O cliente sem rosto
O relógio de parede do escritório marcava seis horas da tarde em ponto. O som do trânsito na avenida lá fora era um zumbido constante, misturado ao barulho do ar-condicionado e ao estalo das teclas do computador de Gabriel.
Gabriel era o tipo de cara que passava despercebido. Cabelos alinhados, camisa social simples e uma rotina previsível. Trabalhava no atendimento de uma pequena empresa de consultoria e contabilidade no centro da cidade. Seu dia consistia em organizar papéis, atender clientes e garantir que tudo estivesse nos devidos lugares.
Mas aquela sexta-feira fugiria completamente da rotina.
Enquanto ajeitava a mesa para finalmente fechar a recepção e ir para casa, Gabriel notou algo no balcão de madeira do atendimento. Uma pasta de couro preto, grossa e sem nenhuma etiqueta ou identificação.
Ele franziu a testa, tentando se lembrar de quem esteve ali por último. Um homem de terno cinza, que aparentava estar com muita pressa, assinou um formulário rápido e saiu sem falar quase nada. Devia ter esquecido a pasta na pressa.
— Que cabeça a dele... — resmungou Gabriel, pegando o objeto pesado.
Ele abriu a pasta com a intenção de encontrar um cartão de visitas ou um número de telefone para avisar o dono. Mas o que viu lá dentro fez seu coração dar um salto.
Não havia nomes de empresas ou notas fiscais comuns. A pasta guardava relatórios com cifras astronômicas em moedas estrangeiras, códigos impressos e várias fotos em preto e branco. Gabriel pegou uma das imagens: reconheceu imediatamente o rosto de um empresário influente da cidade, registrado em um ângulo discreto, como se estivesse sendo espionado. Ao lado da foto, anotações manuscritas com datas e a palavra "Eliminado" circulada em caneta vermelha.
Um frio repentino percorreu a espinha de Gabriel. Ele fechou a pasta num baque seco, o peito subindo e descendo rápido. Aquilo não era contabilidade. Aquilo era algo perigoso.
Antes que tivesse tempo de raciocinar sobre o que fazer, o som de passos pesados ecoou no corredor do prédio.
Gabriel olhou pela divisória de vidro da recepção. Dois homens altos, vestindo casacos escuros e com o olhar sério, vinham direto em direção à porta do escritório. A postura firme e a mão de um deles mantida estrategicamente dentro do casaco deixavam claro que não eram clientes comuns.
— Ele esqueceu. Eles voltaram — sussurrou Gabriel para si mesmo, sentindo a boca secar.
O pânico ameaçou travá-lo, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Sem pensar duas vezes, ele deslizou a pasta de couro para dentro da sua própria mochila de costas, puxou o zíper rapidamente e a jogou debaixo da mesa, bem no canto escuro.
A maçaneta da porta girou. Os dois homens entraram.