Um Apelo Gelado

1935 Words
Os corredores de Velaris estavam estranhamente silenciosos naquela noite, a luz das tochas tremeluzindo contra as paredes de pedra fria como se o próprio castelo estivesse prendendo a respiração. Evelyne se movia com rapidez, mas cautela, as botas m*l fazendo barulho no chão congelado. Seu coração palpitava com a lembrança do caos do dia anterior, das cartas que rasgara em frustração, da ameaça iminente de um casamento do qual não podia nem recusar nem escapar. Ela precisava de um momento, uma chance de respirar, de caminhar sem paredes a oprimindo. E sabia exatamente para onde tinha que ir. O pátio estendia-se diante dela, prateado pelo luar e pontilhado de estátuas cobertas de geada e fontes adormecidas. Seu manto era pesado contra o frio, mas pouco fazia para aquecer o fogo em seu peito. Ela o encontrou encostado no muro baixo perto dos estábulos, ombros eretos, olhos escuros contra o brilho pálido da noite. Ele estava imóvel, como um sentinela esculpido nas sombras, e por um instante ela simplesmente o observou, o coração palpitando em inesperada expectativa. “Azriel”, ela sussurrou, com a voz hesitante, mas ao mesmo tempo urgente. Ele se virou bruscamente, os olhos se estreitando ao encontrarem os dela. O tênue luar refletia na cicatriz que percorria sua bochecha, uma lembrança de batalhas e dever, de uma vida forjada na obediência e na violência. "Princesa", respondeu ele, a única palavra carregando um peso que ela podia sentir até os ossos. Seu tom era seco, cauteloso, como se já tivesse pressentido as emoções que ela ainda não havia expressado. “Eu… eu queria me desculpar”, disse ela, aproximando-se, sentindo o gelo estalar sob suas botas. Ela manteve o olhar fixo no chão, relutante em demonstrar a palpitação em seu peito. “Pelo que aconteceu mais cedo… pelo meu desabafo. Eu—” Ela respirou fundo, com a voz trêmula. “Eu não queria gritar, não com você. Não daquele jeito.” A expressão de Azriel suavizou-se ligeiramente, embora ele não tenha relaxado a postura. "Entendo", disse ele, com a voz baixa e ponderada. "É... difícil. As paredes deste castelo podem parecer mais pesadas do que a própria coroa." Evelyne ergueu o olhar, encontrando o dele. Havia algo cru em seus próprios olhos, algo que ela raramente se permitia sentir, mesmo em particular. "É sufocante", admitiu ela baixinho. "Eu obedeço, sigo as regras... mas às vezes parece que não consigo respirar. E ainda assim... esperam que eu sorria, que me comporte como se tudo estivesse bem, o tempo todo." Ele não disse nada, mas a tensão em sua postura suavizou-se imperceptivelmente. Ela sentiu isso — um pequeno reconhecimento de que ele entendia, mesmo que não pudesse dizer em voz alta. Por um instante, ficaram em silêncio, ouvindo o suave assobio do vento entre as árvores e o canto distante de um pássaro noturno. Então, impulsivamente, ela se aproximou. "Você... gostaria de caminhar comigo?" Azriel hesitou, seu olhar desviando-se para as muralhas do castelo, para os guardas adormecidos. O dever e a cautela lutavam com algo muito menos tangível, algo que ele ainda não conseguia nomear. Mas finalmente inclinou a cabeça. "Muito bem. Uma caminhada. Apenas uma curta." Caminharam juntos pelo pátio, as botas rangendo suavemente sobre a geada, o ar frio cortante e revigorante. Evelyne sentiu o frio queimar suas bochechas, mas não era nada comparado ao fogo da emoção que ainda não conseguia definir. A noite parecia prender a respiração com ela, cada passo deliberado, calculado. “Não costumo andar à noite”, admitiu ela, lançando-lhe um olhar de soslaio. “É uma sensação… de liberdade, mesmo que seja só por um curto período de tempo”. Os olhos de Azriel se voltaram para os dela, escuros e indecifráveis. "A liberdade é perigosa em Velaris", disse ele em voz baixa. "Especialmente para você, Princesa." Ela soltou uma risada baixa e amarga. "Perigoso... sim. Mas