O castelo repousava sob um manto de neve silenciosa. Da torre mais alta aos pátios sombreados, tudo estava imóvel — exceto pelo tênue brilho das tochas que pintavam as paredes de dourado e o eco ocasional de botas sobre as pedras. O mundo lá fora estava coberto de branco, mas lá dentro, o ar parecia pesado, como se os próprios grandes salões prendessem a respiração.
Evelyne não conseguia dormir.
Seus aposentos eram silenciosos demais, polidos demais, cheios demais de um ar com um leve cheiro de incenso e pedra fria. Até mesmo o fogo em sua lareira parecia relutante em queimar, sibilando suavemente como se estivesse cansado de fingir que oferecia calor. Ela se revirou inquieta sob os cobertores antes de finalmente desistir de vez.
Sua mãe a repreenderia se soubesse que ela vagava sem rumo a essa hora. Rhysand suspiraria. As criadas cochichariam. Mas esta noite, ela não se importava. Havia algo sufocante em ser uma princesa naquele lugar — uma vida planejada e calculada, protegida e dourada. Uma gaiola, por mais bonita que fosse.
Ela se levantou, vestiu a capa e parou junto à janela. A neve caía preguiçosamente pelo céu escuro, os flocos captando a fraca luz das tochas do pátio lá embaixo. Dois guardas estavam à sua porta — homens que ela não reconheceu. Eram rígidos demais, impessoais demais. Não eram as figuras quietas e observadoras que ela se acostumara a ver na periferia de seus dias.
Azriel não estava lá.
Ela sabia que ele não passava os dias inteiros parado do lado de fora do quarto dela como um sentinela. Ele tinha outros deveres — a segurança da Rainha durante as sessões do conselho, a supervisão dos treinamentos da guarda real, os despachos a mando do Rei. Mesmo assim, Evelyne notara que, quando ele estava por perto, o mundo parecia mais nítido. Mais alerta. E quando ele não estava… o silêncio era diferente. Inquieto.
Ela encostou o ouvido na porta; os guardas do lado de fora conversavam em voz baixa.
"...ela não deveria estar dormindo a essa altura?" murmurou alguém.
“Provavelmente”, disse o outro. “Não é problema nosso, a menos que ela chame alguém”.
Eles eram jovens. Inexperientes. Ela quase sorriu.
Num raro lampejo de rebeldia, Evelyne apertou a capa e abriu a tranca com cuidado. As dobradiças não fizeram nenhum ruído — ela mesma as havia lubrificado semanas atrás, mais um pequeno ato de desafio contra o escrutínio constante. Ela saiu sorrateiramente para o corredor.
Nenhum dos guardas se virou.
Seu coração acelerou. A emoção de estar invisível — livre — pulsava em seu corpo enquanto caminhava descalça pelo corredor, o frio cortando seus dedos através do tecido fino de seus chinelos. Pela primeira vez, ela estava sozinha e sem ser observada, apenas Evelyne, não a filha do Rei, não um prêmio de ouro e dever.
O castelo estava silencioso, embora o vento uivasse contra as paredes de pedra como uma criatura em agonia. A neve começara a cair novamente, cobrindo as torres e o pátio com uma luz pálida, e as tochas ao longo dos corredores tremeluziam contra os arcos sombreados. Evelyne vagava sem rumo, suas saias roçando o chão frio, as mãos cerradas à sua frente. O calor das lareiras do dia havia se dissipado na memória, deixando-a gelada tanto no corpo quanto na alma. Ela tentara, como sempre, ocupar-se — lendo à luz de velas, estudando bordados, até mesmo caminhando pelos corredores — mas a frustração de mais um dia constrangido pelo dever e pela expectativa tornara-se insuportável. Ela precisava de ar, movimento, alguma aparência de liberdade, embora soubesse que não a encontraria dentro daquelas paredes.
