Entre as Folhas

922 Words
O grande salão cintilava à luz de velas, os tetos altos ecoando com música e conversas polidas. Nobres em veludo e seda se misturavam, seus sorrisos adornados com joias e reverências corteses criando uma dança precisa de etiqueta que Evelyne jamais conseguiria dominar completamente, por mais que a estudasse. O vento invernal sacudia as altas janelas, provocando arrepios ocasionais em sua espinha, apesar do calor da lareira e das camadas de seu vestido. Evelyne caminhava pela multidão com sua compostura habitual, acenando educadamente, sorrindo quando esperado, mas seus pensamentos divagavam. As festividades daquela noite deveriam celebrar o retorno de seu irmão, mas ela não conseguia se livrar da sensação de desconforto que lhe invadia o peito. Ela havia sido instruída a se mostrar gentil, a cumprimentar os nobres que pudessem ser enviados para propor alianças, mas a ideia de suas expectativas pesava sobre ela. Do outro lado do salão, Azriel observava. Ele permanecia próximo às sombras, silencioso, uma presença fixa à qual ela se acostumara, mas que nunca compreendera completamente. Esta noite, porém, havia uma diferença. Ele acompanhava seus movimentos com uma atenção tensa, os olhos se estreitando quando certos nobres se aproximavam demais. Quando o olhar de Evelyne se voltou para ele por acaso, ela percebeu uma dureza em sua expressão que nunca vira antes. Ele não sorriu, não se curvou nem fez qualquer esforço para se misturar à corte. Ele simplesmente observava — e ela sentiu o peso de seu escrutínio tão intensamente quanto uma repreensão sussurrada. Um jovem lorde aproximou-se, curvando-se com elegância refinada. "Princesa Evelyne, posso ter a honra desta dança?", perguntou ele, com a voz suave, quase ensaiada. Evelyne inclinou a cabeça educadamente, ciente da presença de Azriel atrás dela, e caminhou com o homem pelo chão polido. Manteve o sorriso formal, mas seus olhos não resistiram a lançar olhares para as sombras onde Azriel estava parado. Seu maxilar estava tenso, sua postura rígida, e uma sombra passou por seu rosto — desaprovação, talvez, ou irritação. Ela não tinha como saber, e isso a intrigava. Estava fazendo exatamente o que lhe haviam dito: demonstrando cortesia, mantendo a compostura. Por que, então, ele parecia… zangado? A dança terminou e o lorde curvou-se novamente, corado pelo esforço. Evelyne acenou educadamente com a cabeça e afastou-se. Azriel aproximou-se mais do que o habitual, de modo que, quando ela se virou e o encontrou ao seu lado, a atmosfera entre eles pareceu carregada, embora ela não soubesse explicar o porquê. “Você não pode simplesmente vagar por esses corredores”, disse ele bruscamente, em voz baixa, apenas o suficiente para que ela ouvisse. “Há olhos por toda parte, e nem todos são educados ou confiáveis. Seria bom que você se lembrasse disso”. Evelyne inclinou a cabeça, surpresa com o tom dele. "Estou simplesmente seguindo a etiqueta da corte", disse ela suavemente. "Espera-se que eu sorria e dance. Certamente isso não justifica tal... temperamento." Os olhos de Azriel se voltaram brevemente para a multidão, e depois voltaram para ela. "Não é mau humor", disse ele com cautela, "é preocupação. E às vezes a preocupação precisa ser expressa em voz alta o suficiente para ser ouvida". Evelyne franziu a testa. Ela não entendia a intensidade em suas palavras, a maneira como ele parecia se irritar com o menor risco percebido. "Entendo", murmurou ela, sem saber se devia se sentir repreendida ou confusa. Ele não respondeu mais nada. Em vez disso, endireitou-se e deu um passo para trás, deixando a ilusão de distância retornar, embora a tensão persistisse como fumaça. Evelyne sentiu, uma fricção sutil que não conseguia explicar, um calor protetor que pressentia, mas não nomeava. Tentou ignorá-lo, concentrando-se no ambiente ao redor, na música e na conversa — mas o peso do olhar dele a seguia, frio e penetrante. A noite avançava, danças eram trocadas, brindes eram feitos, e Evelyne percorria o salão cintilante com a graça que se esperava dela. E durante todo esse tempo, a presença de Azriel permanecia — um sentinela silencioso, frustrantemente próximo e distante ao mesmo tempo, um mistério que ela não conseguia decifrar nem confrontar. Para Evelyne, era desconcertante. Sua repentina falta de tato, a postura rígida, a aspereza das palavras — o que poderia significar? Ela não fizera nada além de cumprir seu dever, e ali estava aquele homem, de guarda, aparentemente desagradado a cada gesto de cortesia dela. E embora não conseguisse nomear o que sentia, uma parte dela sentia uma pontada de… irritação em resposta, como se uma linha invisível tivesse sido traçada entre eles. Ao final da noite, a música havia diminuído e as velas tremeluziam fracamente. Evelyne parou para lançar um olhar para as sombras. Azriel ainda estava lá, imóvel, seus olhos escuros percorrendo a multidão. Ela não o entendia, não sabia o que motivava sua repentina intensidade, mas uma coisa era clara: ele estava observando, e qualquer que fosse o motivo, ela não conseguia se livrar da sensação de que sua vigilância, por mais irritante que fosse, a mantinha mais segura do que ela imaginava. O ar da noite estava fresco, trazendo o aroma da geada e dos pinheiros dos jardins do castelo. Evelyne passou por uma porta lateral do salão, deixando o ruído das últimas danças se dissipar atrás dela. Precisava de espaço, um alívio do salão dourado, das expectativas sufocantes e dos olhares sempre atentos dos cortesãos. Mesmo agora, seu vestido farfalhava a cada passo, um lembrete de sua posição, de seu papel e da fachada meticulosamente planejada que se esperava que ela mantivesse.
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