talvez menos assustador do que ficar presa entre estas paredes." Suas mãos se fecharam ao lado do corpo, o frio cortando suas luvas. "Às vezes eu trocaria qualquer coisa por uma noite como esta, uma noite em que eu possa escolher meus passos, meu caminho, meus pensamentos..." Ele não disse nada, mas o leve tensionamento de sua mandíbula, a sutil dilatação de suas narinas, denunciavam a tensão que ela ainda não conseguia nomear. Ele permaneceu calmo, ainda como um sentinela, mas a contenção que ostentava como uma armadura apenas intensificava a pequena conexão tácita entre eles. Eles caminharam pelos jardins cobertos de geada, as estátuas de monarcas esquecidos observando em silêncio enquanto a neve lhes cobria os ombros. Evelyne inspirou profundamente o ar fresco, deixando-o clarear sua mente, mesmo enquanto a preenchia com uma determinação silenciosa. "Você já desejou...", começou ela hesitante, "...poder deixar tudo isso para trás? O castelo, as regras... os deveres?" O olhar de Azriel escureceu, uma tempestade contida. "Não é tão simples", disse ele. "Tenho obrigações. Sirvo à coroa. E mesmo que pudesse partir... não poderia abandonar a responsabilidade que carrego, sabendo que você está aqui, sabendo dos perigos que a cercam." Seu coração palpitou ao ouvir as palavras, ao sentir o carinho por trás da fachada controlada. Ela queria estender a mão, tocá-lo, sentir o calor da noite fria, mas se conteve, lembrando-se de que o dever dele vinha em primeiro lugar. "E mesmo assim... você fica", murmurou, agora mais baixo, quase para si mesma. “Fico porque é necessário”, respondeu ele com firmeza, mas havia uma corrente subterrânea que ela sentia, embora ele não a nomeasse. Algo protetor, algo mais pesado que o dever. Ela sentiu isso no leve endurecimento de sua postura, na inclinação atenta de sua cabeça em sua direção. Uma rajada de vento sacudiu a parede de pedra, espalhando alguns flocos de gelo pelo pátio. Evelyne estremeceu, não de frio, mas pela proximidade, pelo peso do silêncio compartilhado. Ela deu um passo um pouco mais perto, lançando-lhe um olhar, notando como a luz da tocha acariciava seu rosto, a cicatriz, a profundidade escura de seus olhos. Por um instante, a noite pareceu suspensa, o mundo reduzido aos dois. dedos repousarem, imaginando, ousando, como seria tocá-lo. Mas o instinto e a cautela a fizeram recuar. Os olhos de Azriel se voltaram para ela, penetrantes e perspicazes, e ela sentiu — o entendimento tácito, o aviso silencioso. Ele não agiria, não podia agir, e ainda assim sua preocupação era palpável, quase sufocante em sua intensidade. A noite pareceu prender a respiração junto com eles, as estrelas acima testemunhando aquele momento compartilhado de tensão não reconhecida. Caminharam lado a lado, suas sombras longas e entrelaçadas na trilha coberta de geada, cada passo ecoando na noite silenciosa. O castelo se erguia atrás deles, silencioso e vigilante, uma lembrança das regras e deveres que os uniam. Contudo, por aqueles minutos roubados, sob o céu infinito e as estrelas cintilantes, o mundo pareceu um pouco mais suave, um pouco mais vivo. Caminharam em silêncio por alguns passos, cada um perdido em seus próprios pensamentos, até que Evelyne inclinou a cabeça para o lado, ousando. "Você já... se perguntou se as coisas poderiam ser diferentes?", perguntou ela, em voz baixa. "Se o mundo... não fosse tão rígido?" Azriel virou a cabeça bruscamente em direção a ela, os olhos se estreitando. "Não fale assim", disse ele bruscamente. "Você não tem ideia do que está dizendo." “Talvez”, sussurrou ela, baixando o olhar. “Mas parece… importante ter essa dúvida”. Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, examinou o horizonte, as muralhas de Velaris erguendo-se ao fundo, as estrelas estendendo-se infinitamente acima. A noite parecia envolvê-los, íntima, privada, e ainda assim repleta das regras tácitas que os uniam. Finalmente, ele falou, mais baixo desta vez, quase com arrependimento. "É perigoso sentir... isso", murmurou. "Ficar pensando em coisas que não podemos ter". O coração de Evelyne palpitava dolorosamente, e ela teve que se lembrar de que ele não sabia, não podia saber, da pequena e tênue atração que surgia dentro dela. Ela ousou lançar-lhe um olhar rápido, quase imperceptível, notando como o luar brincava com as linhas de seu rosto marcado por cicatrizes e a força tensa de sua figura. Por um instante, ficaram em silêncio, os únicos sons sendo o sussurro do vento entre os galhos cobertos de geada e o chamado distante de uma coruja. Suas sombras dançavam ao longo da trilha, longas e entrelaçadas, mas separadas pelas regras tácitas do dever e da honra. Caminharam em silêncio, o único som sendo o ranger da geada sob suas botas. O castelo se erguia atrás deles, escuro e imóvel, suas torres recortadas contra o céu estrelado. A geada brilhava em cada galho e peitoril da janela, e o ar tinha um leve cheiro de fumaça e pinho. Estava frio, mas o calor tranquilo do espaço compartilhado fez com que seus ombros relaxassem um pouco, mesmo que seu coração ainda batesse acelerado. Evelyne lançou um olhar furtivo para Azriel, notando como o luar brincava com seus traços angulosos, realçando a cicatriz e a intensidade de seus olhos escuros. Ele se movia com precisão cuidadosa, cada passo calculado, sua presença sendo ao mesmo tempo uma barreira e um conforto. Ela nunca o havia observado dessa forma antes. Havia força nele, sim, mas também uma vigilância calma que a fazia sentir... observada de uma maneira não opressiva, mas silenciosamente protetora. “Você anda como se fosse dona da noite”, disse ela baixinho, mais para si mesma do que para ele, deixando as palavras escaparem sem pensar. O olhar de Azriel se voltou para ela, um leve aperto no canto da boca, embora ele não tenha dito nada. Ela podia sentir a leve tensão nele, a vigilância silenciosa, e isso fez seu peito doer de uma forma que ela não conseguia descrever. Eles pararam em um pequeno banco de pedra escondido sob uma sebe coberta de geada. Evelyne estremeceu, embora não fosse exatamente de frio. Ele esperou ao lado dela, silencioso, mas firme, e por um instante ela se permitiu respirar, simplesmente existir naquela tranquila companhia. "Está... lindo esta noite", murmurou ela, deixando o olhar percorrer o pátio cintilante e a neve reluzente sob a luz das estrelas. "Quase tranquilo". Azriel não disse nada, mas o pequeno aceno de cabeça que ele lhe dirigiu dizia tudo. Ela não precisava de palavras para sentir o peso de sua presença, firme e inabalável, e um respeito silencioso que ainda não havia sido revelado, nem a ela, nem a ninguém. Após um instante, ela se moveu, sacudindo a neve de sua capa. A quietude se estendeu entre eles, reconfortante e tensa, um silêncio que continha mais do que qualquer um dos dois ousaria expressar em voz alta. Lentamente, ela deixou seu olhar se perder à frente, o caminho serpenteando de volta para o castelo. Sem dizer uma palavra, viraram-se juntos, caminhando de volta sob a luz pálida das estrelas. A geada estalava sob seus pés, e embora nenhuma mão se tocasse, nenhuma confissão fosse feita, a noite guardava uma silenciosa compreensão. Quando retornaram às muralhas do castelo, a noite já estava bem mais profunda. Azriel permanecia a um passo de distância, um guardião sombrio, e Evelyne sentiu um leve e fugaz calor ao saber que ele estava ali. Ela não entendia por que notava aquilo — ou por que importava —, mas, mesmo assim, acolheu a sensação. Ao retornar silenciosamente para seus aposentos, com a porta se fechando suavemente atrás dela, o mundo lá fora pareceu um pouco menos frio, um pouco menos solitário. E embora nada tivesse mudado, tudo parecia diferente.
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