Capítulo 2

1934 Words
Samira Caminhei para fora do prédio a todo vapor. Estava disposta a fazer o caminho de casa, me trancar em nosso pequeno apartamento, que no fim das contas é mais dele do que meu, e chorar até amanhecer sem saber o que fazer depois que minhas lágrimas acabassem e meus olhos inchassem. Porém por puro impulso decidi começar a caminhar sem rumo, completamente alheia e perdida em meus próprios pensamentos. Sabe aquele momento que você tem vontade de chorar e sair caminhando pelo mundo sem rumo nenhum, e sem saber ao certo onde está indo? Para a minha sorte ou não, as ruas de Ancara estavam na mais pura paz e tranquilidade. Escutei o barulho de cada passo que dei até que me perdi completamente. Não fiquei com medo, muito pelo contrário, estava fazendo o oposto do que Gabriel sempre me pediu para fazer. Ele odeia quando caminho sozinha por aí, diz que tem medo de algo r**m me acontecer, e no fim a coisa r**m veio dele e não de um estranho como ele tanto temia. Ele nunca demonstrou não me amar, muito pelo contrário. Sempre foi muito esforçado, muito querido e sempre tive certeza que o amor entre nós era reciproco. Dói saber que não. Dói saber que todos esses anos ao lado do homem não serviram para nada, apenas para acabarmos assim. O que eu faço agora? Não quero retornar ao Brasil e viver uma vida bem mais ou menos. A traição dói, mas saber que vou retroceder na vida dói muito mais. Eu não me julgo por ter dedicado meu dinheiro a ele, não me julgo por ter acreditado nas palavras que ele sempre me dizia, nas juras de amor e nas noites que passamos acordados fazendo s**o. Eu amei, amei e me machuquei como qualquer ser humano. Na realidade ainda o amo porque não tem como deixar de sentir esse sentimento de uma hora pra outra. _ Desgraçado... filho da put- Sem prestar a atenção no meu caminho pisei em uma pedra que estava frouxa no chão. Meu pé virou para um lado e meu corpo foi com tudo para frente. Aceitei a queda como se estivesse caindo no meu colchão depois de um dia cansativo, porém o impacto que senti no meu rosto me fez perceber que eu posso até ficar deprimida, sofrer por ter levado um chifre em um país estrangeiro, mas me automutilar por causa de homem jamais! Isso com certeza não faz o meu tipo. _ Ai... Resmunguei enquanto tentava me levantar. O vestido longo estava enrolado em minhas pernas dificultando que me reerguesse do chão sujo. Senti meu corpo fraco por um instante e em um piscar de olhos um homem se aproximou, agarrou meus braços e me colocou em pé. _ Moça, você está bem? Perguntou ele enquanto olhava dentro dos meus olhos. Eu nunca parei para reparar no quanto os homens turcos são bonitos. Pra ser bem sincera reparei sim, mas sempre desviava o olhar porque achava uma falta de respeito cobiçar outros homens enquanto estivesse casada. Se eu soubesse a verdadeira índole de Gabriel teria feito muito mais do que apenas olhar para outro homem. _ Sim, estou sim... apenas tropecei. _ Tem certeza? Sua mão está sangrando! Olhei para a palma da minha mão e levei um verdadeiro susto. _ Ai meu Deus... é um pedaço de vidro?! Praticamente gritei as palavras ao proferi-las. O homem deu uma risada sinistra como se o meu machucado fosse a coisa mais superficial do mundo. Puxei meus braços e agarrei meu pulso, tentando me controlar. Eu nunca fui boa em ver sangue, e quando se trata do meu pior ainda, odeio exames de sangue e qualquer coisa que envolva o liquido vermelho que corre em minhas veias! Prefiro que ele continue dentro de mim, onde ele pertence. Peguei meu telefone para ao menos ter noção de onde estou, e para a minha triste surpresa estava com apenas dois por cento de bateria. _ Droga... _ Se precisar de ajuda eu tenho um kit de primeiros socorros ali! Ele apontou para a entrada de um estabelecimento que tinha dois homens de ternos pretos na frene, imagino que sejam seguranças do lugar aparentemente luxuoso e bem badalado, já que tem alguns carros de luxo estacionados na frente. _ Eu acho que estou perto de casa. Falei tentando não ser tão grossa. Entrei no GPS e meu queixo quase caiu. _ Eu andei quase dez quilômetros? Minha mão começou a latejar, meu peito começou a doer e a vontade de chorar voltou. _ Vem, eu ajudo você e depois te levo para casa! Estava tão perdida em mim mesma e na loucura que fiz em bancar a andarilha que nem senti o quão longe minhas pernas foram capazes de me levar. O homem de risada sinistra, mas que não aparentava ser alguém tão r**m assim me levou para dentro do estabelecimento. Ainda completamente perdida não percebi o tipo de música que estava tocando, apenas fui andando até uma sala com uma mesa enorme, uma cadeira e um sofá muito confortável. Um escritório luxuoso, com adornos dourados por todas as partes e um brasão interessante de um leão enquanto aparentemente rugia esculpido em todos os móveis. Fiquei no mais absoluto silêncio sentindo meu coração acelerar cada minuto mais por perceber a enrascada em que me meti. Teria sido mais simples ter ido para o apartamento e chorado até o sol nascer. _ Ai... Resmunguei quando sem muita delicadeza o rapaz pegou minha mão e pressionou. _ Desculpe, não estou acostumado a ser delicado, mas prometo que não vai doer muito. Apenas sacudi a cabeça, e me concentrei para não chorar. Meu vestido branco estava sujo de sangue, de poeira e de alguma coisa nojenta que havia no chão em que caí. Meus cabelos estavam bagunçados