Sarah Mills
Acordei naquela manhã com o peso do mundo sobre os meus ombros. eu estava completamente exausta, tanto mental quanto fisicamente. O meu corpo parecia feito de chumbo enquanto me levantava da cama, a lembrança da noite anterior ainda latejando na minha cabeça, insistindo em me assombrar. Havia uma sensação constante de náusea, mas eu sabia que não era algo físico. Era a vergonha, o arrependimento, o vazio. A maneira como havia perdido a minha virgindade… não era nada como eu havia imaginado. Na verdade, não havia nada pior.
Eu queria ter conhecido alguém especial, alguém que me respeitasse e me amasse. Porém, agora tudo isso não passava de um sonho distante, irrecuperável. A minha única consolação era que, graças ao dinheiro que recebi de June, eu poderia pagar a cirurgia do meu irmão. Isso me manteve em pé, me forçando a seguir em frente.
Assim que saí de casa, fui direto ao hospital. Tinha vergonha de encarar a minha mãe, mas não teria jeito, ela estava lá com Caleb. Peguei um ônibus, me sentei ao lado da janela, cada parada que o ônibus fazia, mais ansiosa eu ficava para chegar logo, o meu coração estava apertado, como se antecipasse algo horrível.
Quando cheguei ao hospital, o ambiente estéril e iluminado pelo sol da manhã parecia estranhamente distante, como se eu estivesse vendo tudo através de um véu. As pessoas passavam apressadas pelos corredores, cada uma carregando as suas próprias preocupações, mas o meu mundo estava paralisado naquela lembrança terrível, enquanto tentava me manter focada na única coisa que importava: salvar Caleb!
Fui direto à recepção e pedi para falar com a pessoa responsável pelas finanças, o senhor Mitchell Harris. Ele era administrador do hospital, responsável por todas as transações financeiras e questões administrativas. Eu não tinha muito contato com ele antes, mas sabia que era um homem sério, com um ar de autoridade que me deixava nervosa.
- Bom dia. – eu disse, tentando soar mais firme do que me sentia. – Eu gostaria de acertar o pagamento da cirurgia do meu irmão, Caleb Mills.
O senhor Harris olhou para mim por cima dos óculos de leitura, parecendo avaliar o meu estado. Eu me forcei a manter a cabeça erguida, mesmo sentindo o peso da vergonha sobre mim.
- Claro, senhorita Mills. – ele disse inclinando a cabeça ligeiramente em um gesto de simpatia. – Vamos até o meu escritório para finalizar os detalhes.
O escritório do senhor Harris era pequeno e organizado, com prateleiras cheias de arquivos e uma grande janela que deixava a luz do sol entrar. Eu me sentei em frente à sua mesa enquanto ele acessava os registros no computador.
- Eu vejo que o pagamento já foi transferido para a conta do hospital. – disse ele, sem desviar os olhos da tela. – Agradecemos muito, e isso permitirá que possamos agendar a cirurgia o mais breve possível.
Acenei com a cabeça, sentindo um alívio temporário. Pelo menos essa parte estava resolvida.
- Gostaria de falar com o médico do meu irmão. – falei, a voz um pouco mais baixa.
O senhor Harris acenou com a cabeça e fez uma ligação rápida para o doutor Parker, que estava no andar de cima. Minutos depois o médico chegou ao escritório, com a sua expressão sempre calma e profissional. O doutor Parker era um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos e olhos que transmitiam uma mistura de empatia e cansaço – típico de quem vive constantemente imerso no trabalho.
- Senhorita Mills. – ele começou tomando um assento ao lado do senhor Harris. – Entendo que hoje você conseguiu providenciar os fundos necessários para a cirurgia do Caleb. Isso é uma boa notícia.
Eu assenti, tentando segurar a leve esperança que se acendeu dentro de mim. No entanto, percebi que o doutor Parker estava evitando o meu olhar. Ele abaixou a cabeça, os seus dedos tamborilando nervosamente na mesa, antes de soltar um longo suspiro. O meu coração começou a bater mais rápido, uma sensação de medo se instalando no meu peito.
- Doutor Parker? – eu chamei, minha voz tremendo um pouco. – O que foi? Tem algo errado?
Ele levantou os olhos, e o peso do que vi em sua expressão fez o chão parecer que estava se abrindo sob os meus pés.
- Sarah… – ele começou, e o meu nome saiu dos seus lábios com uma suavidade que só aumentou o meu pavor. – Infelizmente, mesmo com o dinheiro disponível, a situação mudou.
Eu congelei!
