dois segundos. Casamento? Com a mulher que me olhava como se quisesse cravar os dentes e fugir depois? Com a mesma que morde o lábio toda vez que tenta resistir ao que sente? Deixei a chave inglesa cair no chão seco e cocei a barba com as mãos sujas. — Ela sabe disso? — Não. A proposta será feita por via indireta. Oficialmente, você será apresentado como investidor e parceiro rural. O acordo, se assinado, resolverá as dívidas da fazenda e dará a você o acesso necessário à propriedade. Mas a decisão precisa ser rápida. Ela está com pouco tempo. — E se ela recusar? — Ela não vai. Está afundando. E quando a terra começa a afundar, qualquer galho parece salvação. Engoli em seco. A lógica dizia pra recusar. Era arriscado. Sujo. Complicado. Mas o nome dela ecoava na minha mente como uma febre lenta: Maya. A mulher que me desafiava com o silêncio, que me provocava com os olhos e queimava minha pele mesmo sem encostar. Eu já não queria só a fazenda. Eu queria ver até onde ela aguentava resistir antes de se render. E, no fundo... Talvez eu quisesse ver até onde eu aguentava. — Eu aceito — disse, sem hesitar.Mesmo sabendo que ele ainda não tinha dito quem era pra ela. Mas não pelo contrato. Não pela terra. Nem mesmo pela vingança. Aceitei pela mulher que andava com as mãos nos bolsos, os olhos no chão… e uma tempestade na alma. ... Mais tarde, naquela mesma tarde quente de céu limpo e ar seco, ouvi sua voz. Estava perto do galpão velho, onde as janelas estavam entreabertas e as paredes de madeira deixavam escapar mais do que o vento. — Eu só preciso de alguém que se case comigo — ela disse a alguém, a voz baixa, áspera de cansaço. — Um contrato. Nada mais. Só pra mostrar ao banco que eu tenho uma fonte segura de apoio. Eles querem estabilidade, querem o nome de um homem ao lado do meu pra liberar os fundos e manter o nome da fazenda limpo. —Não vou me casar com qualquer um. Já que é o nome de um homem que eles querem,eles terão. Meu peito apertou. Aquela mulher tão brava... Tão cheia de garras… Estava quase quebrando. Voltei dois passos. Esperei. Minutos depois, ela saiu. Sozinha. O rosto sério. A camisa amassada e os cabelos presos com raiva. E foi ali que decidi. Aproximei-me com passos firmes, a poeira levantando ao redor das minhas botas. — Se você ainda precisa de um marido... eu topo. Ela parou. O corpo enrijeceu. Virou-se devagar, como se esperasse ouvir ironia. Mas encontrou apenas firmeza. — Do que está falando? — disse, com a sobrancelha arqueada. — Do que você disse no galpão. Que precisa de um homem ao seu lado pro banco parar de te perseguir. Ela cerrou os olhos, avaliando. — Está se oferecendo? — Estou. Por mim, a gente casa amanhã. E assina o contrato hoje. Ela me olhou fundo. E, por um momento, vi o medo e o orgulho duelando nos olhos dela. Mas tinha algo mais ali também. Um fogo silencioso. Um desejo que ela achava que escondia. — Por que você faria isso? Cheguei mais perto. Não encostei. Não precisava. — Porque eu quero ver você vencer. E porque… a ideia de ser teu marido por contrato não me parece castigo. Parece desafio. Ela respirou fundo. O queixo levemente erguido. — Isso não é sobre paixão, capataz. — Ainda não — respondi. E esperei. Até que ela disse… com a voz quase trêmula: — Me encontra às oito. Na cozinha. Com os papéis. E então virou as costas. Mas antes de entrar em casa, vi. Ela sorriu. Só um pouquinho. Mas sorriu. E aquele sorriso… foi a minha primeira vitória. Narrado por Maya A cozinha estava silenciosa, exceto pelo tique-taque do relógio velho na parede. O cheiro de café fresco ainda pairava no ar, mas nada em mim era fresco naquele instante. Só cansaço. E raiva. De mim. Do mundo. E dele. Miguel estava ali, sentado na ponta da mesa de madeira com um advogado do lado — um homem magro, de óculos finos e voz que soava como um contrato ambulante. Coloquei a xícara de café sobre a mesa, com mais força do que devia. — Casamento? — repeti, cada letra saindo como se tivesse gosto de ferrugem. O advogado abriu a pasta de couro com a frieza de quem não entendia nada sobre raízes, dor ou terra vermelha encharcada de lembranças. — Sim, senhorita Monte Verde. A proposta é clara: a fazenda permanece no seu nome, mas o senhor Miguel entrará como sócio legal por meio de um casamento civil. Com cláusulas. Tempo determinado. A dívida será quitada imediatamente após o registro da união. Sem interferência do banco. Sem risco de leilão. Respirei fundo, mas o ar veio seco. Meus olhos pararam na borda da xícara. Ela tremia. Ou era minha mão? — E se eu recusar? — perguntei, a voz baixa, firme… até onde consegui. — A propriedade será leiloada em trinta dias. E a dívida total cairá diretamente sobre o seu CPF, incluindo os bens da sua avó, que foram deixados em garantia. Foi como levar um coice no peito. Engoli em seco, sentindo as paredes se fecharem ao meu redor. Miguel não disse nada. Só me olhava. Firme. Aquele olhar dele… de quem sabe o que quer. De quem não pede permissão. — E ele? — perguntei, voltando os olhos para o advogado. — O que ele ganha com isso? Ele ajustou os óculos com a ponta dos dedos e respondeu como se dissesse “bom dia”. — Um contrato vantajoso de investimento. Um vínculo que garante segurança jurídica para aquisição futura. E… uma esposa temporária. Senti a