Uma Faísca na Noite

1369 Words
quase para si mesmo, "e é tola além da conta". Evelyne, ainda tremendo, pressionou a mão contra o peito. Alívio, medo e desafio se misturaram quando ela percebeu quão tênue era a linha entre a vida e a morte — e entre a segurança e algo que ela ainda não compreendia. O corredor em frente aos aposentos de Evelyne estava silencioso agora, embora os ecos do caos ainda persistissem no castelo. As botas de Azriel tilintavam contra a pedra enquanto ele caminhava de um lado para o outro, os olhos percorrendo cada canto, alerta para qualquer ameaça remanescente. Ele parou a poucos passos dela, o peito arfando, a capa úmida da neve e de sua corrida frenética. “Você é mais do que tola”, disse ele, a voz rouca, mas agora mais baixa, mais suave de um jeito que só a preocupação poderia tornar. Seu olhar se demorou nela — nas mechas de cabelo que caíram do véu, no rubor em suas bochechas pelo esforço e pelo medo. “Você entende o quão perto chegou? Você sequer se dá conta…” Sua voz vacilou, a tensão se acumulando em sua mandíbula, “…do que poderia ter acontecido?” Evelyne engoliu em seco, a rebeldia ainda latejando, embora suas mãos tremessem. "Eu... eu não queria fazer m*l a ninguém", sussurrou. "Eu só queria... respirar. Só por um instante." Os olhos de Azriel suavizaram-se e, por um instante, ele baixou a guarda. Levantou a mão, hesitante, as pontas dos dedos pairando perto das dela. O pulso de Evelyne acelerou, sua própria mão quase se moveu para encontrar a dele. O ar entre eles parecia carregado, a tensão os envolvendo como a tempestade que ainda rugia lá fora. Por um breve instante, seus dedos roçaram os dela — de leve, quase um toque fantasmagórico —, mas uma faísca percorreu ambos. Nenhum dos dois se afastou imediatamente, ambos conscientes do peso silencioso daquele contato. Seus olhos se voltaram para o corredor, examinando-o novamente, a postura enrijecendo, mas a preocupação não expressa persistia. “Você não pode fazer isso”, murmurou ele, em voz baixa, quase para si mesmo, cada palavra carregada de significado. “Não de novo. Você me entende?” “Eu… eu entendo”, ela sussurrou, tentando acalmar o coração acelerado. “Por enquanto”. Ele exalou bruscamente, dando um passo para trás, o momento perdido, substituído pela urgência da realidade. "Por agora", repetiu, com o maxilar tenso e os ombros rígidos, embora a tensão em seu olhar denunciasse o quão perto ele estivera de se perder na preocupação. Nesse instante, a porta se abriu suavemente. Rhysand entrou, o rosto pálido, mas os olhos suaves, a respiração curta e ofegante. "Evelyne! Você está bem?", perguntou ele, com preocupação evidente na voz. "Vim vê-la depois de... tudo. Os alarmes... o ataque. O rei está a salvo." Os ombros de Evelyne relaxaram um pouco, um alívio a invadindo. "Estou bem", disse ela, com a voz firme, embora seu coração ainda estivesse acelerado. "Eu estava verificando como você estava... e os guardas. Vocês estão ilesos?" Rhysand assentiu com a cabeça. "Estamos todos bem. O castelo está seguro novamente. Eu só queria ter certeza de que você estava segura." Seu olhar permaneceu sobre ela, o carinho e a ternura evidentes em cada olhar. A postura de Azriel mudou ligeiramente, os olhos se estreitando enquanto observava a troca de olhares, ciente da proximidade entre eles, mas cuidadoso para permanecer em silêncio. Evelyne percebeu a tensão nele e sentiu uma estranha mistura de gratidão e inquietação. Ela pressionou a mão contra o peito, a adrenalina ainda correndo em suas veias. "Obrigada", sussurrou, quase para si mesma, lançando um olhar para Azriel. "Por tudo". O maxilar de Azriel se contraiu e seus olhos escureceram de preocupação, mas ele não disse nada. Apenas assentiu, como se reconhecesse uma dívida que jamais conseguiria expressar completamente, e voltou sua atenção para os corredores, alerta, protetor e incrivelmente vigilante. Por um instante, os três permaneceram ali, no silêncio que se seguiu, a tempestade lá fora um eco distante, os corações ainda acelerados, as respirações irregulares. Evelyne percebeu, com uma mistura