O vento matinal cortava os corredores do Castelo de Velaris como uma lâmina, agitando os flocos de neve soltos das beiradas do telhado em redemoinhos fantasmagóricos que se pressionavam contra as altas janelas da sala do trono. Evelyne apertou o manto em volta dos ombros enquanto caminhava ao lado da Rainha, suas botas ecoando no chão de pedra. O salão tinha um leve cheiro de fumaça, cera e o toque persistente da geada, e cada passo parecia lembrá-la de quão pequena ela era naquele lugar vasto e inflexível. As tapeçarias que retratavam gerações de monarcas, todos estoicos e imperiosos, pareciam observá-la com um julgamento silencioso, como se o peso da história de sua família oprimisse seus ombros já sobrecarregados.
“Evelyne, fique perto”, a voz de sua mãe cortou o uivo do vento, nítida e precisa. O tom de Isolda era tão preciso quanto sua postura, seu vestido escuro varrendo o chão sem uma única ruga, o delicado bordado captando a pálida luz do sol que entrava pelas altas janelas. “Você precisará ouvir isso com atenção. E lembre-se, a corte está sempre ouvindo”.
Evelyne apertou as mãos enluvadas junto ao corpo. Há muito aprendera que as palavras da mãe muitas vezes tinham um peso maior do que os decretos do Rei. Sabia também que Isolda não levantaria a voz, não precisaria; o seu olhar por si só era capaz de dobrar uma mulher à sua vontade. Evelyne olhou para além da mãe, notando os cortesãos reunidos, os embaixadores dos territórios vizinhos, cada um adornado com peles e insígnias cravejadas de joias. Os seus olhares voltaram-se para ela, alguns educados, outros calculistas, mas todos curiosos.
A Rainha a conduziu até o estrado onde a reunião aconteceria. O estômago de Evelyne se contraiu. Hoje, ela percebeu com uma certeza angustiante, seria mais um dia em que o mundo a lembraria de que ela era apenas uma peça no jogo. Ela engoliu em seco e forçou os ombros a permanecerem eretos.
Isolda começou sem preâmbulos. "Temos muito a discutir sobre os próximos preparativos", disse ela, com a voz carregada da autoridade de uma monarca, mas também com o tom de uma mãe que temia o mundo além do seu controle. "Tornou-se cada vez mais claro que o seu futuro deve ser assegurado para o bem de Velaris e, naturalmente, para a sua própria proteção."
O estômago de Evelyne revirou. Ela esperava discussões vagas, avisos sussurrados, talvez um leve empurrão na direção de alguma aliança distante. Mas as palavras da Rainha foram francas, quase frias.
“Durante anos”, continuou Isolda, “observei você crescer, forte e inteligente, porém sem o conhecimento das sutilezas necessárias para manter sua segurança em uma corte que não conhece misericórdia. O mundo não espera por pessoas de coração terno, Evelyne. Você precisa ser colocada em um lugar onde seu futuro estará protegido e onde você servirá a um propósito maior do que caprichos ou desejos.”
Os lábios de Evelyne se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. As palavras de sua mãe eram como gelo contra seu peito. Proteção. Propósito. Uma gaiola dourada disfarçada de segurança.
“Eu não vou—” ela começou, apenas para ter o olhar de Isolda fixo nela. Aquele olhar inabalável e inabalável que a acompanhou durante a infância, a adolescência e todos os momentos silenciosos e sufocantes entre esses dois extremos. “Não interrompa”, disse a Rainha, suavemente, mas com uma autoridade que silenciou até mesmo os cortesãos que ousassem murmurar. “Sua vontade é irrelevante aqui. Você pode ainda não compreender os perigos que a cercam, mas eu compreendo. E agirei de acordo.”
Evelyne sentiu um nó quente e furioso de raiva subir pela garganta. Seu coração batia forte, um tambor rápido e insistente, ecoando sua pulsação contra as paredes de pedra fria. "Mãe", disse ela, com a voz trêmula, misturando indignação e desespero, "eu não sou criança. Sou capaz de fazer minhas próprias escolhas!"
