O Retorno do Príncipe

1375 Words
O ar gélido do inverno mordia as bochechas de Evelyne enquanto ela espreitava pela janela da torre mais alta, os olhos fixos no horizonte distante. A neve cobria os campos nos arredores de Velaris, e o sol — pálido e frio — cintilava na imensidão branca. Ela passara a manhã vagando pelos corredores, inquieta e apreensiva, os sussurros dos criados do dia anterior ainda ecoando em sua mente. A doença do pai, as palavras sussurradas sobre sua fragilidade e o peso dos avisos da mãe haviam deixado um nó em seu peito que ela não conseguia desatar. Então, através da distância coberta de neve, um lampejo de movimento chamou sua atenção. A princípio, pensou ser um truque da luz do sol nos campos congelados, mas o galope dos cavalos logo acelerou seu pulso. Uma pequena nuvem de poeira e neve seguia um grupo de cavaleiros enquanto se aproximavam dos portões do castelo. Uma figura liderava, alta e imponente mesmo sobre seu corcel, sua capa escura esvoaçando ao vento. Seu coração deu um salto – Rhysand. O príncipe herdeiro, seu irmão, seu protetor, e ainda assim de alguma forma distante e inacessível em sua ausência, estava retornando do acampamento militar. Evelyne prendeu a respiração. Não o via há meses, desde as últimas cartas que chegavam esporadicamente, repletas de histórias de exercícios, segredos e pequenas vitórias sobre a dura disciplina do acampamento. Rhysand, que sempre lhe parecera uma figura imponente nas histórias do castelo, surgia agora como um homem, endurecido pelo treinamento, pela batalha e pela responsabilidade. E atrás dele cavalgavam dois homens que ela não conhecia — ou pelo menos, não intimamente. O primeiro, mais próximo do irmão, ostentava a confiança de quem estava acostumado a comandar, mas havia ternura em seu rosto, um humor sutil no brilho dos olhos. Este devia ser Sir Cassian, ela percebeu, o amigo de infância que ouvira o irmão mencionar de passagem. Criado no castelo pela "bondade" de uma criada, ele estivera ao lado de Rhysand durante a infância e o treinamento, conquistando seu lugar como um cavaleiro respeitado. Havia lealdade em sua postura, o tipo de lealdade que demonstrava longos anos de provações e batalhas compartilhadas. O segundo homem era diferente. Cavalgava ligeiramente à frente, a capa escura bem fechada contra o vento, o rosto sombreado pela aba do capuz. Evelyne não conseguia vê-lo claramente, mas havia uma intensidade silenciosa em sua postura, uma vigilância que a deixava nervosa. Ele se portava como se pertencesse às sombras, invisível, mas sempre observando. Ela sentiu um desconforto inexplicável quando seus olhares se encontraram por um breve instante. Havia algo em seus olhos escuros que a fez estremecer. Os portões de Velaris se abriram com um rangido, e os cavaleiros se aproximaram do pátio, seus cavalos batendo os cascos e bufando. Servos e guardas correram para seus postos, os rostos corados pelo frio, as vozes se elevando em uma mistura de alívio e excitação. Rhysand desmontou suavemente, sua capa caindo para trás, revelando os ombros largos e a figura esguia de um homem em seu auge. Ele se movia com facilidade, atraindo olhares mesmo na agitação do castelo. Evelyne afastou-se da janela, com o coração acelerado enquanto o observava caminhar em direção à fortaleza. Queria gritar, correr até ele, mas algo a paralisava – parte admiração, parte medo, parte saudade que ela não compreendia totalmente. Foi Sir Cassian quem chegou primeiro aos degraus, curvando-se profundamente diante dos guardas e assistentes reunidos, antes de se aproximar para ajudar Rhysand com sua capa. A visão da camaradagem natural entre eles, o modo como Rhysand relaxava ligeiramente na presença de Cassian, comoveu Evelyne profundamente. Ela podia ver o laço formado em anos de dificuldades compartilhadas; a confiança forjada na disciplina e no perigo. E então seu olhar voltou-se para o homem nas sombras – Azriel, como ela descobriria mais tarde. Ele havia desmontado silenciosamente, os olhos percorrendo o pátio, observando tudo e todos. Quando seu olhar encontrou o dela novamente, Evelyne sentiu uma estranha mistura