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444 Words
A faculdade estava cheia como sempre naquele início de semestre. Pérola caminhava com calma pelos corredores, já acostumada com o ritmo dos passos ao redor, com o som das vozes, com o jeito como o mundo se organizava mesmo sem ela enxergar. Ela não parecia perdida — parecia apenas concentrada, como se cada som fosse um mapa. Ela parou perto de um banco no pátio interno, encostando a mão de leve no encosto para se orientar. Foi ali que ouviu a primeira vez a voz dele. — Esse lugar sempre fica cheio assim ou eu que escolhi o pior horário? A voz era masculina, leve, com um tom meio divertido. Pérola virou o rosto na direção do som. — Depende… você está reclamando ou só observando? — ela respondeu com naturalidade. Ele ficou em silêncio por um segundo, como se não esperasse que ela entrasse na conversa tão fácil. — Um pouco dos dois — ele disse, rindo baixo. — Eu sou Vinícius. Ela inclinou levemente a cabeça. — Pérola. — Pérola… — ele repetiu, como se estivesse testando o nome. — Combina com você. Ela deu um pequeno sorriso, sem pressa. — Você fala isso pra todas as pessoas ou só pra quem você acabou de conhecer? Vinícius soltou uma risada mais sincera dessa vez. — Só pra quem eu acabei de conhecer e já parece que vai me dar trabalho. Pérola riu também, curta, leve. — Então talvez eu esteja fazendo certo. Nos dias seguintes, eles se cruzaram de novo. Não foi planejado. Foi no corredor, na saída de uma aula, na cantina. Sempre a mesma coisa: ele aparecia com aquele jeito tranquilo, como se não estivesse procurando ninguém… mas sempre acabava perto dela. — Você sempre anda sozinha? — ele perguntou num desses encontros. — Eu não estou sozinha — Pérola respondeu. — Eu só não preciso de companhia o tempo todo. Vinícius ficou em silêncio por um segundo, como se tivesse gostado da resposta. — Entendi. Você escolhe quando quer companhia. — Exatamente. Com o tempo, as conversas ficaram mais longas. Ele passou a andar com ela alguns trechos do campus. Primeiro por acaso. Depois por costume. E então… por vontade. Mas ele ainda não dizia isso. Ainda não falava o que começava a sentir quando ficava perto dela — aquela mistura de curiosidade, admiração e um medo estranho de estragar tudo. E Pérola… sentia. Mesmo sem ver o mundo, ela percebia o jeito como ele demorava meio segundo a mais para ir embora. O jeito como ele sempre voltava. O jeito como ele nunca parecia ter pressa quando estava com ela. Mas ela também não perguntava. Só deixava acontecer.
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