O salão da grande lareira se erguia à sua frente, um lugar que ela raramente visitava sozinha. As portas duplas estavam entreabertas, deixando cair uma luz dourada no chão. Ela as empurrou cautelosamente, o pulso acelerando, sem saber o que esperava — talvez solidão, talvez uma fuga. E lá estava ele, sentado junto à lareira, meio na sombra, a luz da chama tremulando sobre os ângulos agudos de seu rosto. Azriel. Ela o vira muitas vezes desde sua chegada, sempre silencioso, sempre observando, e ainda assim ela quase nada sabia sobre ele. Sua presença era como uma sombra que se recusava a ser ignorada, e naquela noite, naquele salão, ela a pressionava de uma maneira que não conseguia descrever.
Azriel estava sentado perto da grande lareira, um braço apoiado no encosto de uma cadeira, o fogo pintando suas feições com tons de bronze e sombra. Seu casaco de uniforme pendia sobre uma cadeira próxima; sua camisa de linho estava arregaçada até os cotovelos, revelando antebraços levemente marcados por cicatrizes — pálidas lembranças de batalhas que ela só podia imaginar. Ele não se parecia em nada com o soldado silencioso e disciplinado que ela vira em eventos formais. Ele parecia… real.
“Você não deveria estar aqui”, disse ele, sem se virar. Sua voz era baixa, firme, mas ela captou a mensagem implícita — não exatamente uma repreensão, mas uma discreta percepção.
Ela endireitou os ombros. "Nem você, imagino."
Isso o fez erguer o olhar. Seus olhos — um cinza tempestuoso e indecifrável — encontraram os dela brevemente antes de se voltarem para a porta aberta atrás dela. "Há guardas de plantão em seus aposentos".
“Sim”, disse ela friamente. “Dois deles. Discutindo se eu deveria ou não estar dormindo. Muito dedicados”.
Ele franziu a testa, levantando-se da cadeira. "Você conseguiu passar por eles sem ser notado?"
“Sem dúvida”, disse ela com um leve sorriso, cruzando os braços. “Devo ficar impressionada com a sua escolha de homens, Capitão?”
Pela primeira vez, ele quase sorriu — não completamente, mas o canto da boca se contraiu, a expressão mais exasperada do que divertida. "Eles são novos", disse ele. "Os turnos são curtos enquanto a guarda do Rei está sobrecarregada. Eu os coloquei lá para garantir sua segurança, não para testar a inteligência deles."
“Bem”, disse ela, passando por ele em direção à lareira, “talvez você precise rever seus critérios. Eu poderia ter sido qualquer um que estivesse se esgueirando por aqueles corredores”.
Ele se aproximou, e seu tom de voz tornou-se ríspido. "Você poderia ter sido alvo de qualquer um."
Ela prendeu a respiração. Ele não deveria ser capaz de vê-la tão claramente. Ninguém era.
Ela se virou rapidamente, sem querer que ele visse a ardência repentina e aguda em seus olhos. O fogo crepitou, preenchendo o silêncio entre eles.
“Seus guardas”, disse ela finalmente, como se quisesse preencher o silêncio com qualquer coisa, menos com sentimento. “Você vai repreendê-los, não vai?”
“Sim.” Sua voz era calma, quase calma demais. “Mas não por deixarem você passar. Por acharem que poderiam protegê-la melhor do que eu.”
As palavras a atingiram como um golpe e uma promessa ao mesmo tempo. Ela o encarou com firmeza, mas ele já se virava de volta para a lareira, o maxilar travado, o olhar novamente indecifrável.
Ele era um soldado — sereno, inabalável, jurado a uma coroa que os prendia a ambos. Mas por baixo de toda aquela contenção, ela pressentia algo mais: uma lealdade mais afiada que qualquer lâmina e, talvez, apenas talvez, o início de algo perigoso que nenhum dos dois conseguia nomear.
Após um longo momento, ele se endireitou. "Venha", disse ele em voz baixa. "Está tarde".
Ela piscou, surpresa com a gentileza em seu tom de voz. "Você está me dando ordens agora?"
Ele arqueou uma sobrancelha. "Você prefere que eu a carregue de volta?"
Ela o encarou com raiva, embora seu pulso tenha acelerado traiçoeiramente. "Você não ousaria".
Um leve sorriso surgiu em seus lábios. "Me experimente".
