A sala de estudos era ampla e arejada, com grandes janelas que se abriam para o jardim branco da mansão. A luz da tarde, dourada e suave, iluminava as estantes repletas de livros, e mapas adornavam as paredes.
O toque frio do couro da poltrona em suas costas era um lembrete constante daquela noite. Encarando o seu reflexo pela janela, Luena não via nenhum padrão estranho em seus olhos. A íris cinzenta emoldurada por longos cílios negros parecia normal.
— O Olho da Lua n***a… Um nome clichê para algo tão complexo — murmurou Luena, apoiando o queixo sobre a palma da mão e desviando sua atenção para os livros espalhados sobre a mesa, assim como os artigos abertos no celular e tablet — Todas as informações que reuni na minha terceira vida estão aqui. Isso significa que criei uma linha do tempo alternativa ao retornar para minha terceira vida e seguir um caminho diferente?
Que descoberta fascinante e aterrorizante!! Ainda estava arrepiada só de encarar os livros velhos que havia comprado às escondidas. Foi uma aventura que se atreveu a viver somente na terceira vida, quando estava desesperada por informações sobre a sua habilidade.
Pensava que tudo se reiniciaria quando iniciasse sua quarta vida, mas estava enganada. O problema era discernir se era bom ou r**m.
— Não voltei para os meus quatorze anos, como da primeira vez. Nem para os meus dezoito anos, como da segunda vez. — rabiscou uma nota no seu celular, reunindo todas as informações que podia pensar. Mas no fim, tudo apontava para um único resultado — Faltam poucos dias para o nosso reencontro, Solardus.
Luena bloqueou a tela do celular e o jogou para o lado num baque s***o e pegou o tablet. Ali, no bloco de notas, anotava lembranças de todas as vidas anteriores: desde o desespero de seu primeiro despertar até a última vez que caiu nos braços de Noir Solardus. Só em ler aquele nome fazia seu coração acelerar de forma tola.
Luena deslizou o dedo pela tela, minimizando o aplicativo. Abrindo o navegador, ela buscou pelas fofocas atuais. Ainda que fosse a sua tentativa de evitar sentir algo com o nome dele, no fim ela ainda buscava por seus rastros. O seu dedo parou no título chamativo de um site de fofocas. Sem pensar duas vezes ela clicou no link, a página a redirecionou pra a notícia. Fechando cada aba que continha anúncios irritantes, Luena finalmente pode ler o que queria.
“Qual o paradeiro do Príncipe Príncipe?
Podemos todos fingir que estamos felizes com a vinda de estrangeiros para o nosso amado Império de Islerus, mas verdade seja dita, o que realmente nos interessa são os dois príncipes que disputam pelo trono. Muitas mulheres solteiras estão ansiosas para participar dos eventos, a fim de garantir que nossos queridinhos coroados não sejam fisgados por estrangeiras.
(…)
Mas, afinal de contas, será que poderemos, enfim, ver o nosso Primeiro Príncipe? Faz meses que ele está fora de alcance, e o departamento de relações públicas do palácio imperial tem mantido suas bocas fechadas feito túmulos sobre o seu paradeiro. Parece que teremos de esperar até o baile para vê-lo em um belo terno, e torcer para que dessa vez ninguém desmaie quando vir seu charmoso sorriso.”
— Charmoso sorriso? — Luena bufou, franzindo a testa — Por acaso pensam que ele é algum tipo de príncipe encantado de um conto de fadas?
Sorriso perigoso, isso sim. Cada curva daquele rosto, cada palavra dita em tom rouco, era sedução disfarçada de ameaça. E, ainda assim, só de lembrar dele, seu coração se agitava.
O alarme do celular tocou a lembrando que em breve a sua tutoria começaria. Rapidamente Luena levantou-se e reuniu os livros antigos, zagueando através das prateleiras da biblioteca até chegar na parte mais afastada. Ali ela guardou os livros, se certificando que seus títulos permanecessem escondidos entre tantos outros.
— Fiquei sabendo que o Imperador está pressionando a Sua Graça para anunciar o seu herdeiro.
A voz repentina, vinda do corredor, alarmou Luena, que permaneceu imóvel escutando as criadas conversarem. O som de seus passos apressados ecoavam pelo corredor.
— Mas a Sua Graça só tem a senhorita como filha de sangue… e ele sempre a ignorou. Não seria melhor se apenas casassem a senhorita com alguém? O Barão Florian parece gostar dela.
— Quem aceitaria uma bastarda? Além disso, o Imperador só está sendo arrogante em pedir que Sua Graça se case e tenha um filho legítimo? Só porque ele trouxe o jovem mestre Khalid para cá, não significa que ele foi adotado oficialmente, certo?
— Isso explica o m*l humor de Sua Graça ultimamente…
Cruzando os braços, Luena ouvia a conversa silenciosamente sem ser notada.
O seu pai estava irritado? E pressionado pelo Imperador? Não faz muito sentido, já que Khalid realmente estava representando os Arbane em eventos sociais. Um gosto amargo surgiu em sua boca ao se dar conta de que seu nome sequer fora cogitado como possível herdeira da família.
Voltando para o seu lugar, Luena sentiu o toque frio do piso sob os seus pés descalços, a fazendo se sentir ainda mais isolada. Até que finalmente encontrasse o caminho que levaria à felicidade que tanto almejava, precisaria conviver com aquele sentimento tão agonizante.
Não era irônico pensar que a único mão estendida para si, vinha com outras intenções por trás? Ah… o doce sabor da inveja.
A porta rangeu, e o tutor, um homem de expressão severa e cabelos alinhados, entrou na sala. Suas roupas formais mostravam o alto status nobre, e carregava consigo uma pilha de livros. Seus olhos, frios e avaliadores, pousaram em Luena com desdém.
