Júlia :
Freei o carro o mais rápido possível , mas ainda assim acabei atropelando a pessoa .
Deixei o carro o mais depressa e corri em direção a pessoa .
— Você está bem ? — perguntei preocupada .
Era um homem , de cerca de trinta anos , vestindo um suéter vermelho .
Ele ergueu a cabeça , olhou para mim e sorriu .
— É você ! — foram as duas últimas palavras dele antes de desmaiar em meus braços .
— Aí meu Deus do céu ! — falei desesperada — Eu matei um homem .
Olhei em volta e comecei a gritar por socorro .
— Socorro ! Alguém ajuda ! — eu estava ficando maluca — Ei , acorda , você . Moço , você não pode morrer .
Celular , era isso .
Tirei o celular do bolso e liguei para a emergência , pedindo socorro .
— Olha , fica comigo , ok ? — pedi — Você não pode morrer , eu não posso me tornar uma assassina .
As pessoas começaram a se aglomerar a minha volta , observando tudo em choque .
Alguns minutos depois , a ambulância chegou , o levaram para o hospital e eu fui atrás com o meu carro .
O médico o examinou cuidadosamente e então me tranquilizou .
— Ele está bem ! — ele disse — Foi apenas o susto , ele vai se recuperar logo .
Então , respirei aliviada .
Liguei para Anne e avisei que me atrasaria , e então me sentei ao seu lado .
— Você é uma namorada bem dedicada ! — o médico deduziu — Ele é um homem de sorte .
— Ah não , ele não é meu namorado ! — neguei .
— Tem certeza ? — ele questionou com um sorriso antes de sair .
Que seja , o título de namorada de um cara estranho era melhor do que quase assassina .
Agora , olhando para ele , até que aquele homem era bem bonitinho .
Tinha a pele um pouco bronzeada , sombrancelhas escuras e fartas , nariz angular e lábios bem corados .
Ele não era bonito demais para um homem ?
Sem contar que ele parecia ser bem atlético por baixo daquele suéter .
Que droga eu estava pensando sobre o cara que eu atropelei ? Eu estava ficando maluca ?
A respiração dele se tornou mais rápida e forte , indicando que ele estava acordando .
Me ajeitei sobre a cadeira e o olhei .
Ele abriu os olhos e sorriu para mim .
— Você ...
— Eu ? — questionei .
— É mais bonita do que eu imaginava que fosse ! — ele disse .
— Desculpa , o que ? — questionei confuso .
— Você é linda ! — ele sorriu .
Será que eu bati o carro na cabeça dele .
— Onde eu estou ? — ele perguntou se sentando sobre o leito .
— No hospital ! — respondi — Mas , você está bem . Que tal se eu ligar para a sua família .
— Ligar ? — ele questionou confuso .
— É ! — afirmei — Que tal você me dar o telefone deles .
— Eles não tem telefone ! — ele respondeu .
— Então , que tal você me dar o seu endereço ? — sugeri — E eu te levo em casa . Onde você mora ?
— Polo Norte ! — ele respondeu .
— Polo Norte ? — agora quem estava confusa era eu — Quando você diz Polo Norte quer dizer Oceano Ártico ?
— É , eu acho que sim ! — ele sorriu .
Aquilo era loucura , como ele poderia morar no Polo Norte ? Como alguém conseguiria morar em um lugar tão frio como aquele ?
— Tem certeza disso ? — questionei .
— Tenho ! — ele respondeu .
— Ok , então , que tal você me dar um endereço certinho dos seus pais ? — sugeri — Então eu posso enviar talvez uma carta . Cartas eles recebem ?
— Sim ! — ele respondeu com um sorriso .
— Ah , que bom ! — comentei tirando um papel e uma caneta da bolsa — Qual o endereço ?
— Polo Norte , Oceano Ártico, entre os paralelos sessenta e seis e noventa graus de latitude norte , casa do papai Noel ! — ele respondeu .
— Casa o que ? — perguntei incrédula de sua resposta — Você disse ...
— Papai Noel ! — ele repetiu .
Ah , só podia ser brincadeira , tantas pessoas no mundo e justo eu tinha que atropelar um maluco que acredita morar com o papai Noel .
— Claro ! — sorri frustrada — Me dê um minuto , sim ?
O deixei sozinho no quarto de hospital e chamei o médico .
— Ele acordou , mas não parece normal ! — falei .
— Como assim ? — ele perguntou .
— Ele disse que mora com o papai Noel ! — contei — Eu não o atropelei com tanta força assim .
— Tudo bem , vamos verificar ! — ele disse entrando no quarto .
O segui e observei enquanto ele examinava aquele cara .
— Você disse que mora no Polo Norte ? — o doutor questionou — Talvez com os seus pais ?
— Sim ! — ele respondeu com um sorriso .
— E qual o nome dos seus pais ? — ele questionou .
— Minha mãe se chama Maria e meu pai Joulupukki ! — ele contou — Mas , eles são mais conhecidos como Papai e Mamãe Noel !
