Capítulo 1 - Dias atuais...

1351 Words
Samira  Respirei fundo e observei com mais atenção meu reflexo no espelho embaçado do pequeno banheiro. O barulho dos carros que passavam na avenida movimentada de Ancara soava como música para os meus ouvidos, mesmo que para algumas pessoas seja algo r**m, para mim é maravilhoso pois me faz lembrar da melhor decisão que já tomei em toda minha vida apesar de sentir falta do interior. Lembro-me como se fosse ontem do cheiro de grama molhada e do barulho das galinhas e porcos da pequena chácara em que cresci, aquilo sim era paz. Pena que meus pais sempre quiseram mais e no fim fomos parar em uma das cidades grandes do Brasil. Eles venderam tudo o que tinham com a esperança de uma vida melhor, com menos trabalho, porém quando descobrimos que havíamos sido vítimas de um golpe tudo desmoronou. Fomos para a casa de uma tia mais ao interior e vi meus pais adoecerem aos poucos, até que partiram. Não é a história que eu gosto de contar pois ainda era muito jovem na época e tudo parecia muito mais dramático e melancólico, o luto foi uma barreira complicada de passar. Uma menina de quatorze anos órfã, sendo cuidada por uma tia nada amorosa não é a forma que quero me lembrar da minha pré-adolescência, e sim da Samira que lutou para ter ao menos o ensino médio, que cuidou de crianças para garantir os materiais escolares e principalmente, da Samira que conheceu seu parceiro de alma. Pois é, foi tudo cedo demais, mas no momento em que nossos olhos se cruzaram foi amor à primeira vista. Ele é dois anos mais velho, mas é como todos dizem: mulheres amadurecem primeiro do que os homens! Nós dois lutamos juntos, crescemos juntos e até trabalhamos juntos, tudo para pagar a faculdade de engenharia que ele tanto queria fazer. Claro, seu principal plano era a faculdade de medicina, mas o valor das mensalidades e dos materiais eram exorbitantes já que ele não conseguiu bolsa então Gabriel acabou cedendo ao mundo da engenharia civil. Ele é simplesmente ótimo em tudo o que faz, e sou muito orgulhosa em tê-lo como marido. Hoje estamos completando um ano que decidimos largar tudo e nos arriscar em outro pais, do outro lado do mapa. Viemos através de um convite. Gabriel conheceu um homem herdeiro de empresas de construção e no fim consegui convence-lo a aceitar a proposta. Infelizmente meu marido é do tipo que tem medo de tudo, já eu não. Pode-se dizer que sou um pouco maluca e destemida e gosto de flertar com o perigo, ainda mais quando há a possibilidade de mudar de vida para melhor. Sempre tive ambições, sonhos e planos e por mais difíceis que tenham sido meus dias no Brasil jamais deixei de acreditar que tudo poderia mudar para melhor. Meu maior sonho é ser mãe, mas mesmo após doze anos de união ainda acho que é cedo. Estamos recém nos estabilizando e ainda quero terminar minha faculdade de dança. Acabei parando tudo quando Gabriel não conseguiu mais arcar com a sua faculdade e acabei investindo todo o meu salário por alguns anos no seu ensino. Vamos ter um futuro lindo juntos, lindo e próspero, disso tenho certeza! Depois de pentear meu cabelo e colocar um vestido branco solto no corpo caminhei até a porta do quarto e observei a cama bem arrumada e algumas pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Sei que essa parte mais romântica e quente é dever do homem, mas como meu marido não tem iniciativa alguma quando se trata disso acabei tomando frente. Quero uma noite de amor e comemoração, já que ele foi convidado para mais um projeto da empresa, garantindo nossa estadia nesse país lindo por mais alguns meses. Cada dia conta, e cada dia aqui é único. Caminhei pelas ruas da cidade meio aérea, pensando em tudo o que vivi ao lado do homem. Sei que por enquanto estou somente em casa, cuidando das nossas poucas coisas, mas a vontade de