Farelo Narrando
Não vou mentir nessa, tô cansado pra c*****o. Só tava esperando dar 8 horas em ponto pra ralar peito, ir pra minha goma, tomar aquele banho, bater um café da manhã de peão, cair na cama e tirar um cochilo. Só aí, quem sabe, começaria o dia — na verdade, pra mim, seria o fim do dia.
Tava na barreira quando recebi uma mensagem da enfermeira pedindo pra eu ir ver a mina que chegou ontem no morro. Devia estar meio perdida.
Abri a mensagem. Ela queria saber que horas abria. Só perguntei onde ela tava e fui direto pra lá.
Quando cheguei, os fogos estouraram no céu. A mina entrou em pânico. Não sabia se a deixava em casa ou voltava pro meu posto. Mas não dava pra largar ela ali no meio da Penha, ainda mais em dia de invasão. Então fui levar ela em casa.
Ela subiu na moto sem querer encostar em mim. Subi em direção à casa dela, com a mente já pesada, imaginando o Granada gritando porque eu não tava no meu posto.
Assim que ela entrou em casa, o rádio apitou. A voz parecia uma rajada. Saí de lá sem nem ter tempo de responder o homem.
Fala aí, truta, meu nome é Fábio Nogueira, vulgo Farelo. Se eu fosse vocês, nem tentaria entender esse apelido. A coroa dizia que eu era mirrado, magrinho, então ficou Farelo. Até hoje não sei bem por quê, mas pegou desde moleque, e geral do movimento me conhece assim. Tenho 25 anos e tô no corre desde os 15. Se antes eu era farelo por ser moído, hoje sou um baita monte de farelo, com 1,85m de altura. Sou branco, mas bronzeado de sol, com um rosto marcante, queixo quadrado e largo, bigode na régua e cabelo bem tratado. Peito e braço tatuados. Sou diferenciado nessa parada, e as minas se amarram. Sou filho da Dona Ercília e do João do Facão. Mais pra frente vocês vão entender o porquê do "Facão". Meu coroa tem um passado sombrio. É um dos matadores mais conhecidos do mundo. O que o povo não sabe é que ele se esconde aqui, mas a fama dele corre o Brasil.
Farelo:— Putä que pariu, três dias de invasão — falo voltando pro meu posto, num sobrado, esperando a hora do infeliz aparecer.
Pequeno:— Se tu soubesse o sacrifício pra médica me liberar — diz o Pequeno, passando um adesivo por cima do curativo. — Ela acha que eu ia ter paciência pra ficar deitado só por causa de uma bala.
Rádio on
Bomba:— Estão na posição? Eles começaram a se movimentar — diz Bomba, e já me ajeito.
Farelo:— Tô aqui, Bomba. Vamos pra cima — respondo, desligando o rádio. Deixo o Pequeno na parte de cima do sobrado e desço.
Rádio off
Patolino: — Tô indo pra entrada principal. Tem uns caras do DK lá, mas eu quero resolver. — Ele chama minha atenção e do Pequeno, balançamos a cabeça concordando. Patolino faz sinal e vai pulando pelas lajes da quadra de trás.
Xxx:— O cara não n**a que é o chefe de segurança, hein — comenta um dos vapores, quando entro no beco, já me abaixando em posição de ataque.
Bota:— Quero ver se você tá vivo até amanhã pra contar história — ouço uma voz diferente, e sinto o cano de uma arma encostar na minha nuca.
Xxx:— Fudeu, Farelo — o vapor murmura, se encostando numa muretinha, com os olhos fixos na pessoa que tá atrás de mim.
Farelo:— Vai ser como eu falei, pô. Entrou, não sai mais. Quem tá lá fora, não entra — falo de olhos fechados, com uma mão no fuzil e a outra devagarinho no chão. Dou uma rasteira no cara, e o vapor descarrega. — Aqui a gente trabalha em equipe, miserável — digo, me levantando e dando mais um tiro na cabeça do infeliz. Faço toque com o vapor.
Do outro lado, já começa o movimento em direção à ladeira que leva ao alto do morro. De repente, dois helicópteros surgem no ar.
Farelo:— Carälho, eles têm tudo esquematizado, mas não sabem que a gente nasceu pronto — murmuro, correndo na direção dos moleques. Ouço gemidos.
Quando tentei subir, o helicóptero passou rasante e começou a atirar em mim. Não deu tempo nem de pensar. Vi um container, corri e me abaixei atrás dele. O barulho das balas batendo no ferro foi insuportável. Faltou pouco pra estourar meus tímpanos.
Assim que deu uma trégua, continuei subindo. Eles não desistiram, vieram com tudo pra cima de mim. Minha única opção foi me jogar e acabar caindo atrás de um barraco onde escondemos uns brinquedos.
Farelo:— Acho que tá na hora de brincar, Farelo — falo pra mim mesmo. Pego duas mochilas. Encho uma com granadas e coloco dentro da outra mochila maior. Saio devagarinho pela janela dos fundos, subo pra laje, e a festa começa.
Farelo:— TOMA PORRÄ! EU FALEI QUE VOCÊS IAM DESCER, NA VERDADE, IAM MORRER! — grito, puxando o pino das granadas e jogando na direção deles. Depois de jogar umas 10, desço e me escondo de novo. O helicóptero volta a sobrevoar.
Os tiros ficam mais intensos. O barulho e os gritos começam a diminuir. Olho no relógio: já são cinco da manhã. Quase quatro dias de guerra. Os olhos doem, a cabeça tá a ponto de explodir, e o corpo cansado. A fome é insuportável, mas o que mais mata é a sede. A gente até pode invadir casas pra tomar água, mas isso coloca os moradores em perigo. E aí não dá.
Rádio on
Bomba:— A frequência do Granada foi desativada. Alguém tem notícia do cara? Falei com ele mais cedo, mas tava na trocação — Bomba diz, preocupado.
Farelo:— Mano, deve tá vivo, porque notícia r**m corre rápido — respondo, e ele fica calado.
Bomba:— Batalha quase ganha. A Penha tá banhada a sangue, muitos moradores atingidos — Bomba comenta, e eu jogo o rádio longe.
Bomba:— Farelo, fica sussa. Vamos sobreviver, pô — ainda ouço a voz dele, mas o rádio logo para de funcionar.
Minha mente vai direto pra Elisa. A mina chegou e ainda não conseguiu se situar. A última vez que falei com ela foi quase quatro dias atrás, quando fui socorrer ela no comércio. Ela foi recebida com fogos...