raiva subir pela garganta como fel. Esposa. Como se isso fosse um título descartável. Como se eu fosse uma cláusula no final de um documento. Miguel mexeu os ombros, ajeitando a postura. Não parecia desconfortável. Nem satisfeito. Apenas… decidido. E isso me irritava ainda mais. — E você, capataz? — disparei, olhando direto nos olhos dele. — Está pronto pra carregar meu nome como quem carrega tralha velha? Ele se inclinou um pouco sobre a mesa, os cotovelos firmes, os olhos cravados nos meus. — Eu carrego o que for preciso, se for por algo que valha a pena. Arrogante. Calmo. Quente. E terrivelmente certo de si. Fechei os olhos. Imagens do meu avô surgiram de novo. Do meu pai. Dos campos que vi nascer e das noites que passei chorando em silêncio pra manter aquela fazenda em pé. Eu podia perder a dignidade. Mas não a terra. Porque essa terra era meu sangue. Minha história. Minha luta. E, de algum jeito que eu ainda não conseguia entender… Miguel fazia parte disso agora. — Eu aceito — disse por fim, a voz falhando no fim da frase. Abri os olhos. Ele me olhava. E naquele instante, soube: Esse casamento podia não ter amor. Mas ia ter tudo o que arde antes do amor acontecer. E talvez… fosse pior assim. Porque o desejo, quando não tem permissão pra existir… Queima o dobro. Narrado por Miguel Não houve flores. Nem aliança. Só um envelope amassado e a tensão grudando no ar como suor em pele de lavrador. Ela estava sentada na cadeira da varanda, as pernas cruzadas, o rosto virado pro pasto como se pudesse fugir da decisão que se aproximava — e de mim. O sol de fim de tarde desenhava o contorno dos ombros dela, dourando os fios castanhos e realçando cada sombra de raiva que o dia plantou. Ela não me olhou de imediato. Mas quando falou, a voz veio carregada do peso de alguém que aprendeu a engolir o orgulho antes do café da manhã. — Então Miguel eu vou casar? Assenti, apoiando a mão na madeira quente da grade. — Vai ser só um contrato, Maya. Nenhum de nós precisa fingir o que não sente. Ela se virou devagar. E me encarou como quem mede um homem com o olhar. Os olhos dela eram um campo em chamas. E eu… um t**o pronto pra queimar. — O problema é que eu sinto — disse com firmeza. — E você também sente. Não respondi. Não neguei. Ela ergueu o envelope, como quem ergue uma arma. — Mas isso aqui — ela disse, sacudindo os papéis — não tem espaço pra sentimento. Nem pra mentira. — Então vamos jogar limpo — respondi. — Eu te dou o que você precisa… e você me deixa ficar. Ela riu. Uma risada seca, ferida, cheia de desprezo. Mas havia algo mais por trás. Algo que tremia entre os dentes dela: dor. — Sabe por que eu aceitei isso, capataz? — Diz pra mim. Ela se levantou, os olhos cravados nos meus. — Porque a outra opção era casar com um rico metido a b***a. Um herdeiro cheio de pompa que tá tentando comprar minhas terras há três anos como se elas fossem uma jóia de leilão. Abaixou o olhar por um segundo, mas a voz saiu forte: — E eu prefiro mil vezes casar com um peão… do que perder minha terra pra um almofadinha de gravata. Um silêncio tenso se instalou. E eu quase ri. Porque aquele “almofadinha” que ela odiava… Era eu. A ironia queimava no meu peito feito uísque velho. Mas ao invés de revelar a verdade — ainda —, eu apenas sorri. Lento. Cheio de gosto. — Vai ser um prazer casar com você, dona da terra. Ela apertou os lábios, como se o sorriso quase escapasse. Mas não escapou. E então virou as costas e entrou, deixando no ar o rastro do perfume quente que sempre me desorienta. Fiquei ali. Olhando pro horizonte… e pensando que aquele contrato podia ser o maior erro da vida dela. Ou o meu. Mas, por algum motivo… eu torcia pra que fosse dos dois. Narrado por Maya A caneta estava na minha mão. O papel, sobre a mesa. E os olhos dele… cravados nos meus. Não era um altar. Não havia flores. Nem votos. Só silêncio. E respiração contida. Assinei com os olhos fixos nos dele. Mãos firmes. Traço reto. Nenhuma hesitação aparente. Mas por dentro… Por dentro, eu tremia. Não por medo do homem. Mas pelo que o homem despertava. Era mais que desejo. Era algo que escorria pelos poros, que empurrava minhas paredes internas, que me invadia sem permissão. Na noite anterior, sonhei com ele. De novo. Com o toque. Com o calor de sua pele suada na minha. Com a voz rouca dizendo meu nome como se fosse um feitiço. Com aquele olhar que me despiu sem jamais tirar minha roupa. E agora, ali, diante do contrato que selava nossa união de mentira, percebi que não era só a fazenda que eu estava tentando salvar. Era a mim mesma. Era o que restava da minha coragem, da minha história, do meu nome sujo de terra e orgulho. E talvez... Talvez esse papel não fosse só um acordo. Talvez fosse o início da ruína que eu jurei nunca viver. Ou… Quem sabe… A raiz de algo novo. Algo que ainda não tinha nome. Mas que já ardia dentro de mim como semente viva pedindo pra florescer. Fechei os olhos. Respirei fundo. E assinei. Assinei como quem crava uma estaca na própria terra. Como quem sela um pacto com o próprio destino. Ou com a própria perdição. Quando abri os olhos, ele ainda me olhava. E ali, naquele instante, tive certeza: Eu não ia sair inteira disso. Mas sairia viva. E talvez… mais viva do que nunca.
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