Foi o suficiente para fazê-la virar nos calcanhares, sua capa rodopiando atrás dela enquanto caminhava em direção à porta. Ele a seguiu alguns passos atrás, silencioso como uma sombra.
Os corredores estavam mais vazios agora, o ar tão frio que chegava a ser cortante. Os jovens guardas do lado de fora de seus aposentos se assustaram quando os dois dobraram a esquina — um gaguejando, o outro endireitando-se rápido demais.
"Capitão", conseguiu dizer um deles, com o rosto pálido.
A expressão de Azriel não mudou. "Discutiremos a vigilância de vocês pela manhã." Seu tom era ameno, mas os guardas empalideceram ainda mais.
Evelyne apertou os lábios, uma mistura de divertimento e culpa crescendo em seu peito.
Quando a porta se fechou atrás deles, ela se virou para ele. "Você não precisa puni-los severamente. Eles apenas me subestimaram."
“Isso já é castigo suficiente”, disse ele.
“E quanto a mim?”
O olhar dele encontrou o dela. "Você", disse ele depois de um instante, "eu lido com isso mais tarde".
Seu coração deu um pequeno e inexplicável solavanco. "Você fala como se eu fosse um dos seus soldados."
Seus lábios se contraíram. "Você me dá muito mais trabalho."
Ela não conseguiu evitar — deu um sorriso. Só um pouquinho. Isso surpreendeu os dois.
A expressão de Azriel suavizou-se, apenas por um instante, antes que ele desse um passo para trás e inclinasse a cabeça.
“Descanse um pouco, Alteza”.
Ela abriu a boca — para protestar, para agradecê-lo, não tinha certeza — mas ele já havia ido embora, seus passos se perdendo no corredor de pedra além.
Quando finalmente voltou para o quarto, o fogo ainda estava baixo, o ar ainda frio. Mas o silêncio já não parecia tão solitário.
Quando a porta do quarto da princesa se fechou suavemente atrás dele, Azriel exalou pela primeira vez em horas. O frio do corredor o atingiu como uma onda, cortante e perturbadora, embora não tenha ajudado a acalmar seus pensamentos.
Ele ficou do lado de fora por um instante a mais do que deveria, ouvindo o som abafado de seus movimentos além da porta — o suave farfalhar do tecido, o leve arranhar da lenha sendo mexida na lareira. Nada de impróprio, nada de perigoso. Apenas… a prova de que ela estava segura.
Ele passou a mão pelos cabelos, com o maxilar tenso. Não deveria tê-la seguido. Não deveria ter deixado que ela visse aquele lado dele — vulnerável, quase humano. Não lhe cabia falar com ela daquele jeito, deixar a familiaridade transparecer em seu tom de voz, notar como a luz da fogueira realçava o dourado dos cabelos dela.
Ele passara anos aprendendo a se conter. Anos se transformando em algo confiável, inabalável, útil. Mas uma princesa teimosa e imprudente — um lampejo de desafio, riso e paixão — conseguira abrir uma porta que ele julgava há muito tempo selada.
Ele começou a caminhar, passos lentos e deliberados pelo corredor silencioso. Os guardas em seus postos assentiram rigidamente enquanto ele passava, mas ele m*l os viu. Sua mente ainda estava naquele corredor — à beira da luz da fogueira, onde ela estivera de pé com o queixo erguido e os olhos mais brilhantes que as chamas.
Ele a havia chamado de inquieta. Era verdade. Mas a verdade era mais c***l: sua inquietação era contagiosa.
Ele chegou à escadaria e parou junto à janela com vista para o pátio. A neve ainda caía, suave e incessante. Em algum lugar lá embaixo, o mundo dormia em paz. Mas Azriel sabia que não era bem assim.
A paz era algo frágil — facilmente quebrada, muitas vezes pelas pessoas que menos tinham essa intenção.
Ele fechou os olhos e deixou o ar frio abalar ainda mais sua compostura.
Ele a protegeria. Esse era o seu dever.
Mas, Deus o ajude, se ela continuasse olhando para ele daquele jeito, ele não tinha certeza de quanto tempo conseguiria fingir que era só isso.