PRÓLOGO
Sinto-me como a rolha que usam para todos os buracos! Estou sempre a tapar os buracos de todo mundo!
Tenho que tapar todos os buracos, grandes e pequenos, deixados pelos funcionários, aqueles que, com as suas “circunstâncias importantes” e a sua maldita irresponsabilidade, estão deixando-me louca. E não estão só a irritar-me, estão devorando-me viva!
Não sobrou praticamente nada de mim. Só um pedacinho miserável. E continuam a roê-lo como se não fosse nada!
Eu chego e tenho que largar tudo o que estou fazendo e correr como um cão em pleno agosto, a fazer o trabalho dos outros! Ninguém se importa que eu seja a administradora?
Não?
Por que raios é que tenho de fazer um trabalho que não é meu?
Estou furiosa!
Presentemente, tenho de levar um café a um cliente porque a minha querida Nicole saiu para festejar. E, pelo que vejo, a festa saiu do controle. Ela não atende o telefone, não responde às mensagens…
Tenho certeza de que continua dormindo nos braços de alguém.
Embora saiba que o chefe de cozinha daqui seja um homem responsável, ele também é meio maluco.
Ontem, o chefe da cozinha me deixou louca com os cranberries. Ele estava berrando como um porco no matadouro, dizendo ser ofensa e que não ia usá-lo para fazer o seu molho especial, cuja receita só ele conhece.
Ele é o jiló. Um jiló grande e amargo.
Se ele é tão talentoso, deveria conseguir criar algo delicioso até com essa coisa.
Coloco a xícara na bandeja e caminho em direção à mesa reservada. Assim que chego, relaxo os músculos do rosto e forço uma expressão amigável.
Não quero assustar os clientes.
“O seu drink”, digo calmamente, acrescentando um toque de cordialidade ao chegar à mesa. Coloco a bebida aromática diante de um homem moreno.
Ele guarda o celular. Levanta a cabeça e…
Os seus olhos negros, como uma noite sem lua, se arregalam, e eu…
Faço uma careta, como se tivesse uma cebola debaixo da língua: amarga, azeda e repugnante.