Naquela tarde o campus estava mais cheio naquele horário.
Pérola seguia seu caminho com segurança, contando mentalmente os passos entre um ponto e outro. Ela já conhecia boa parte da faculdade pelo som, pela textura do chão, pelas mudanças de ambiente.
Mas naquele dia, alguém esbarrou de leve nela no corredor lateral.
Foi rápido.
Um ombro, um passo errado… e o equilíbrio dela quebrou.
— Ei— ela tentou se orientar, mas já estava no ar por um segundo.
O impacto no chão veio seco.
Alguns segundos de silêncio ao redor.
E então vozes.
— Nossa… ela caiu. — Não olha por onde anda? — Pera… ela é cega mesmo? — Então por que vem pra faculdade?
Pérola ficou parada por um instante, sentindo o chão frio sob as mãos. Não era a queda que incomodava mais. Era o tom das vozes.
Ela respirou fundo, tentando manter a calma.
— Eu estou bem — ela disse, firme, já tentando se levantar sozinha.
Mas antes que conseguisse, sentiu uma presença ao lado dela.
Uma mão firme segurou seu braço com cuidado.
— Não, espera.
A voz era dele.
Vinícius.
Ele se abaixou rapidamente ao lado dela.
— Pérola, você se machucou?
Ela reconheceu a preocupação na voz dele antes mesmo de responder.
— Não foi nada grave.
Ele ajudou ela a se levantar com cuidado, sem pressa, como se estivesse protegendo cada movimento dela.
E então ele ouviu também.
As risadinhas baixas. Os comentários.
E principalmente a última frase:
— Não entendo por que ela vem pra cá… se nem enxerga.
O corpo dele travou por meio segundo.
Depois ele levantou o rosto.
O olhar dele mudou completamente.
Não era mais leve.
Não era mais tranquilo.
Era duro.
— Repete isso — ele disse, num tom baixo.
Ninguém respondeu.
— Repete o que você acabou de falar — ele insistiu, agora olhando diretamente para o grupo.
O silêncio ficou pesado.
Pérola, ainda tentando se firmar, tocou levemente o braço dele.
— Vinícius… deixa — ela disse baixo.
Mas ele não se moveu.
— Vocês têm ideia do que estão falando? — ele falou, mais firme agora. — Ou é mais fácil julgar alguém que vocês nem conhecem?
Ninguém respondeu.
Ele respirou fundo, tentando se controlar, mas a irritação estava clara na postura dele.
— Ela não precisa que vocês sintam pena. E muito menos que falem como se ela não devesse estar aqui.
Silêncio.
Um por um, as pessoas começaram a se afastar.
Quando ficaram sozinhos no corredor, ele finalmente voltou a atenção para ela.
A expressão dele suavizou imediatamente.
— Você está mesmo bem?
Pérola ajeitou a postura, ainda com a calma dela.
— Estou… só um pouco surpresa.
— Com a queda?
Ela deu um pequeno sorriso de canto.
— Com você.
Vinícius ficou em silêncio por um segundo.
— Eu não gosto do jeito que falam de você — ele disse, mais baixo agora.
Pérola inclinou levemente a cabeça, como se estivesse tentando entender algo além das palavras.
— Você nem me conhece direito.
Ele hesitou.
— Ainda não e foi guiando Pérola com cuidado pelos caminhos mais tranquilos do campus, desviando do fluxo principal de alunos. Ele percebeu que ela relaxava um pouco mais quando o ambiente era menos barulhento.
— Aqui é mais calmo — ele disse.
— Eu gosto — ela respondeu, soltando o braço dele devagar, sentindo o espaço ao redor com segurança.
Eles encontraram um cantinho reservado, com sombra e menos movimento. Ele indicou o banco.
— Pode sentar aqui.
Pérola sentou com calma, ajeitando a postura.
Por alguns segundos, ficou aquele silêncio confortável entre eles.
Ela virou o rosto na direção dele.
— Vinícius… você sabe me dizer se ainda tá aberto a loja de lanche?
Ele soltou um meio sorriso.
— Tá sim. Vou pedir algo pra gente. O que você quer?
Ela respondeu sem hesitar:
— Eu quero um salgado e suco… toma meu cartão.
Já estava pegando a carteira da bolsa quando ouviu a voz dele interromper.
— Não. Eu pago.
— Vinícius…
— Eu pago, Pérola. Fica aí.
O tom dele não era rude, mas era firme o suficiente pra encerrar a discussão.
Ela soltou um pequeno suspiro, mas acabou sorrindo de canto.
— Você é teimoso.
— E você é insistente — ele respondeu, já se afastando.
Pouco tempo depois, ele voltou com a sacola na mão.
Sentou ao lado dela e colocou os lanches cuidadosamente na frente dela.
Pérola levou as mãos até a sacola, tocando com atenção, reconhecendo os objetos pelo formato.
— Obrigada… — ela disse, sincera. — Por ter me levado.
Ela fez uma pequena pausa, mais séria agora.
— Eu detesto quando isso acontece.
Vinícius olhou pra ela, atento.
— Quando você cai?
Ela assentiu levemente.
— Quando as pessoas acham que eu não deveria estar aqui.
O silêncio ficou um pouco mais pesado.
Ela abriu o suco com calma antes de continuar:
— O bom é que agora falta só mais um ano pra eu terminar. Quando eu terminar… eu vou ser uma ótima professora de pessoas com a mesma deficiência que eu.
Ela sorriu, dessa vez com orgulho real na voz.
— Eu quero que elas não sintam que estão sozinhas.
Vinícius ficou olhando pra ela por alguns segundos sem falar nada.
Não era pena.
Nem surpresa.
Era admiração.
Um sorriso pequeno apareceu no rosto dele.
— Você já é isso — ele disse, simples.
Pérola virou o rosto na direção dele.
— O quê?
Ele encostou as costas no banco, ainda olhando pra ela.
— Uma ótima professora. Mesmo antes de se formar.
Ela ficou em silêncio por um instante… e então sorriu de leve.
— Você fala isso como se me conhecesse muito bem.
Vinícius desviou o olhar por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Talvez eu esteja começando.
E, pela primeira vez, ele não desviou dela tão rápido depois de falar isso.