O fim da tarde já começava a cair quando Vinícius dirigia devagar pelas ruas próximas ao campus.
Ele estava quase chegando em casa quando viu uma figura conhecida na calçada.
Pérola.
Sozinha.
Andando com cuidado, como sempre, mas com uma leve hesitação nos passos — algo diferente.
Ele franziu a testa e encostou o carro um pouco à frente.
Desceu rápido.
— Pérola.
Ela virou o rosto na direção da voz.
— Oi…
Vinícius se aproximou.
— Por que você tá indo andando sozinha?
Ela respirou fundo, um pouco mais tensa do que o normal.
— Eu perdi meu celular… não sei se alguém pegou. Eu não consegui avisar minha mãe.
Ele ficou sério na hora.
— Você não devia estar sozinha assim.
Ela deu um pequeno suspiro, tentando manter a calma.
— Eu ia conseguir chegar…
— Não — ele interrompeu, sem elevar a voz, mas firme. — Vem comigo. Eu te levo.
Pérola hesitou por um segundo.
— Eu não quero atrapalhar…
— Pérola.
Ela parou.
A forma como ele falou o nome dela não deixava espaço pra discussão.
Ela soltou o ar devagar e assentiu.
— Tá…
Vinícius se aproximou mais e estendeu a mão.
Ela não demorou a encontrar a dele.
A mão dela segurou a dele com leve firmeza, e ele guiou com cuidado até a rua.
— Aqui tem um degrau — ele avisou.
— Eu senti — ela respondeu com um leve sorriso.
Ele sorriu de canto.
— Eu sei. Só tô sendo útil.
Eles atravessaram juntos, devagar, com ele sempre um passo à frente guiando.
Quando chegaram ao carro, Vinícius abriu a porta do passageiro.
— Aqui.
Pérola entrou com cuidado, sentindo o ambiente novo pelas mãos.
Ele fechou a porta e deu a volta, entrando no lado do motorista.
Por alguns segundos, ficou aquele silêncio confortável dentro do carro.
Ele ligou o veículo.
— Você lembra a última vez que viu o celular? — ele perguntou.
Ela encostou as mãos no colo.
— Eu tava perto da cantina… depois disso não achei mais.
Vinícius assentiu, já começando a pensar.
— A gente vai resolver isso.
Pérola virou o rosto na direção dele.
— Você fala “a gente” como se isso fosse problema seu também.
Ele olhou rápido pra ela antes de voltar a atenção pra estrada.
— E é.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Mas dessa vez… não parecia desconforto.
Parecia que ela estava tentando entender algo que ele ainda não tinha dito.
E Vinícius, por outro lado, segurava firme o volante — como se estivesse segurando também tudo o que começava a sentir por ela e ainda não sabia nomear.
O carro seguiu em silêncio por alguns minutos.
Pérola encostou levemente a cabeça no banco, respirando mais devagar agora que não estava mais andando sozinha na rua.
— Você mora longe da faculdade? — ela perguntou de repente.
Vinícius olhou rápido pra ela.
— Mais ou menos. Uns vinte minutos.
— Hm…
Ela ficou quieta por um instante, como se estivesse organizando os pensamentos.
— Você não precisava ter parado.
Ele soltou um leve riso pelo nariz.
— Você sempre fala isso quando alguém te ajuda?
— Só quando é verdade — ela respondeu, simples.
Vinícius balançou a cabeça, ainda olhando pra frente.
— Então se acostuma… porque eu vou continuar parando.
Pérola virou o rosto na direção dele, como se estivesse tentando entender o tom daquilo.
— Você fala isso como se fosse normal.
— Talvez seja.
Ela sorriu de leve.
— Você é estranho.
— Já me falaram pior.
O silêncio voltou por alguns segundos, mas não era desconfortável.
Era… tranquilo.
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Depois de alguns minutos, ele estacionou perto de um ponto mais seguro, em frente a uma área conhecida por ela.
— É aqui perto da sua casa, né? — ele perguntou.
— É… eu reconheço o lugar.
Ele desligou o carro, mas não saiu.
— Você quer que eu te acompanhe até a porta?
Pérola virou o rosto pra ele.
— Vinícius… eu não sou de porcelana.
Ele sorriu de canto.
— Eu sei.
Ela esperou.
Ele continuou:
— Mas hoje você perdeu o celular, tava andando sozinha, e ouviu coisas idiotas no campus. Então… deixa eu só garantir que você chega bem.
Pérola ficou em silêncio por um instante.
Depois soltou um pequeno suspiro.
— Tá bom.
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Eles desceram juntos.
Vinícius foi na frente, guiando com a voz baixa.
— Tem um meio-fio aqui.
— Eu sinto — ela respondeu, com um leve humor.
Ele riu baixo.
— Eu devia parar de falar isso, né?
— Um pouco.
Ela segurou de novo a mão dele quando precisou atravessar um trecho mais movimentado.
E, por alguns segundos, o toque ficou um pouco mais longo do que o necessário.
Nenhum dos dois comentou.
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Chegando perto da entrada do prédio dela, ele parou.
— Pronto. Chegou.
Pérola virou o rosto na direção dele.
— Obrigada… de novo.
Ele deu de ombros.
— Já perdi a conta.
Ela sorriu.
— Você gosta de se sentir útil?
Vinícius pensou por um segundo.
— Não.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Então por que faz isso?
Ele ficou em silêncio.
Longo.
E então respondeu mais baixo:
— Porque você não deveria ter que lidar com certas coisas sozinha.
Pérola não falou de imediato.
Só ficou ali, olhando na direção dele, como se pudesse “enxergar” alguma coisa além da voz.
— Você fala como se eu fosse diferente de todo mundo — ela disse por fim.
Vinícius hesitou.
— Você é.
Antes que o silêncio ficasse pesado, ele completou:
— Mas não no sentido r**m.
Ela soltou um pequeno sorriso.
— Você precisa aprender a falar melhor.
Ele riu.
— Eu tô tentando.
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Ela virou um pouco o corpo na direção da porta.
— Vinícius?
— Hm?
— Amanhã… você vai estar na faculdade?
Ele respondeu sem pensar muito:
— Vou.
Ela assentiu.
— Então a gente se vê.
— A gente se vê — ele repetiu.
Mas ele não saiu de imediato.
E ela também não entrou.
Por alguns segundos, os dois ficaram ali, como se qualquer movimento fosse interromper algo que ainda estava começando a existir entre eles.