Os lábios de Isolda se contraíram, mas um leve traço de tristeza cruzou seu rosto. "Você é uma filha que prioriza o dever, Evelyne", disse ela, com a voz mais baixa, quase íntima, embora cada sílaba ecoasse pelos cantos mais distantes do salão. "Eu já fui como você, sonhando com a liberdade. Acreditava que o amor podia ser escolhido, que a vida podia estar sob meu controle. Eu estava enganada. Tudo o que fiz naquela época, fiz por esperança. Agora, ajo por certeza. Você se casará e deixará este castelo. Isso não é crueldade. É preservação."
As palavras atingiram seu corpo com uma precisão c***l. As mãos de Evelyne se fecharam em punhos ao lado do corpo, as unhas cravando-se nas palmas. Preservação. A própria palavra parecia uma corda no pescoço. "E se eu me recusar?", exigiu ela, a voz alta o suficiente para ecoar pelo cômodo, apesar do coração acelerado. "Se eu me recusar a ser amarrada assim?"
O olhar da Rainha suavizou-se, mas apenas o suficiente para lembrar Evelyne da compaixão que se escondia sob o ferro. “Recusar é um luxo que você não possui. As alianças forjadas por suas mãos são os próprios escudos que protegem este reino da ruína. Você pode não ver isso agora, mas com o tempo, você entenderá. Você me agradecerá.”
peito de Evelyne subia e descia com frustração. Agradecê-la? Por escolher uma vida que ela não havia escolhido? O pensamento fez seu estômago revirar. "Eu nunca vou te agradecer por tirar a minha vida!", ela cuspiu as palavras, e elas pareceram mais pesadas que qualquer pedra no castelo. Os cortesãos se remexeram desconfortavelmente; alguns engasgaram. Até mesmo os conselheiros da Rainha ficaram surpresos com a ousadia, embora Evelyne não se importasse.
Isolda não hesitou. Apenas observou a filha com olhos como obsidiana polida. "Então você viverá na miséria", disse ela suavemente. "E saiba que eu jamais me perdoarei por permitir isso, caso a alternativa seja o sofrimento. A escolha não é sua. Você não é livre."
O quarto parecia se fechar, as paredes se comprimindo, o vento frio que entrava pela janela cortando o manto de Evelyne e penetrando até os ossos. Ela queria fugir, correr para a neve e desaparecer da gaiola dourada que era sua vida. Mas não o fez. Permaneceu, tremendo, furiosa, pulsando com o peso insuportável do amor de sua mãe disfarçado de controle.
Mais tarde, quando o salão se esvaziou e os cortesãos retornaram aos seus aposentos, Evelyne permaneceu ali, contemplando a paisagem gélida além da janela. A neve caía em padrões delicados e implacáveis, cobrindo o reino de branco, inclusive as rochas irregulares e os fossos congelados. A beleza também era c***l — um lembrete de que até mesmo as coisas mais puras podiam enganar os incautos.
Ela avistou uma sombra familiar perto da porta. Um guarda, com olhos atentos como os de um falcão, observando cada movimento, cada deslize que quebrasse o protocolo. Era sutil, protetor, quase invisível. Mas Evelyne percebeu. Ela sabia, mesmo na ausência da Rainha, que a segurança a envolvia como fios invisíveis — mais um lembrete de que não tinha verdadeira liberdade.
Seus dedos pressionaram o vidro frio da janela, traçando o contorno das muralhas do castelo que a mantinham cativa. Ela desejava calor, o conforto do fogo e risadas silenciosas, mas o frio persistia, penetrando-lhe até os ossos.
E, no entanto, sob o frio, sob a fúria e o desespero, uma pequena chama de desafio se acendeu. Ela não se deixaria esmagar completamente. Ainda não. Não enquanto pudesse sentir o pulsar do próprio coração sob o peso do dever.
Evelyne apertou o manto contra o corpo, afastando-se da janela, seu reflexo fantasmagórico contra a neve e o céu. Os planos da Rainha eram claros. O caminho que se estendia à sua frente não era o que ela havia escolhido. Mas a chama em seu peito não se extinguiria tão facilmente. Mesmo no frio, nos vastos salões de Velaris, ela lutaria por uma vida construída por ela mesma.