Capitulo 01
Capítulo 1 — Metralha
Meu nome é João Victor… mas faz tempo que ninguém me chama assim.
Aqui no morro, nome de batismo não vale de nada. Nome que pesa é o que tu constrói. E o meu… é Metralha.
Não foi escolha. Foi consequência.
Tenho 26 anos nas costas e uma vida inteira que me empurrou pra esse lugar. Tem gente que cresce brincando na rua, indo pra escola, sonhando com futuro. Eu cresci aprendendo a identificar som de tiro antes de saber tabuada. Aprendi cedo que o mundo não é justo… e que quem hesita, perde. Ou vira vítima.
E eu nunca aceitei esse papel.
Mas também não nasci assim.
Teve um tempo em que eu era só o João. Filho. Irmão. Moleque que corria pela viela sem medo de nada. Esse tempo acabou no dia em que enterraram meus pais.
E não… não foi o destino. Foi escolha de alguém. Covardia. Uma emboscada suja, armada por um tenente que queria medalha no peito e promoção nas costas de cadáver. O alvo era meu pai. Mas bala não escolhe quem atinge. Quando o inferno desceu naquele dia… levou os dois.
Minha mãe morreu junto. E eu não tava lá.
Essa é a parte que mais pesa. Não foi só perder eles. Foi não ter feito nada. Não ter impedido. Não ter sequer tentado.
Ali… naquele cemitério… olhando os dois caixões descendo… alguma coisa dentro de mim morreu também.
O que sobrou? Ódio. E uma promessa.
Eu lembro até hoje do gosto seco na boca, da mão tremendo, do peito ardendo… enquanto eu encarava a terra cobrindo quem me deu vida. Eu prometi. Eu ia cobrar. Não importava quando. Não importava como.
Mas vingança não paga conta. Não enche geladeira. Não protege quem ainda tá vivo.
E eu ainda tinha ela. Jéssica. Minha irmã gêmea. Minha outra metade.
Se não fosse por ela… talvez eu tivesse me perdido de vez. Porque naquele momento… era muito fácil virar só ódio andando. Mas eu tive que segurar. Por ela. Por nós.
Foi ali que eu entendi que infância tinha acabado. Não teve despedida, não teve transição. Foi arrancada de mim na marra. Eu virei homem… porque não tinha outra opção.
E junto com isso… veio responsabilidade. A casa. O morro. As pessoas. Porque quando um sistema cai, alguém assume. Sempre foi assim.
E eu assumi.
No começo foi na raça. No improviso. Errando, aprendendo, batendo de frente com quem achava que eu não ia dar conta. Mas eu dei.
Com o tempo, meu nome começou a circular. Primeiro baixo, depois mais alto… até virar o que é hoje. Respeito. Não aquele bonito, que vem de admiração. Mas o que importa. O que faz n**o pensar duas vezes antes de atravessar.
Eu não me orgulho disso. Mas também não me arrependo. Porque aqui… ou você impõe… ou você é esmagado.
Só que ninguém constrói império sozinho.
E se hoje eu ainda tô de pé… tem nome nisso. Borges. Meu braço direito. Meu irmão de escolha.
A vida colocou ele no meu caminho quando eu ainda tava aprendendo a andar nesse jogo. E desde então… nunca saiu. Ele é o tipo de cara que não precisa falar muito. Só de olhar eu já sei. E ele também.
Teve noite que eu pensei em largar tudo. Sumir. Deixar essa p***a pegar fogo. E foi ele que segurou.
— Tu não pode cair agora, menor — ele dizia. — Tem gente que depende de tu.
E tinha. Ainda tem.
Borges não é só meu sub. Ele é equilíbrio. Enquanto eu sou impulso… ele é cálculo. Enquanto eu sou fogo… ele é freio. E é por isso que dá certo. Porque alguém precisa pensar quando o outro quer agir.
Mas se na rua eu tenho controle… dentro de casa é outra história.
Karla. Minha mulher. Fechada comigo de um jeito que pouca gente é. Leal. Firme. Daquelas que encara qualquer um sem baixar a cabeça. E eu admiro isso.
O problema… é que ela é assim com todo mundo. Inclusive com a única pessoa que eu nunca vou colocar abaixo de ninguém. Jéssica.