— Boa tarde, jovem senhorita — cumprimentou ele com ironia — Vejo que está se dedicando aos seus estudos.
Luena deixou o tablet sobre a mesa e suspirou. Erguendo os olhos para o seu tutor, ela tentou parecer inofensiva.
— E você quase chegou atrasado, professor.
Um sorriso gratificante surgiu no rosto do homem. Ecloir Florian era um dos vassalos de Khait Arbane, sua família sempre fora leal aos Arbane. A sua inteligência era admirável, sendo uma pessoa constante nas reuniões do Grão-duque. Desde que seu pai permitiu que Luena iniciasse os seus estudos, ele ficou responsável por ensiná-la.
Ecloir deu uma olhada para o tablet e a matéria que Luena lia, não reconhecendo como um dos seus materiais de estudo.
— Vejo que ainda está se distraindo com essas frivolidades. Não deveria estar se preparando para assumir os seus negócios na próxima semana? Afinal, uma Arbane deve manter as aparências, mesmo que seu sangue seja impuro.
As suas sobrancelhas franziram, sentindo a chama da raiva se alimentando no seu interior. Todos esperavam pelo seu fracasso. E ela sempre odiou aquilo, apesar de ser uma covarde que nunca teve coragem de confrontá-los.
— Posso ter sangue impuro, mas continuo sendo uma Arbane. O reflexo de minha vitória será também o reflexo da sua eficiência como tutor.
Ecloir abriu um meio sorriso.
— Me perdoe, senhorita. Devo admitir que sua tentativa de ser útil para o Grão-ducado é adorável. Sugiro que revise os seus estudos com mais afinco — retrucou Ecloir, ao se aproximar da mesa — E tente não ser incompetente.
Ecloir pegou um dos seus livros e começou sua aula. Luena respondeu já sabendo todo o conteúdo.
A tolice dele era tão vergonhosa, que Luena teve que se segurar para não rebatê-lo. Tinha outra coisa mais importante para se preocupar.
Espiando o tablet, ela inclinou a cabeça levemente. Aquele cara sumiu do olhar público, mas ela sabia muito bem onde ele seria visto novamente. Se Ecloir soubesse, provavelmente não perderia tempo a zombando enquanto ensina sobre a antiga história dos Arbane.
Ainda que ela tivesse respondido com perfeição, Ecloir examinou seus resumos e anotações com um olhar reprovador.
— Mesmo que tenha se formado na melhor escola e na melhor universidade, seus erros são vergonhosos — repreendeu ao jogar o livro de volta na mesa — Parece que você não herdou nenhuma inteligência de Sua Graça. Já falei para Sua Graça que uma pessoa sem talento algum deve servir apenas como esposa.
Luena cerrou os dedos por baixo da mesa. Era nítido o que ele queria. Ecloir era alguns anos mais velho que ela, e fez de tudo para ser o seu único tutor, mesmo durante o ensino médio. Um homem rígido com seus castigos quando Luena não mostrasse sinal de melhora em seus estudos. E sempre sugerindo que ela focasse em ser uma boa esposa.
Como se quisesse desposá-la.
— Considerando a forma como meu professor aponta a minha incompetência, receio não ser boa nem mesmo como esposa.
— Entenda, jovem senhorita, o seu destino é servir sua família, já que você não herdou absolutamente nada de bom daquela mulher suja. Desde que você saiba qual a importância dos Arbane, e continue sendo essa submissa jovem, acredito que Sua Graça a olhará com bons olhos.
A forma como ele falava e olhava com malícia fazia Luena sentir-se enojada. Ele brincava com a sua esperança, afinal todos sabiam o quão sedenta ela era pelo afeto de seu pai. No entanto, as memórias de suas vidas passadas substituiu qualquer esperança por temor.
O seu pai… sempre se lembrava de suas costas, nunca olhando para trás, para onde ela estava.
— O que Sua Graça precisa agora é de um genro que seja capaz de fortalecer ainda mais a sua posição política. O Imperador deseja o poder dos Arbane, deseja nossas terras, nossa influência, nossas riquezas. Não seria estranho dizer que ele já deve ter enviado alguma carta para Sua Graça, falando sobre um possível casamento entre você e um dos príncipes.
Um arrepio passou pela espinha de Luena. A sensação de um par de braços fortes em volta de sua cintura a apertando contra um forte e sólido peitoral. A respiração quente de Noir contra a sua orelha e a voz rouca dele sussurrando em seu ouvido…
Ela já experimentou tudo aquilo no jogo de sedução daquele maldito.
Respirando fundo, Luena finge não ser afetada pela provocação de Ecloir.
— Me tornar esposa de um dos príncipes seria motivo de chacota. Não tenho o que é necessário para tal.
— É bom que não se iluda, essa posição está aquém de você. Bastardos não serão aceitos no Palácio Imperial. Além disso, é tolice do Imperador em pensar que um casamento político é o suficiente para abalar a confiança do Grão-duque.
As palavras de Ecloir não a atingiram. Luena sabia muito bem que seria fácil cair nos braços daqueles dois príncipes. Principalmente por ambos serem ambiciosos e desejarem o poder que ela tinha. Não apenas era a única filha do Grão-duque, mas também por ter o Olho da Lua n***a. Ser uma filha ilegítima era apenas uma pimenta na relação.
— Jovem senhorita — ela ouviu chamar, e virou-se para encarar o segurança parado na porta. Seus olhos, frios e impenetráveis, a encaravam com desconfiança — O Grão-duque a chama.
Guarda-costas nitidamente não tinha nenhum respeito por ela. A expressão tediosa era completamente contrária ao título que ela tinha. Luena bateu a ponta dos dedos no livro e virou a cabeça.
— Estou indo.