- Como assim, mudou?
O doutor Parker suspirou profundamente antes de continuar.
- Ontem à noite, fizemos exames adicionais em Caleb. Os resultados mostraram que a sua condição piorou drasticamente… muito mais rápido do que esperávamos. A cirurgia não será mais possível no caso dele. Caleb está… muito fraco.
A suas palavras penetraram a minha mente como lâminas afiadas. Eu fiquei paralisada, tentando absorver o que ele estava dizendo.
- O que… o que você está dizendo? – a minha voz saiu fraca, quase inaudível.
Ele me olhou com tristeza nos olhos.
- Sarah, se tentarmos operar agora, há uma chance muito alta de que ele não sobreviva ao procedimento. Neste momento, a nossa prioridade é garantir que ele esteja confortável, sem dor, e que o tempo que resta a ele seja o mais tranquilo possível.
Senti a minha garganta fechar, e lágrimas arderem nos meus olhos. Tudo pelo que havia lutado, tudo que eu havia sacrificado… foi tarde demais. A realidade da situação era insuportável, e a minha mente estava em negação.
- Não… não pode ser. Deve haver outra maneira. – eu implorei, a dor na minha voz clara como um grito abafado. – Por favor doutor, faça alguma coisa.
Ele balançou a cabeça tristemente, sua expressão cheia de empatia.
Eu gostaria de poder fazer mais, Sarah. Eu realmente gostaria. Porém, a medicina tem os seus limites, e… às vezes, somos forçados a aceitar o inevitável.
A sala parecia girar ao meu redor, e um desespero profundo se apoderou de mim. Eu não sabia o que fazer, como reagir. Apenas queria fugir dali, escapar dessa realidade que parecia um pesadelo.
- Eu… preciso ver a minha mãe. – murmurei, já a caminho da porta, incapaz de suportar a presença de mais ninguém naquele momento.
O doutor Parker e o senhor Harris trocaram um olhar preocupado, mas não tentaram me deter. Eu saí do escritório e segui pelos corredores em direção ao quarto do meu irmão, o som dos meus passos ecoando. Quando cheguei à porta, hesitei por um momento, tentando encontrar forças para enfrentar o que estava do outro lado.
Finalmente, empurrei a porta e entrei. A minha mãe estava sentada ao lado da cama de Caleb, segurando a mão dele com tanto carinho que o meu coração se partiu ainda mais. Ela estava cansada, as olheiras profundas sob seus olhos mostrando as noites de vigília, porém, ao me ver, ela forçou um sorriso fraco.
- Sarah. – ela sussurrou. – Como você está, querida?
Eu m*l conseguia responder. Em vez disso, me aproximei da cama e beijei a testa de Caleb, sentindo a pele quente e úmida. Ele estava tão quieto, respirando de forma superficial.
- Eu acertei o pagamento. – eu disse, com a voz embargada. – Mas… o doutor Parker… ele disse que…
A minha mãe me interrompeu, com os olhos cheios de uma tristeza que eu nunca tinha visto antes.
- Eu já sei, Sarah. O doutor me contou. Eu estava aqui quando ele fez os exames.
Eu queria dizer algo, qualquer coisa, porém, as palavras me falharam. Tudo o que consegui fazer foi segurar a mão de Caleb com a da minha mãe, enquanto a realidade da situação era c***l, Caleb não merecia isso, ele era jovem tinha apenas dezessete anos, merecia viver.
- Ele não vai resistir, não é? – perguntei, finalmente encontrando a voz.
A minha mãe balançou a cabeça, com as lágrimas escorrendo silenciosamente por seu rosto.
- Eles disseram que é questão de horas agora. Meu bebê… ele está partindo.
A dor em sua voz era insuportável, e isso fez algo dentro de mim quebrar completamente. Eu caí de joelhos ao lado da cama, chorando em desespero, sentindo como se o mundo estivesse desmoronando ao meu redor. A minha mãe tentou me consolar, mas eu sabia que ela estava tão devastada quanto eu.
Por volta do meio-dia, Caleb deu o seu último suspiro. Foi tranquilo, silencioso, mas deixou um vazio insuportável nas nossas vidas. A minha mãe abraçou o corpo dele soluçando de forma incontrolável, e eu não sabia como ajudá-la, pois eu também estava quebrada.
No entanto, a tragédia não parou por aí. Nos dias que seguiram, a minha mãe entrou em uma depressão profunda. Ela parou de comer, de falar, de se levantar da cama. Tudo que fazia era deitada, olhando para o vazio.