Vigília Silenciosa

1621 Words
Durante três dias após o incidente no mercado, o castelo pareceu prender a respiração. A notícia da "doença" da princesa — como o Príncipe e Sir Azriel haviam afirmado discretamente — espalhou-se rapidamente, e os criados baixavam os olhos quando ela passava. Evelyne permaneceu praticamente confinada aos seus aposentos, em parte por insistência da mãe, em parte porque não suportava vê-lo. Azriel. O próprio nome lhe causava arrepios como a lâmina de uma faca. Ele a humilhara diante de suas próprias amigas, arrastara-a pelas ruas como uma criança pega fazendo travessuras e, ainda por cima, tivera a audácia de falar com ela como se fosse uma soldado sob seu comando. Um cavaleiro plebeu ousando levantar a voz para uma princesa. E, no entanto, ela não conseguia parar de pensar naquele olhar dele, naquele lampejo de fúria, sim, mas por baixo... algo mais sereno. Ela se detestava por ter se perguntado o que era aquilo. A luz da manhã entrava pálida pela janela enquanto ela estava sentada em sua penteadeira. "Ele ainda está de serviço lá fora?", perguntou à sua dama de companhia, fingindo indiferença. “Sim, Alteza”, disse a garota em voz baixa. “Sir Azriel não deixou seu posto desde o amanhecer”. O peito de Evelyne apertou de uma forma inexplicável. "Bem", disse ela secamente, "talvez ele goste de ficar no frio". Ainda assim, quando ela passou pelo corredor pouco depois, seu coração a traiu com uma única e rápida batida. Lá estava ele — parado perto da porta dela, a armadura brilhando fracamente na luz cinzenta, o rosto indecifrável. “Bom dia, princesa”, disse ele, curvando-se rigidamente. Ela não olhou para ele ao responder: "Bom dia, senhor Azriel". O título saiu de seus lábios como um desafio, incisivo e conciso. Ele acompanhou seus passos enquanto ela caminhava pelo corredor. Sua presença era silenciosa, mas impossível de ignorar. Ele se movia como uma sombra — nunca falando a menos que fosse necessário, nunca se afastando muito. O arrastar de suas botas no chão de pedra tornou-se o ritmo do seu dia. A princípio, Evelyne tentou ser mais rápida que ele. Depois, tentou despistá-lo. Certa vez, ela passou sorrateiramente por uma passagem de criados para testar se ele a seguiria. Sim, ele fez. Sem dizer uma palavra. Quando ela se virou para encará-lo, ele a olhou nos olhos com calma e contenção. "Meu dever é permanecer ao seu lado, Princesa", disse ele simplesmente. “Seu dever”, ela repetiu, com veneno na voz. “Você nunca se cansa dessa palavra?” Ele piscou lentamente. "Não, Alteza. É o dever que impede este reino de desmoronar." "Então talvez seja por isso que me sinto como numa gaiola", murmurou ela baixinho. Ele não disse nada, mas seu maxilar se contraiu. Ele a seguiu de perto enquanto ela caminhava para o salão norte, onde a dama de companhia de sua mãe a aguardava — a sala de aulas que Evelyne detestava mais do que qualquer outro cômodo em Velaris. A Rainha havia decretado que uma princesa deveria conhecer todas as regras de diplomacia, linhagem e etiqueta. Era uma prisão dourada de polidez. A porta se fechou atrás dela com um baque surdo. Azriel tomou seu lugar do lado de fora, imóvel como uma estátua. Lá dentro, Evelyne estava sentada, ereta, à longa mesa de mogno, enquanto Lady Hester arrumava seus pergaminhos. “Hoje”, disse o tutor, “daremos continuidade à preparação para o seu futuro cônjuge”. Os dedos de Evelyne apertaram a pena com mais força. "Precisamos mesmo?" “Sua mãe insiste. Não adiantará nada parecer ignorante quando chegar a hora.” “Quando chegar a hora”, repetiu Evelyne, com um tom ríspido. “Quer dizer, quando eu for negociada como uma joia, com algumas vantagens diplomáticas em troca?” Lady Hester dirigiu-lhe o sorriso paciente de alguém há muito resignado à insolência real. "É um privilégio servir cumprindo o seu dever, Alteza." "Privilégio", repetiu Evelyne, com um sorriso amargo nos lábios. Durante duas horas, ela leu em voz alta trechos que descreviam a obediência das rainhas, a lealdade das esposas, a elegância da submissão. Sua voz era firme, mas seu coração palpitava. Além da porta do quarto, ela podia sentir a sombra de Azriel. Ela se perguntava se ele alguma vez ouvira essas lições — se ele entendia como sua vida era construída sobre regras disfarçadas de virtudes. Ao ler a última passagem, Evelyne fechou o livro com muita força. "O dever algum dia termina, Lady Hester? Ou nos engole por inteiro?" A mulher mais velha enrijeceu. "Você nasceu para governar ao lado de um homem, não contra ele, princesa. Você aprenderá a paz na obediência." Evelyne se levantou, sentindo o pulso acelerado sob a pele. "A paz", disse ela suavemente, "não nasce da obediência". Ela saiu correndo antes que a mulher pudesse