de desafio e apreensão, que havia sobrevivido — não apenas ao ataque, mas à beira de algo muito mais perigoso: a força de sentimentos que ela não conseguia nomear nem ignorar. A tempestade lá fora havia se atenuado, transformando-se em uma garoa fria, mas o frio persistia nos corredores. Evelyne permaneceu perto da janela por um instante, observando a neve cair sobre as torres de Velaris, com o coração ainda palpitando pelos acontecimentos da noite. Cada sombra, cada eco distante, lembrava-a de quão perto chegara — não apenas do perigo, mas de revelar mais do que podia compartilhar sem ser incomodada. Azriel estava a poucos passos atrás dela, silencioso, rígido, como um sentinela esculpido em pedra. Ele não se aproximou, embora ela pudesse sentir sua presença pressionando as margens de sua consciência. Seu olhar era penetrante, alerta, buscando ameaças além da janela, além dos muros do castelo. E, no entanto, ela pressentia algo mais profundo por trás daqueles olhos cautelosos — uma preocupação, um laço que ele não podia reconhecer. “Você não deveria ter estado perto da janela”, disse ele, com a voz baixa e controlada. Desta vez, não havia raiva, apenas uma ponta de preocupação contida. “Você poderia ter sido—” "Eu sei", interrompeu Evelyne suavemente, embora ainda houvesse um tom de desafio em sua voz. "Eu não fui descuidada. Eu só... eu queria ver. Respirar. Só por um instante." O maxilar de Azriel se contraiu, seus dedos se fecharam ao lado do corpo. Ele queria discutir, puxá-la de volta para um lugar seguro, repreendê-la como devia — mas respirou fundo e deixou para lá. Outro momento como o da noite passada, outro toque, outra faísca, seria impossível. Ele não podia arriscar. Não depois de tudo. “Você… você precisa entender”, disse ele cuidadosamente, medindo cada palavra, “não posso permitir que algo assim aconteça novamente. Nem por você, nem por mim. Você não é… descartável. E eu—” Ele parou, como se terminar a frase fosse tolice, até mesmo perigoso. Deixou o olhar repousar sobre ela por mais um instante antes de recuar um pouco, criando distância, restabelecendo a barreira entre eles que o dever exigia. Evelyne sentiu uma pontada de decepção, mas também um estranho respeito por ele. Ele era implacável em seu papel, mesmo quando isso o magoava tanto quanto a ela. Seus dedos roçaram levemente a borda do parapeito, quase desejando que ele a tocasse, quase o desafiando — mas ela sabia que não. Ele jamais faria isso. "Entendo", ela sussurrou, embora uma parte dela quisesse se aproximar mais, para ver o que aconteceria se ignorasse as regras. "Por enquanto", acrescentou, repetindo as palavras dele de antes, um reconhecimento silencioso do espaço que ele precisava. Azriel assentiu brevemente, os olhos voltando-se mais uma vez para o corredor vazio além da janela, e depois para o brilho distante da tocha no final do corredor. "Por enquanto", concordou. E com isso, virou-se, deixando sua capa roçar nela enquanto retomava suas tarefas, alerta, vigilante e dolorosamente consciente da distância que precisava manter. Sozinha, Evelyne expirou, pressionando a mão contra o peito enquanto seu pulso se acalmava lentamente. O calor da fogueira ainda persistia em suas veias, resquício do susto da noite anterior, e, no entanto, uma constatação gélida a atingiu: a vigilância de Azriel era tanto um conforto quanto um lembrete. Ela podia sentir a força de algo não dito entre eles, algo que ele jamais deixaria vir à tona — não agora, não quando a coroa, o castelo e sua segurança exigiam contenção. O castelo estava silencioso novamente, mas a tempestade do quase toque persistia, uma brasa sutil que nenhum dos dois conseguia ignorar completamente. Evelyne fechou os olhos, deixando o frio penetrar por entre os dedos, a lembrança da preocupação dele ardendo como uma chama secreta que ela não conseguia nomear nem dissipar. E em algum lugar nas sombras, Azriel continuava sua vigília, distante, mas implacável, movido pelo dever — e talvez por algo que se recusava a nomear até mesmo para si próprio.
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