A faculdade estava cheia como sempre naquele início de semestre.
Pérola caminhava com calma pelos corredores, já acostumada com o ritmo dos passos ao redor, com o som das vozes, com o jeito como o mundo se organizava mesmo sem ela enxergar. Ela não parecia perdida — parecia apenas concentrada, como se cada som fosse um mapa.
Ela parou perto de um banco no pátio interno, encostando a mão de leve no encosto para se orientar.
Foi ali que ouviu a primeira vez a voz dele.
— Esse lugar sempre fica cheio assim ou eu que escolhi o pior horário?
A voz era masculina, leve, com um tom meio divertido.
Pérola virou o rosto na direção do som.
— Depende… você está reclamando ou só observando? — ela respondeu com naturalidade.
Ele ficou em silêncio por um segundo, como se não esperasse que ela entrasse na conversa tão fácil.
— Um pouco dos dois — ele disse, rindo baixo. — Eu sou Vinícius.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Pérola.
— Pérola… — ele repetiu, como se estivesse testando o nome. — Combina com você.
Ela deu um pequeno sorriso, sem pressa.
— Você fala isso pra todas as pessoas ou só pra quem você acabou de conhecer?
Vinícius soltou uma risada mais sincera dessa vez.
— Só pra quem eu acabei de conhecer e já parece que vai me dar trabalho.
Pérola riu também, curta, leve.
— Então talvez eu esteja fazendo certo.
Nos dias seguintes, eles se cruzaram de novo.
Não foi planejado.
Foi no corredor, na saída de uma aula, na cantina.
Sempre a mesma coisa: ele aparecia com aquele jeito tranquilo, como se não estivesse procurando ninguém… mas sempre acabava perto dela.
— Você sempre anda sozinha? — ele perguntou num desses encontros.
— Eu não estou sozinha — Pérola respondeu. — Eu só não preciso de companhia o tempo todo.
Vinícius ficou em silêncio por um segundo, como se tivesse gostado da resposta.
— Entendi. Você escolhe quando quer companhia.
— Exatamente.
Com o tempo, as conversas ficaram mais longas.
Ele passou a andar com ela alguns trechos do campus.
Primeiro por acaso.
Depois por costume.
E então… por vontade.
Mas ele ainda não dizia isso.
Ainda não falava o que começava a sentir quando ficava perto dela — aquela mistura de curiosidade, admiração e um medo estranho de estragar tudo.
E Pérola… sentia.
Mesmo sem ver o mundo, ela percebia o jeito como ele demorava meio segundo a mais para ir embora.
O jeito como ele sempre voltava.
O jeito como ele nunca parecia ter pressa quando estava com ela.
Mas ela também não perguntava.
Só deixava acontecer.