Magia é coisa de criança

1950 Words
Júlia : Freei o carro o mais rápido possível , mas ainda assim acabei atropelando a pessoa . Deixei o carro o mais depressa e corri em direção a pessoa . — Você está bem ? — perguntei preocupada . Era um homem , de cerca de trinta anos , vestindo um suéter vermelho . Ele ergueu a cabeça , olhou para mim e sorriu . — É você ! — foram as duas últimas palavras dele antes de desmaiar em meus braços . — Aí meu Deus do céu ! — falei desesperada — Eu matei um homem . Olhei em volta e comecei a gritar por socorro . — Socorro ! Alguém ajuda ! — eu estava ficando maluca — Ei , acorda , você . Moço , você não pode morrer . Celular , era isso . Tirei o celular do bolso e liguei para a emergência , pedindo socorro . — Olha , fica comigo , ok ? — pedi — Você não pode morrer , eu não posso me tornar uma assassina . As pessoas começaram a se aglomerar a minha volta , observando tudo em choque . Alguns minutos depois , a ambulância chegou , o levaram para o hospital e eu fui atrás com o meu carro . O médico o examinou cuidadosamente e então me tranquilizou . — Ele está bem ! — ele disse — Foi apenas o susto , ele vai se recuperar logo . Então , respirei aliviada . Liguei para Anne e avisei que me atrasaria , e então me sentei ao seu lado . — Você é uma namorada bem dedicada ! — o médico deduziu — Ele é um homem de sorte . — Ah não , ele não é meu namorado ! — neguei . — Tem certeza ? — ele questionou com um sorriso antes de sair . Que seja , o título de namorada de um cara estranho era melhor do que quase assassina . Agora , olhando para ele , até que aquele homem era bem bonitinho . Tinha a pele um pouco bronzeada , sombrancelhas escuras e fartas , nariz angular e lábios bem corados . Ele não era bonito demais para um homem ? Sem contar que ele parecia ser bem atlético por baixo daquele suéter . Que droga eu estava pensando sobre o cara que eu atropelei ? Eu estava ficando maluca ? A respiração dele se tornou mais rápida e forte , indicando que ele estava acordando . Me ajeitei sobre a cadeira e o olhei . Ele abriu os olhos e sorriu para mim . — Você ... — Eu ? — questionei . — É mais bonita do que eu imaginava que fosse ! — ele disse . — Desculpa , o que ? — questionei confuso . — Você é linda ! — ele sorriu . Será que eu bati o carro na cabeça dele . — Onde eu estou ? — ele perguntou se sentando sobre o leito . — No hospital ! — respondi — Mas , você está bem . Que tal se eu ligar para a sua família . — Ligar ? — ele questionou confuso . — É ! — afirmei — Que tal você me dar o telefone deles . — Eles não tem telefone ! — ele respondeu . — Então , que tal você me dar o seu endereço ? — sugeri — E eu te levo em casa . Onde você mora ? — Polo Norte ! — ele respondeu . — Polo Norte ? — agora quem estava confusa era eu — Quando você diz Polo Norte quer dizer Oceano Ártico ? — É , eu acho que sim ! — ele sorriu . Aquilo era loucura , como ele poderia morar no Polo Norte ? Como alguém conseguiria morar em um lugar tão frio como aquele ? — Tem certeza disso ? — questionei . — Tenho ! — ele respondeu . — Ok , então , que tal você me dar um endereço certinho dos seus pais ? — sugeri — Então eu posso enviar talvez uma carta . Cartas eles recebem ? — Sim ! — ele respondeu com um sorriso . — Ah , que bom ! — comentei tirando um papel e uma caneta da bolsa — Qual o endereço ? — Polo Norte , Oceano Ártico, entre os paralelos sessenta e seis e noventa graus de latitude norte , casa do papai Noel ! — ele respondeu . — Casa o que ? — perguntei incrédula de sua resposta — Você disse ... — Papai Noel ! — ele repetiu . Ah , só podia ser brincadeira , tantas pessoas no mundo e justo eu tinha que atropelar um maluco que acredita morar com o papai Noel . — Claro ! — sorri frustrada — Me dê um minuto , sim ? O deixei sozinho no quarto de hospital e chamei o médico . — Ele acordou , mas não parece normal ! — falei . — Como assim ? — ele perguntou . — Ele disse que mora com o papai Noel ! — contei — Eu não o atropelei com tanta força assim . — Tudo bem , vamos verificar ! — ele disse entrando no quarto . O segui e observei enquanto ele examinava aquele cara . — Você disse que mora no Polo Norte ? — o doutor questionou — Talvez com os seus pais ? — Sim ! — ele respondeu com um sorriso . — E qual o nome dos seus pais ? — ele questionou . — Minha mãe se chama Maria e meu pai Joulupukki ! — ele contou — Mas , eles são