Vendida Como Mercadoria
POV NATASHA – 4 ANOS ANTES
— Pelo amor de Deus, seu Otávio, não faz isso com a gente. Eu limpo esse lugar todo de joelhos todos os dias, trabalho fora, faço o que o senhor quiser, mas não abandona a gente.
Minha voz saiu rasgada. Senti as palmas das minhas mãos suarem frio enquanto eu me arrastava pelo chão de cimento do escritório, segurando a barra da calça dele com tanta força que as articulações dos meus dedos ficaram brancas. Atrás de mim, a Jade, com só onze anos, soluçava alto, agarrada na cintura da Safira, que tremia inteira. Meu coração martelava forte contra as minhas costelas, o ar sumindo do peito.
O seu Otávio soltou um estalo com a língua e puxou a perna com força. O impulso tirou o meu equilíbrio, jogando o meu corpo para a frente, e apoiei as mãos espalmadas no chão áspero. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão e me encarou.
— Garota, engole esse choro e pega a visão. Acabou o caô. A prefeitura cortou o patrocínio do orfanato, eu estou entupido de dívida até o pescoço e o banco vai tomar tudo. Se eu não fizer esse corre agora, eu vou ser preso na semana que vem. Vocês três dão uma despesa absurda.
— Mas a gente não tem para onde ir, seu Otávio — minha garganta arranhou.
— Então agradece, Natasha. Porque se não fosse por mim, vocês iam estar dormindo na calçada agora mermo, pegando chuva, passando fome no relento e correndo risco de vazar com algum covarde na covardia. Pelo menos para onde vocês vão, vão ter um teto e comida no prato. Anda, pega as mochilas e entra no carro.
O trajeto até a zona sul foi um sufoco silencioso. Minhas mãos não paravam de tremer enquanto eu apertava os dedos da Safira. O Rio de Janeiro passava rápido do lado de fora dos vidros escuros do carro antigo do diretor. Deixamos os bairros mais simples para trás até o veículo parar nos fundos de um casarão imponente, escondido por muros altos e câmeras de segurança. Uma placa discreta na fachada indicava o nome do lugar: Chateaux Lounge.
— Bem-vindas ao novo lar — ele disse, abaixando o vidro do motorista. — O maior e mais exclusivo bordel da cidade, onde os homens mais ricos e famosos gastam fortunas escondidos do resto do mundo.
Descemos do carro com as pernas bambas, todas três abraçadas, carregando uma única mochila com as nossas poucas coisas. Assim que a porta dos fundos se abriu, o cheiro forte de perfume misturado com bebida fina invadiu as minhas narinas, provocando um enjoo imediato.
Uma mulher alta, de postura impecável e cabelos pretos perfeitamente alinhados, estava parada na penumbra do corredor nos esperando. Ela segurava um leque de tecido escuro na mão, abanando-se devagar. O seu Otávio deu um passo à frente, empurrando a mim e a Safira pelos ombros.
— Estão aqui, Antonieta. Estas são as suas novas garotas.
A Mama Antonieta fechou o leque com um estalo seco que ecoou no ar. Meu corpo inteiro deu um sobressalto. Ela deu dois passos lentos na nossa direção, o salto alto estalando contra o piso de mármore, e parou bem na minha frente. Um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Com os dedos frios e cheios de anéis de ouro, ela puxou o meu queixo para cima, me obrigando a encarar seus olhos. O olhar dela desceu pelo meu pescoço, parando na linha da minha clavícula.
— Essa aqui é um pouco gordinha, mas tem traços bonitos. Vai servir muito bem quando chegar a hora.
Mama Antonieta soltou o meu queixo e deu um passo para o lado, avaliando a Safira, que encolheu os ombros de medo.
— E essa tem olhos verdes expressivos, o tipo que os clientes adoram.
O olhar da madame caiu sobre a Jade, que tentava se esconder atrás da Safira. O rosto da Antonieta mudou na mesma hora, as sobrancelhas se juntando em uma linha rígida. Ela bateu o leque fechado contra a palma da mão.
— O que é isso, Otávio? Esta miúda aí não tem condições. Ela é muito nova, uma criança. Eu não aceito criança aqui dentro da minha casa de jeito nenhum. Isso dá um problema absurdo com a polícia e com os caras do comando do morro se descobrirem. Leva embora.
— Não. Pelo amor de Deus, madame, não joga a minha irmã na rua. Eu faço o trabalho de duas, eu aguento, faço o que precisa, mas não separa a gente — meu estômago contraiu em um espasmo e dei um passo à frente, desesperada.
Mama Antonieta me olhou de cima a baixo. A voz dela saiu mansa, educada, mas fria:
— Deixa de ser boba, garota. É muito melhor para ela não ficar nesse lugar aqui. Este ambiente não é para uma criança desse tamanho.
O seu Otávio deu um passo rápido e segurou a Jade pelo braço com força, arrastando-a de volta para a porta da saída.
— Não, irmã, por favor... — a voz da Jade saiu espremida, aguda.
— Por favor, por favor — implorei, sentindo as lágrimas molharem o meu rosto, embaçando a minha visão.
— Não se preocupe, vou arrumar uma casa de apoio para ela, ela ficará bem — Otávio disse enquanto a puxava.
Num impulso, corri até ela. A abracei com força, cravando meus lábios no topo da cabeça dela num beijo demorado, sentindo o cheiro do cabelo dela.
— Eu vou te achar, eu prometo — disse a ela, apertando seu corpo pequeno contra o meu com toda a força dos meus braços.