voltar à ativa está gritando dentro de mim. Provavelmente ele vai negar, vai dizer que é melhor deixar tudo como está, mas sinto que devo insistir. Antes de vir pra cá até aulas de dança eu dei, já que só o dinheiro do fast food em que eu trabalhava não estava dando conta dos boletos, e eu era boa com dança, então ficar parada não é bem saudável pra mim. Entrei no prédio sorrindo. Já sou conhecida por aqui. A recepcionista é sempre muito simpática e fala comigo em inglês pois ainda tenho dificuldade com a língua turca, coisa que preciso resolver para ontem. Já dentro do elevador meu coração começou a disparar. Por algum motivo estava me sentindo nervosa e um pressentimento muito r**m bateu com força em meu peito. Havia algo errado, e infelizmente eu nunca errei. Me lembro como se fosse ontem quando fiquei sentindo uma palpitação estranha no peito, até pensei que estivesse tendo algum tipo de infarto e no final do dia Gabriel pisou em um buraco na saída da escola e quebrou o pé. Foram tempos difíceis e ficamos sem nos ver por semanas até que minha tia me liberou para visita-lo. Não estávamos namorando escondido, mas minha tia é daquelas que só se namora nas quartas feiras, e ainda o máximo que podia rolar era um selinho e uma mão na outra. Nossa sorte sempre foi que nos fundos da escola havia uma salinha abandonada e... A porta do elevador finalmente abriu, cortando meus pensamentos distantes que já me deixaram com o rosto vermelho só de lembrar o t***o que sentia naquela época. Não que tenha mudado alguma coisa, mas depois que viemos pra cá Gabriel tem ficado mais cansado e ocupado com o trabalho. Eu faço de tudo para entende-lo. Deve ser estressante ficar o dia inteiro com pessoas estranhas que não falam sua língua. _ Gabriel? Chamei ao ver que tudo já estava apagado. Ele é do tipo que trabalha até todos saírem, e ainda fica trabalhando mais um pouco. Sempre foi muito esforçado. Caminhei até a salinha que ainda tinha as luzes acesas. Quando me aproximei escutei uma coisa que não entendi muito bem. Me aproximei mais, pouco ligando para a falta de educação que é ficar espionando atrás da porta. Ouvi risadas do meu marido e de uma mulher. Até aí tudo bem, pessoas normais riem juntos e conversam, porém observei pela pequena fresta que a loira peituda estava sentada no colo dele. Quando ela o beijou senti uma ânsia de vomito forte, que quase fez com que eu colocasse meus órgãos pra fora. Coloquei as duas mãos na minha barriga, como se fosse adiantar alguma coisa, e voltei a olhar, sem acreditar no que meus olhos estavam vendo. Sem esperar para ver no que aquele beijo cheio de língua e saliva ia dar, empurrei a porta já vendo tudo embaçado. Eu não gosto de parecer frágil, porque não sou e nunca fui, mas quando sinto muita raiva eu choro, e infelizmente não é uma coisa que posso controlar. Os dois me olharam e ela praticamente escorregou para fora do colo do homem que até agora pela manhã dizia me amar por mensagens. _ Então é esse o tipo de hora extra que você faz? Minha voz saiu embargada enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. _ Samira... eu... eu posso explicar tudo meu amor, eu só preciso que você me escute... Ele veio em minha direção fazendo menção de me tocar, então dei passos para trás. _ Eu... eu estou com nojo de você! _ Eu fiz por nós... eu fiz por nós, para garantir meu emprego... para garantir que pudéssemos ficar aqui mais algum tempo! _ Que? Então ele praticamente se vendeu pelo trabalho? A mulher atrás dele aparentava ser bem mais velha e talvez seja verdade, mas ainda sim isso não tira o meu título de corna! Virei minhas costas e praticamente corri até o elevador, chorando como uma criança que acabou de apanhar. Talvez uma boa surra da minha tia doesse menos do que essa traição.
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