E aí vira guerra.
As duas são iguais em uma coisa: nenhuma aceita perder espaço. É olhar atravessado, resposta atravessada, clima pesado… e quando vê, já tá em discussão. Já teve dia de porta batendo tão forte que parecia tiro.
E eu no meio. Sempre no meio. Tentando equilibrar o que não tem equilíbrio.
Porque eu não posso escolher. Não existe cenário em que eu viro as costas pra minha irmã. Mas também não existe cenário em que eu abandono quem tá comigo, lado a lado, todo dia.
Resultado? Eu evito. Fico na rua mais tempo do que devia. Resolvo problema que nem é urgente. Dou volta sem necessidade. Tudo pra não ter que encarar aquele silêncio pesado dentro de casa.
Porque é isso que mais me incomoda. Mais que tiro. Mais que inimigo. A sensação de não ter controle. E eu odeio não ter controle.
Só que naquele dia… nem isso eu tive tempo de pensar.
Porque problema de verdade… não espera.
O plano era simples. Assalto rápido. Limpo. Sem barulho desnecessário. Dinheiro alto, movimento já estudado, equipe escolhida a dedo. Coisa básica pra gente.
Eu nem precisei ir. Fiquei de longe, só monitorando. Supervisão. Confiança. Ou pelo menos… era o que eu achava.
Tava encostado, observando o movimento do morro, quando o rádio chiou. Na hora, não estranhei. Comunicação é constante. Mas o tom… o tom entrega tudo.
— Metralha…
A voz do Borges veio diferente. Pesada. Tensa. E eu senti na hora.
Meu corpo travou antes mesmo da minha mente processar. Quando ele me chama assim… não é coisa pequena.
— Fala.
Silêncio. Um segundo. Dois. Tempo suficiente pro meu coração acelerar e minha cabeça começar a montar cenário. E nenhum deles era bom.
— Deu merda.
Simples. Direto. Mas carregado.
Meu maxilar travou na hora. A mão apertou o rádio com força.
— Que p***a aconteceu?
Chiado. Respiração do outro lado. E aí veio.
— Os vapores ramelaram, menor… fizeram merda.
Senti o sangue subir. Quente. Rápido. Violento. Meu olhar endureceu na mesma hora, varrendo o horizonte como se eu pudesse enxergar o erro dali.
— Que tipo de merda, Borges?
Dessa vez ele não respondeu na hora. E isso… isso só confirmou. Era grande. Quando a resposta demora… é porque o problema cresceu.
— Polícia na cola — ele soltou, seco. — E não é pouca.
Meu peito apertou. Não de medo. De raiva. Porque isso não tava no plano. Nada daquilo tava.
— Como?
— Um dos moleques se embolou na saída… chamou atenção demais. Teve disparo.
Fechei os olhos por um segundo. Disparo. Barulho. Exposição. Era tudo que a gente evitava.
— Tem ferido?
Mais um silêncio. E eu já sabia.
— Tem.
Minha mão passou pelo rosto, puxando o ar com força. A situação já tinha saído do controle. E agora era contenção.
— Onde vocês tão?
— Em deslocamento. Mas a viatura já colou atrás.
Olhei ao redor, rápido. Minha mente já trabalhando. Calculando rota. Tempo. Risco.
— Escuta — minha voz saiu fria, firme. — Não tenta puxar pro morro direto.
— Já pensei nisso.
Claro que pensou. Era o Borges.
— Corta pela rota três. Dispersa antes de subir. Eu vou preparar aqui.
— Copiado.
O rádio ficou em silêncio. Mas dentro de mim… não. Porque eu sabia. Aquilo não era só mais um erro. Não era só um assalto que deu r**m. Era o tipo de falha que abre brecha. Que chama atenção. Que faz gente grande olhar pra cá.
E quando isso acontece… nada continua igual.
Fiquei parado por alguns segundos, olhando o nada. Sentindo aquela sensação que nunca falha. Aquela que vem antes da tempestade.
Respirei fundo. Uma vez. Duas. E aí me movi.
Porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida… é que problema não espera. E eu também não.
Porque se tem guerra vindo… eu vou ser o primeiro a estar pronto.