de irritação e curiosidade. Ele nunca havia lhe dirigido a palavra, nunca o havia notado de fato, mas havia um peso naquele olhar silencioso que a incomodava. Quando o príncipe se aproximou dos degraus da torre principal, a mãe de Evelyne apareceu na porta, majestosa e serena apesar do frio e do vento. Os olhos da rainha suavizaram-se por um breve instante ao encontrarem os de Rhysand, embora o lampejo de preocupação tenha retornado rapidamente. Evelyne, de seu ponto de vista privilegiado, podia ver o delicado equilíbrio entre amor e dever no olhar da mãe – um reflexo de seu próprio conflito interno. Rhysand ergueu a cabeça, examinando o pátio, e então seus olhos a avistaram na torre. Por um instante, ele hesitou, e um pequeno sorriso fugaz surgiu em seus lábios. O coração de Evelyne disparou. Ela se perguntou se ele a havia notado, ou se era o vento e a neve pregando peças em sua mente. A cerimônia de chegada foi breve e formal, com reverências, mesuras e murmúrios de aprovação dos nobres presentes. Rhysand cumprimentou os guardas com uma mistura de charme e autoridade, rindo levemente de uma piada de Sir Cassian, que revirou os olhos, divertido. Atrás deles, o forasteiro – Azriel – permanecia distante, silencioso, mas sua presença era inconfundível, uma sombra à margem da celebração. Evelyne sentiu uma pontada de ciúme e ressentimento. Quem era aquele homem, invadindo silenciosamente seu campo de visão, exigindo atenção sem dizer uma palavra? Ela não confiava nele, e ainda assim não conseguia desviar o olhar. Ela engoliu em seco. "Você acha que ele vai –" “Não”, disse Rhysand, interrompendo-a bruscamente. Depois, em tom mais suave, acrescentou: “Não sei. Mas a corte já está cercando-o como lobos. Se ele vacilar, eles se despedaçarão pela coroa antes que a pira se apague”. Evelyne estremeceu. O fogo crepitava, mas não oferecia calor. "Um dia você será rei". Ele esboçou um sorriso vazio. "Um dia. Mas ainda não. E eu preferiria enfrentar outro exército do que o conselho de nossa mãe." Os lábios de Evelyne se contraíram: "Você ainda tem medo dela". "Já lutei contra homens com o dobro do meu tamanho", disse Rhysand, arqueando uma sobrancelha. "Mas a nossa mãe? Ela conseguia derrubar um general com um único olhar." Pela primeira vez em meses, Evelyne riu – um som calmo e genuíno que dissipou uma sensação de aperto no peito. Eles entraram num ritmo mais leve, trocando histórias sob a luz dourada. Ela lhe contou sobre os banquetes de inverno, as lições intermináveis, a etiqueta sufocante que preenchia seus dias. Ele lhe contou sobre as passagens do norte, a neve que nunca parava de cair, os soldados que o seguiram mesmo quando a esperança havia congelado. “Você fala como se adorasse isso”, disse ela, franzindo a testa. Ele deu de ombros. "Eu amava o que significava servir, proteger o que é nosso." A expressão de Evelyn tornou-se distante. "E o que é nosso, Rhysand? As muralhas de pedra de neve? O trono? Ou as pessoas que morrem de fome debaixo delas?" Ele a encarou com firmeza, como se tivesse ouvido algo inesperado. "Você também ficou mais corajosa." "Não tive muito mais o que fazer", murmurou ela. Depois disso, ficaram sentados em silêncio. A neve lá fora começara a cair novamente – flocos macios e constantes, batendo contra o vidro. Evelyne parou e caminhou até a janela. "Você já teve vontade de deixar tudo para trás? Simplesmente... ir embora?" A voz de Rhysand era calma. "Todos os dias. Mas os nossos desejos não importam, não é? Não quando eles usam coroas." Ela se virou para ele, com o coração apertado pela verdade. "Não", disse ela suavemente. "Não quando eles usam coroas". A expressão de Rhysand suavizou-se. "Não deixe que o tribunal apague essa sua chama, Evie. É uma das poucas coisas boas que ainda restam neste lugar." O apelido quase a desestabilizou. Ela engoliu em seco, esboçando um sorriso. "Você sempre diz coisas assim quando está prestes a ir embora de novo." “Desta vez não”, prometeu ele, pousando brevemente a mão na bochecha dela. “Ainda não”. E, pela primeira vez em muito tempo, Evelyne acreditou nele
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