mais conhecidos como Papai e Mamãe Noel ! Ele era maluco . Completamente maluco . — Certo , então você é o filho do papai Noel ? — o doutor perguntou esboçando a maior calma do mundo . — Sim ! — ele concordou . — Ok ! — ele sorriu — E consegue se lembrar do seu nome ? — Gael ! — ele respondeu . O doutor fez algumas anotações na ficha e me segurando de leve pelo ombro , me levou para um canto mais afastado . — Me parece que o rapaz tem um certo tipo de problema mental ! — ele disse — Ele acredita que é filho do Papai Noel , se ele tem mesmo problemas mentais , deve ter alguém procurando por ele . — Certo , e até essas pessoas aparecem , o que fazemos ? — questionei . — Bem , você o encontrou ! — ele ajeitou os óculos — Portanto , é a responsável por ele . Deve cuidar dele até que a família o procure . — Eu não o encontrei ! — neguei — Eu só ... — Boa sorte ! — ele desejou me dando um tapinha no ombro e deixando o quarto . — Merda ! — resmunguei . Olhei para aquele homem e por fora ele parecia extremamente normal , quem diria que alguém assim era completamente doido da cabeça ? Filho do Papai Noel . Essa era boa . Tudo o que eu precisava agora era ter um maluco para cuidar . Ganhei na loteria . Paguei a conta do hospital e o levei para a minha casa . Ele olhou em volta e me encarou sério . — Onde estão as cores ? — ele questionou . — Que cores ? — questionei . — Tudo é tão cinza e apagado ! — ele disse — Parece tão triste . — Ricos não gostam de esbanjar cores ! — afirmei jogando a bolsa sobre o sofá . — Tudo bem , mas você já aparenta ser triste , por que a sua casa também tem que ser ? — ele era mesmo intrometido . — Olha só , Gael , é Gael , não é ? — ele acenou com a cabeça em afirmativa — Dá para esquecer a cor da minha casa ? — Mas é muito ... — Olha só , aqui você não opina , porque essa é a minha casa e não o seu iglu ! — reclamei . — Iglu ? — ele perguntou confuso . — A casa do Papai Noel ! — expliquei — Ele não mora no Polo Norte ? — Está confundindo o Papai Noel com um pinguim ! — ele disse — O Papai Noel não mora em um iglu , e sim em um castelo enorme que fabrica sonhos das crianças do mundo inteiro . — É claro que sim ! — resmunguei entediada — Óbvio que ele mora em um castelo , onde eu estava com a minha cabeça . Me joguei no sofá e soltei um longo suspiro . Ouvi os passos da fiel e já bem cansada senhora Smith ecoando pela casa . — Senhorita Moore , o que gostaria para o ... — as palavras morreram em seus lábios ao ver o homem de pé ao lado do sofá — Quem é esse ? Seus olhos percorreram o homem de cima a baixo . — Davina , esse é o Gael ! — contei . — Sim , mas o que ele faz aqui ? — ela perguntou curiosa — Não me diga que ... — Eu o atropelei esta manhã ! — contei . — O atropelou ? — ela pareceu surpresa , mas não tanto , era como se já esperasse algo assim vindo de mim . — É , eu o atropelei ! — repeti — E ele não se lembra de onde mora , ainda por cima parece ter os parafusos meio soltos e agora sou a responsável por ele até que a sua família apareça ! — Ou , isso é uma história e tanto ! — ela disse . — Eu não tenho os parafusos meio soltos ! — ele disse — Nem me esqueci de onde eu moro . Eu disse a você , eu moro no Polo Norte . — Polo Norte ! — agora ela parecia bem surpresa . — Ele pensa que é filho do Papai Noel ! — contei — Eu disse que ele parece ter os parafusos meio soltos . — Eu não sou maluco ! — ele insistiu — Eu realmente sou filho do Papai Noel . — Certo , certo , Noel Júnior ! — Me levantei e olhei para Davina — Por favor , toma conta dele para mim até eu voltar ! — Tudo bem ! — ela concordou . Peguei a minha bolsa no sofá e caminhei até a porta . — Júlia , espera ! — ele correu até mim — Onde você vai ? — Para o trabalho ! — respondi — Por favor , não quebre a minha casa enquanto eu estiver fora , nem finja que o meu sofá é um trenó . Comporte-se até eu voltar , ok ? — Ok ! — ele concordou com um sorriso . Puxa , ele tinha um sorriso bem bonito . O deixei aos cuidados de Davina , e então peguei o meu carro na garagem , seguindo de volta para o trabalho . Só quando eu deixei o carro na garagem do shopping foi que eu percebi que não havia dito o meu nome a ele , então , como ele sabia ? Será que ele era um stalker se fingindo de louco ? Se ele fosse um stalker , quem estava ferrado era ele que cruzou o meu caminho , não eu .
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