Ele era maluco .
Completamente maluco .
— Certo , então você é o filho do papai Noel ? — o doutor perguntou esboçando a maior calma do mundo .
— Sim ! — ele concordou .
— Ok ! — ele sorriu — E consegue se lembrar do seu nome ?
— Gael ! — ele respondeu .
O doutor fez algumas anotações na ficha e me segurando de leve pelo ombro , me levou para um canto mais afastado .
— Me parece que o rapaz tem um certo tipo de problema mental ! — ele disse — Ele acredita que é filho do Papai Noel , se ele tem mesmo problemas mentais , deve ter alguém procurando por ele .
— Certo , e até essas pessoas aparecem , o que fazemos ? — questionei .
— Bem , você o encontrou ! — ele ajeitou os óculos — Portanto , é a responsável por ele . Deve cuidar dele até que a família o procure .
— Eu não o encontrei ! — neguei — Eu só ...
— Boa sorte ! — ele desejou me dando um tapinha no ombro e deixando o quarto .
— Merda ! — resmunguei .
Olhei para aquele homem e por fora ele parecia extremamente normal , quem diria que alguém assim era completamente doido da cabeça ?
Filho do Papai Noel .
Essa era boa .
Tudo o que eu precisava agora era ter um maluco para cuidar .
Ganhei na loteria .
Paguei a conta do hospital e o levei para a minha casa .
Ele olhou em volta e me encarou sério .
— Onde estão as cores ? — ele questionou .
— Que cores ? — questionei .
— Tudo é tão cinza e apagado ! — ele disse — Parece tão triste .
— Ricos não gostam de esbanjar cores ! — afirmei jogando a bolsa sobre o sofá .
— Tudo bem , mas você já aparenta ser triste , por que a sua casa também tem que ser ? — ele era mesmo intrometido .
— Olha só , Gael , é Gael , não é ? — ele acenou com a cabeça em afirmativa — Dá para esquecer a cor da minha casa ?
— Mas é muito ...
— Olha só , aqui você não opina , porque essa é a minha casa e não o seu iglu ! — reclamei .
— Iglu ? — ele perguntou confuso .
— A casa do Papai Noel ! — expliquei — Ele não mora no Polo Norte ?
— Está confundindo o Papai Noel com um pinguim ! — ele disse — O Papai Noel não mora em um iglu , e sim em um castelo enorme que fabrica sonhos das crianças do mundo inteiro .
— É claro que sim ! — resmunguei entediada — Óbvio que ele mora em um castelo , onde eu estava com a minha cabeça .
Me joguei no sofá e soltei um longo suspiro .
Ouvi os passos da fiel e já bem cansada senhora Smith ecoando pela casa .
— Senhorita Moore , o que gostaria para o ... — as palavras morreram em seus lábios ao ver o homem de pé ao lado do sofá — Quem é esse ?
Seus olhos percorreram o homem de cima a baixo .
— Davina , esse é o Gael ! — contei .
— Sim , mas o que ele faz aqui ? — ela perguntou curiosa — Não me diga que ...
— Eu o atropelei esta manhã ! — contei .
— O atropelou ? — ela pareceu surpresa , mas não tanto , era como se já esperasse algo assim vindo de mim .
— É , eu o atropelei ! — repeti — E ele não se lembra de onde mora , ainda por cima parece ter os parafusos meio soltos e agora sou a responsável por ele até que a sua família apareça !
— Ou , isso é uma história e tanto ! — ela disse .
— Eu não tenho os parafusos meio soltos ! — ele disse — Nem me esqueci de onde eu moro . Eu disse a você , eu moro no Polo Norte .
— Polo Norte ! — agora ela parecia bem surpresa .
— Ele pensa que é filho do Papai Noel ! — contei — Eu disse que ele parece ter os parafusos meio soltos .
— Eu não sou maluco ! — ele insistiu — Eu realmente sou filho do Papai Noel .
— Certo , certo , Noel Júnior ! — Me levantei e olhei para Davina — Por favor , toma conta dele para mim até eu voltar !
— Tudo bem ! — ela concordou .
Peguei a minha bolsa no sofá e caminhei até a porta .
— Júlia , espera ! — ele correu até mim — Onde você vai ?
— Para o trabalho ! — respondi — Por favor , não quebre a minha casa enquanto eu estiver fora , nem finja que o meu sofá é um trenó . Comporte-se até eu voltar , ok ?
— Ok ! — ele concordou com um sorriso .
Puxa , ele tinha um sorriso bem bonito .
O deixei aos cuidados de Davina , e então peguei o meu carro na garagem , seguindo de volta para o trabalho .
Só quando eu deixei o carro na garagem do shopping foi que eu percebi que não havia dito o meu nome a ele , então , como ele sabia ?
Será que ele era um stalker se fingindo de louco ?
Se ele fosse um stalker , quem estava ferrado era ele que cruzou o meu caminho , não eu .