— Não me diga! — ele diz, cruzando os braços sobre o peito largo. — Muito melhor, hein?
— Bem, sim! — incha as minhas bochechas — E, além disso, as mulheres são más com cores, porque…!
— Bem, você parece ser péssimo com elas! — Ele interrompe-me no meio da frase — Você passa um sinal vermelho e agora está se levantando como um esquilo raivoso! Seria mais fácil pedir desculpas do que defender o indefensável.
Um esquilo raivoso?
Muitas coisas me chamaram na minha vida…
Mas um esquilo?
— Bem, se eu sou um esquilo, você é um hamster! — Eu grito com ele — Mas não uma doméstica, mas uma selvagem, uma daquelas que vivem no campo!
Não sei exatamente por que aquele animal me veio à mente…
Bom, acho que é porque essas criaturas amarrotadas com barrigas pretas, da dimensão de duas palmas na minha mão, são muito agressivas!
Lembro-me da minha avó armando armadilhas para eles quando começaram a se multiplicar no jardim… E quando um caiu numa gaiola, achei tão adorável que quis pegá-lo… domá-lo. Até lhe dei um nome. Mas o bastardo muito peludo mordeu meu dedo, me arranhou e fugiu…
— Eu não sou um hamster! — A sua voz fica ainda mais irritada, e seu rosto… que é bem atraente… quem se importa com o que é. Está ficando diabólico.
Por alguma razão, essa palavra parece tê-lo afetado demais…
Ao mesmo tempo, ver aquele rosto me dá um leve calafrio, mas não forte o suficiente para prestar atenção.
— Hamster! — Assobiando, colocando as mãos em jarras. E se não estiver, então acalme-se e peça perdão, com a promessa de que no futuro você será um pedestre mais cauteloso!
Silêncio.
Nossos olhos se enfrentam em uma batalha que só nós entendemos.
Nós nem piscamos…
A situação deixa bem claro para mim: não vou receber um pedido de desculpas dele.
Hamster teimoso.
Para o inferno com ele!
Ainda bem que não o atropelei até arrancar suas entranhas.
Eu me viro e caminho em direção ao veículo. Não vou desperdiçar mais saliva com ele.
— Nem eu. — Ele solta minhas costas sarcasticamente e depois acrescenta. O mais fácil é fugir em vez de admitir a verdade.
Eu me viro novamente.
A zombaria não só sai de sua boca, como também é desenhada em seu rosto.
E eu não aguento mais...
Meu autocontrole está destruído. Pego o maldito café e... gostaria de esvaziá-lo no rosto dele, mas me contenho; é uma pena estragar aquele rosto bonito. Então derramo o café um pouco mais abaixo: no peito dele. No casaco preto.
Recuso-me a acreditar no que os meus olhos veem. É ele, sentado ali.
Que ele queria uma vida com mais cor?
Bem, o universo me ouviu e não demorou muito. Ele organizou algo sob medida para mim, embalou em uma caixinha e me enviou por correio expresso.
E assim recebi esta história interessante com seu prólogo. Prólogo? Que prólogo ou que diabos, isso foi um inferno!
E porquê inferno?
Tudo correu tão m*l?
Bem, como dizer isso...
É melhor eu contar como foi...
Quando derramei o café naquele homem atrevido, achei hilário no começo.
Seu rosto insolente estava cheio até a borda de choque, seus olhos se abriram como duas placas enormes e sua boca também arredondada, mostrando todos os seus dentes afiados.
Ele não esperava isso, o hamster. E imediatamente ele começou a fazer algo completamente inútil.
Ele abaixou a cabeça e começou a sacudir o café com a mão, um café que já havia sido absorvido por sua pelagem preta como água na terra seca e rachada que não via chuva há um mês.
Enquanto isso, continuei rindo. O riso tomou conta de mim e começou a me fazer cócegas, como uma pena nos calcanhares. Eu estava sem fôlego. E quando ele finalmente recuperou o fôlego, provavelmente parecia uma gaivota.
Eu sei que é possível...
Não, não, tenho certeza de que parecia um circo de verdade visto de fora.
Dois idiotas teimosos que se encontram e não conseguem se afastar em paz.
Mas ele mereceu muito.
Ele foi esperto demais e se adaptou...
Infelizmente, não no rosto...
É que fiquei triste por estragar tudo.
Quando parou de esfregar o casaco, levantou a cabeça. Ele me envolveu com um olhar cheio de fúria. Um olhar que poderia derrubar um santo.
E esse olhar não deu em nada. O hamster começou a sibilar com raiva, dizendo que se eu o cruzasse novamente, descobriria quanto vale um pente; que pagaria tudo de sobra; que minha pobre b***a seria espancada e coisas assim...
Ele me deu uma corda tal que...
Vamos lá, era para tirar o caderno e o lápis do porta-luvas (eu sempre carrego um ) e começar a escrever cenas para um romance sombrio. E então vendê-los por um bom dinheiro para aqueles autores com a imaginação em plena depressão devido à falta de ideias.
E quando o ouvi, ri ainda mais. Lágrimas correram em abundância. Assim como o Rio Ros na primavera, após um inverno de fortes nevascas.
— E por que não agora? — Perguntei, enxugando as lágrimas enquanto tentava acalmar meu ataque de riso.
— Porque neste momento não tenho tempo para um esquilo e******o! — os seus dentes moídos, como se ele estivesse moendo areia em farinha.
— Mas você teve tempo de discutir, certo? — Eu bufei—. Claro! Pedir desculpas pelos seus erros é difícil... É como colocar dois sacos de cimento nas costas e caminhar três quilômetros. Mesmo sendo um cara bonitão, tenho certeza de que você aguentaria três, e eu poderia até sentar em cima de você, no seu pescoço. E você nem vacilaria!
Eu o provoquei deliberadamente com minhas palavras. Sem pensar nas consequências. Eu não pensei...
Não pensei, porque em todos os anos em que trabalhei como gerente de restaurante, tudo aconteceu comigo.
E além disso eu estava reclamando que minha vida era cinzenta?
Curioso...
Mas isso é trabalho, não minha vida pessoal. São coisas diferentes.
O que aconteceu comigo?
Já tive clientes atrevidos que vieram até mim e me deram um tapa na b***a ou me propuseram sexo abertamente...
Mas aqui esqueço um fato interessante: todas aquelas pessoas sem vergonha com seus galos inquietos estavam bêbadas pra caramba. Eles cambaleavam tanto que caíam onde quer que o vento soprasse. E suas proposições m*l eram compreendidas.
— Reze para que nunca mais nos cruzemos nesta vida —ele disse com uma careta, e novamente me deu um punhado de ideias para romances sombrios. Você tem que ver a imaginação que ele tem, é por isso que, depois do discurso dele, eu lhe dei um conselho:
— Você deveria escrever um livro, seria interessante. Talvez até se torne um best-seller. Você ganharia um pasto.
Ele, como um verdadeiro hamster selvagem, bufou e foi embora, e eu olhei para suas costas.
Bom, pelo menos ele não mordeu meu dedo.
E por que todos os homens bonitos que já conheci são... estranhos?
Há este rastro de Urina: um castor temperamental e desconfiado que submeteria até mesmo sua própria sombra a um teste de detector de mentiras. Porque ele não confia nisso. Nem mesmo dela.
E isso...
Bem, não sei que palavras tirar do meu vocabulário para descrevê-lo bem.
Vamos deixar em elipses, ou...
— O que você está fazendo parado no meio da estrada! — Uma voz tirou-me do meu dicionário imaginário— Sai do meu mundo imaginário! Olá!