O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela chama bruxuleante da lareira e pela luz crepuscular que penetrava pelas altas janelas. Lá fora, os ventos invernais uivavam pelas ameias, fazendo as venezianas rangerem e enviando um arrepio que se espalhava pelos corredores do castelo. Evelyne apertou o manto em volta dos ombros, o tecido uma fina barreira contra o frio e a inquietação em seu peito. Ela se viu vagando pelos corredores novamente, inquieta e perturbada, e agora, por algum impulso, permitira que Azriel a guiasse até um quarto tranquilo e isolado na ala dos servos — um dos poucos lugares onde ele podia lhe conceder um pouco de privacidade sem deixar de vigiá-la.
A luz da lareira tremeluzia nas paredes de pedra do quarto do castelo, projetando longas sombras que dançavam com o vento frio que batia nos vidros das janelas. Evelyne estava sentada rigidamente em sua cadeira, o manto bem apertado em volta dos ombros, um lenço fino ainda preso aos cabelos por causa do frio da noite.
“Você já caminhou o suficiente por esta noite”, disse ele em voz baixa e pausada, embora a pontada de frustração fosse inconfundível. Ele insistira que ela permanecesse dentro de casa, mas ela insistira até que ele cedesse o suficiente para acompanhá-la até esta pequena sala de estar.
Os olhos de Evelyne encontraram os dele, uma mistura de desafio e curiosidade. "E, no entanto, aqui estou eu", disse ela, num tom provocador, mas com um toque de aspereza. "Não suportaria mais um segundo naqueles corredores. Nem mesmo com a sua... supervisão."
O maxilar de Azriel se contraiu. "Supervisão", repetiu ele, seu olhar desviando-se para as mãos dela enquanto ela mexia na barra da capa. "Você se colocaria em perigo sem pensar duas vezes. Você sabe o que aconteceu da última vez. Você sabe do que os inimigos do Rei são capazes."
“E, no entanto”, disse Evelyne, recostando-se na cadeira, “aqui estou eu. Viva, ilesa. Talvez eu seja mais forte do que você pensa”. Suas palavras carregavam uma faísca, mas o tremor em sua voz denunciava o medo que escondia sob a postura desafiadora.
Azriel aproximou-se, sua presença pairando nas sombras. "Força não basta. Você ainda não entende o que significa arriscar tudo por tolice." Sua mão roçou brevemente o encosto de uma cadeira ao parar, um gesto não intencional, mas reconfortante.
O olhar de Evelyne suavizou-se, ainda que ligeiramente. "E mesmo assim você arrisca tudo por mim. Todos os dias, em silêncio, você está aqui. Por quê?" As palavras escaparam antes que ela pudesse se conter, uma pergunta que nunca ousara fazer.
Azriel desviou o olhar, os músculos tensos, a voz baixa, quase relutante. "Eu... sou obrigado a ser. Sirvo ao Rei, à coroa. Minha lealdade não é só sua, Princesa."
“E, no entanto”, insistiu ela gentilmente, “você está aqui. Você escolheu cuidar de mim”.
Houve uma longa pausa, o único som era o crepitar do fogo e o suave assobio do vento contra a pedra. Então, com cuidado e cautela, ele começou. "Eu nem sempre fui... assim". Ele levantou a manga, revelando a tênue cicatriz em seu antebraço. Uma linha longa e fina que falava de batalha, de uma vida poupada pela habilidade e pela sorte em igual medida.
Ele franziu a testa: "Eu deveria protegê-la ainda mais de perto, mas não posso estar em todos os lugares".
A curiosidade de Evelyne superou sua postura defensiva. "Então me diga... fale-me sobre você, Sir Azriel. O que o fez... ser assim?"
Ele desviou o olhar, cerrando o maxilar. "Fui criado com poucas opções. Minha mãe morreu quando eu nasci, e meu pai... ele não se importou. Fui treinado na dureza, em um lugar onde só os fortes sobreviviam. Cada cicatriz, cada ferida que carrego foi conquistada em silêncio e solidão."
Evelyne inclinou-se para a frente, cativada. "E, no entanto, você serve com tanto... cuidado. Você é firme, vigilante. Você não vacila quando outros hesitariam. Isso vem de algo mais do que treinamento."
Os olhos de Azriel encontraram os dela brevemente, sombras de vulnerabilidade cintilando antes que o estoicismo habitual retornasse. "Talvez", disse ele, em voz baixa. "Mas o cuidado não desfaz o passado. Ele apenas molda o que eu faço agora. Estou preso ao dever, à lealdade, ao que não posso mudar."
Ela o observou, sentindo o peso que carregava, as batalhas silenciosas que eram só suas. "É raro alguém tão... disciplinado e, no entanto, tão... humano por baixo de tudo isso", disse ela baixinho. "Suponho que seja por isso que acho... reconfortante. Saber que alguém vê o mundo como ele é, e não apenas como uma coroa exige."
O maxilar de Azriel se contraiu. Ele deu um pequeno passo para trás, como se lembrasse dos limites que não podiam ultrapassar. “Você deve se lembrar, Princesa, que minha lealdade não é apenas sua. Minha vida está ligada à coroa, ao Rei, à segurança deste castelo. Não tenho liberdade para agir por conta própria —”
Ele se conteve.
O sorriso de Evelyne era suave, um sussurro de desafio. "E, no entanto, você está aqui. Observando, guiando, suportando meus caprichos. Talvez isso seja mais do que o dever permite."
Azriel não respondeu, apenas inclinou levemente a cabeça, um reconhecimento silencioso de suas palavras. Ele sabia que não podia dizer mais nada, ainda não. O fogo tremeluzia entre eles e, por um breve instante, a tensão se dissipou, restando apenas a silenciosa percepção de que cada um começava a enxergar o outro de maneiras que o resto do castelo não conseguia compreender.
Evelyne recostou-se na cadeira, um tênue lampejo de pensamento passando por sua mente. Ela se lembraria dessa conversa — o raro vislumbre do homem por trás da armadura, o cavaleiro que carregava seu passado como uma sombra, mas permanecia ferozmente inflexível no presente. E talvez, com o tempo, ela viesse a entender por que sentia uma curiosidade — e uma atração — por ele que ainda não conseguia nomear.