devido ao vento e a queda também, sem contar no suor. Enfim, destruída. _ Por que estava chorando? _ Problemas. _ Problemas todos temos! Retrucou ele enquanto removia o pedaço de vidro. Tentei não olhar para a cena e me concentrei nos detalhes da enorme sala e tudo ali cheirava a dinheiro e charuto caro que vi alguns amigos turcos de Gabriel fumando certo dia. _ Você não deve andar sozinha por essas ruas, esse horário é bem perigoso! _ Eu sei... eu nunca vim tão longe. _ Se perdeu? _ Pode-se dizer que sim. Eu não queria dar muita satisfação da minha vida, a única coisa que eu desejava era sair logo do toque do homem que eu nem sabia o nome e ir para a minha casa enfrentar meu marido traíra. _ Resposta bem vaga... acho que você está assustada. Seus olhos estão inchados e você está perdida, sua expressão de tristeza está bem carregada e sua respiração ofegante. Pelo tamanho da aliança e no dedo em que ela se encontra, eu apostaria que você acabou de ter uma discussão bem f**a com seu marido ou descobriu um belo par de chifres! Meu rosto virou rapidamente para encarar o homem que estava concentrado na minha mão. Ele fez o serviço tão rápido e de uma forma tão prática que realmente não senti quase nada. Me mantive em silêncio enquanto ele fazia um enorme curativo. Quando terminou estendeu a mão em minha direção e olhou dentro dos meus olhos, nossos rostos estavam a uns trinta centímetros de distância. _ Meu nome é Asaf, senhorita. _ Samira... Respondi enquanto apertava a mão dele. Alguma coisa em sua expressão mudou quando falei meu nome e ele começou a analisar mais uma vez minha aparência. As expressões que fez a seguir me trouxeram um pouco de desconforto. _ Está tudo bem? Perguntei ao estranhar o cenho dele franzido. _Sim... é que você é parecida com uma pessoa que conheci... Asaf se afastou de mim e agora tínhamos uma boa distância. Ele passou a mão nos cabelos e bagunçou um pouco, e eu posso jurar por tudo que é mais sagrado, esse homem parece estar verdadeiramente confuso! _ Obrigado pela gentileza de cuidar do meu ferimento, mas acho que está na hora de ir. Falei enquanto me levantava, sentindo a leve ardência na minha mão. O olhar do homem estava tão penetrante que eu não conseguia deixar de encara-lo também. _ Acho que você realmente precisa ir, se ele ver você aqui não sei o que pode acontecer... O homem virou e foi até a mesa, pegando uma chave e o seu celular. _ Quem? Curiosidade sempre foi um ponto negativo na minha vida. _ Vem! Ele agarrou meu antebraço e me puxou para fora do escritório olhando para os lados e verificando se achava alguém. _ Moço, você está me assustando... quem não pode me ver aqui? _ Meu irmão, ele é meio... na verdade você é que é bem parecida com ela! Sem entender absolutamente nada, ele realmente me arrastou para fora do estabelecimento, que só agora eu vi que é uma boate com direito a mulheres nuas e bonitas em pole dances grudados no teto. Ele apertou o botão da chave do carro que não respondia. Praguejou em turco alguma coisa que eu não entendi. Outro homem, o que estava fazendo a segurança do local se aproximou para ajuda-lo e Asaf pareceu bem bravo. Meu maior desejo no momento era que a porta do carro abrisse, que eu entrasse dentro dela e que esse gentil senhor me levasse para casa, para olhar a cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança do meu marido depois de me trair, porém o destino gosta de brincar e fazer coisas que eu nunca vou entender. _ d***a! Pulei quando Asaf gritou irritado com o bendito carro que não aceitava os comandos do controle para destravar, e pulei de novo quando ouvi um estampido estranho, que nunca ouvi em toda minha vida, mas que marcaria minha memória para sempre. Asaf me jogou no chão e se jogou por cima de mim quase me esmagando, e vários outros disparos foram ouvidos. Meu coração disparou e o barulho dele nos meus ouvidos competiu com os tiros que os seguranças de Asaf estavam trocando contra alguns homens de moto. Quando tudo ficou em silêncio o homem gigante saiu de cima de mim e me colocou sentada. _ Samia, você está bem? Perguntou ele alisando meu rosto. Com certeza eu estava completamente pálida de medo porque ele me olhava aterrorizado. _ Meu Deus... o que foi isso? Perguntei ao sair do seu toque e me levantei, completamente apavorada. _ Samia, precisamos ir para o hospital... _ Meu nome é Samira, seu doido! Que p***a foi essa? Perguntei olhando para todos os lados. Olhei de longe um homem jogado no chão que gemia de dor. _ Precisamos ajudar... Antes de terminar a minha frase, um dos seguranças chegou perto e apertou o gatilho. Foi aí que eu percebi que estava muito, mas muito encrencada. Gritei de susto e minha perna direita amoleceu, me fazendo bater o corpo contra o maldito carro que não abriu quando precisávamos. Alisei minha cintura porque senti uma coisa ardendo. _ Samira, vou levar você para o hospital! _ Eu vou para ca- Minha outra perna amoleceu, me fazendo segurar em Asaf que estava com os olhos assustados. Quando olhei para baixo vi que meu vestido estava completamente vermelho. _ Isso é... sangue? Minha pergunta ficou no completo limbo quando meus ouvidos pararam de ouvir, quando minha respiração começou a ficar fraca e quando tudo a minha volta escureceu. É, talvez tivesse sido melhor ter levado o chifre e ter ido para casa confrontar o traidor.
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