responder. Azriel endireitou-se quando ela apareceu. Seus olhares se encontraram — a fúria dela ardendo intensamente, a dele fria e serena. "Você está bem, princesa?", perguntou ele em voz baixa. “Não”, disse ela secamente. “Mas acho que isso não importa”. Ele não se assustou, mas seu olhar desviou-se brevemente para a porta que ela acabara de bater. "Era seu tutor?" Ela é apenas um reflexo de todos os outros”, disparou Evelyne. “Este castelo está cheio de pessoas que falam baixo enquanto atado correntes invisíveis”. Por um instante, sua compostura vacilou. Por pouco. "As correntes protegem tanto quanto aprisionam". Ela se virou para ele, estreitando os olhos. "Será? Ou eles só protegem quem tem as chaves?" Ele não tinha resposta para isso. Ela passou por ele e seguiu pelo corredor, seus passos ecoando pelo salão frio. Ele a seguiu a uma distância cautelosa. Aquele silêncio entre eles prolongou-se pela manhã e pela tarde. Evelyne tinha ido à biblioteca ler, na esperança de escapar à sua presença ameaçadora, mas mesmo lá, ela podia senti-lo — quieto, imóvel, um sentinela à porta. Por fim, ela fechou o livro com força. "Você alguma vez respira, senhor Azriel?" Ele ergueu os olhos, assustado. "Como?" “Você fica aí parada como uma estátua”, disse ela, levantando-se. “Você nunca fala a menos que lhe dirijam a palavra, nunca se move, nunca — nunca vive. É perturbador”. Seus lábios se contraíram, num movimento que não chegou a ser um sorriso. "Você prefere que eu fale sem parar?" "Prefiro que você se comporte como uma pessoa, e não como uma arma." Ele hesitou. Então, com cuidado, disse: "Uma arma não questiona suas ordens, princesa. Ela apenas as obedece". Algo em seu tom a fez hesitar. Ele não estava sendo insolente; estava sendo honesto. Honesto demais. Ela se virou, incomodada com o quão humano ele soava. As horas se arrastavam, mas ela notava pequenos detalhes — como ele estendia a mão para abrir todas as portas antes dela, como ajustava sutilmente a postura sempre que alguém se aproximava demais, como sua mão repousava levemente sobre a espada quando atravessavam um corredor lotado. Ele fez isso sem pensar. Não para se exibir. Não para agradá-la. Simplesmente porque precisava. A caminho do jantar, ela se viu na galeria real, onde os retratos de seus ancestrais a observavam de molduras douradas. Os reis retratados eram todos iguais — homens de olhar severo, vestidos de carmesim e ouro, espadas desembainhadas, olhares fixos em algum horizonte imaginário. Azriel esperou junto à porta, tão silencioso como sempre. “Você se comporta como eles”, disse ela depois de um tempo, sem se virar para encará-lo. "Perdão?" “Os homens nesses retratos”, disse ela. “Só dever. Nenhuma alma”. Ele hesitou, claramente incerto se ela esperava uma resposta. "Não tenho coroa, princesa. Apenas ordens." “E essas ordens alguma vez te deixam descansar?” Seus olhos piscaram — um mínimo traço de humanidade transparecendo. "Não". Era uma palavra tão simples, mas soava como uma confissão. Evelyne se virou, observando-o pela primeira vez não como um incômodo, mas como um homem. A sombra roxa em seu queixo, o corte superficial em sua testa, a postura que denunciava batalhas demais e paz de menos. Ela desviou o olhar rapidamente. "Talvez não sejamos tão diferentes assim", murmurou. Ele não respondeu, mas sua mandíbula relaxou. Lá fora, começou a nevar — uma nevasca lenta e silenciosa que suavizou as arestas do mundo. Lá dentro, duas pessoas estavam a um braço de distância uma da outra, separadas por posição social e circunstâncias, mas unidas por algo que nenhuma delas conseguia nomear. Azriel permaneceu onde sempre ficava: um passo atrás, uma sombra no frio. Mas, pela primeira vez, ele viu não apenas a Princesa de Velaris, mas a jovem mulher aprisionada sob o peso de seu título. E Evelyne — embora preferisse morder a língua a admitir — começou a se perguntar se o cavaleiro que acorrentava sua liberdade não entenderia sua prisão melhor do que qualquer outra pessoa. Naquela noite, Evelyne ficou parada junto à janela, olhando para as tochas bruxuleantes lá embaixo. A neve começara a cair novamente, o pátio banhado por um branco silencioso. Ela pensou nele ainda parado do lado de fora da porta, a armadura refletindo a luz, esperando apenas pelo perigo. Ela disse a si mesma que era absurdo sentir pena dele. Ele era um soldado. Era a vida dele. A escolha dele. E, no entanto, quando apagou a vela e ficou acordada, não conseguiu se livrar da imagem dele — silencioso, paciente, sozinho no frio. Ela não o conhecia. Não gostava dele. Mas, de alguma forma, começava a perceber que o silêncio dele não era arrogância. Era uma armadura de outro tipo.
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