Enquanto caminhava, sentia o peso dos olhares sobre si, as vozes murmurando e espalhando os espinhos acerca do seu sangue bastardo. Ainda assim, ela manteve-se composta, caminhando de queixo erguido e expressão vazia.
O guarda a encarou por cima do ombro quando se aproximaram das enormes portas do escritório do Grão-duque. Ele deu algumas batidas e um som abafado ordenou a sua entrada. O rangido das portas deram as boas vindas para Luena, que enxergou a sombriedade daquela mesa de reuniões repleta de vassalos do Grão-duque.
— Trouxe a jovem senhorita como ordenou — disse o guarda, frio e formal.
Depois de semanas após o seu retorno, era a primeira vez que Luena revia seu pai. Podia sentir o peso de sua atenção a julgando silenciosamente. Por um momento o seu coração bateu forte em seu peito, mas ela friamente ignorou.
Dando um passo à frente, ela respirou fundo e curvou-se respeitosamente.
— Me chamou?
O silêncio que se seguiu foi mais cortante do que qualquer palavra. O homem, de aparência jovem, encarava-a com uma frieza que calcinou a alma da jovem. Seus olhos azulados, antes tão familiares, agora eram duas pedras de gelo, impenetráveis e cruéis.
— Sente-se, está na hora da reunião.
Finalmente ela ergueu a cabeça. Cada vassalo a encarava com nítido desprezo, principalmente quando Luena passou em frente a uma enorme pintura de uma bela mulher de cabelos castanhos claros e olhos doces.
Tudo bem, já estava acostumada.
O som do seu sapato findou quando ela sentou-se na cadeira encostada na janela. Não lhe era permitido que se unisse à mesa, mas por causa do seu sangue ela era obrigada a participar da reunião.
Somente quando Luena se acomodou no canto isolado, que Khait Arbane deu permissão para que os vassalos falassem. Ele folheava alguns documentos com uma expressão tediosa.
— Meu Senhor, ao que tudo indica o Imperador chamou pelos ministros e políticos para participarem da alta temporada na capital. Dizem os rumores que trata-se do casamento dos príncipes.
— O Segundo Príncipe deve se casar com uma noiva do leste — acrescentou outro, sombrio — Eles já o apoiam como herdeiro do trono. A pressão sobre nós será inevitável, ainda mais com o Duque Ivorak mirando diretamente em vossa posição.
— Ivorak, sempre ele. Aposto que usará a própria filha como moeda. A fama dela como jornalista já o elevou o suficiente para se vender como aliado perfeito.
Luena assistia a reunião apenas observando a reação de seu pai. Aquele homem, que parecia ter a idade dela, com uma beleza etérea, mas uma frieza digna de um inverno extremo, não reagia a nada. Não parecia estar incomodado com a notícia.
Mas quando se tratava de Khait Arbane, tudo era um mistério.
— Além disso — arriscou um vassalo — o Segundo Príncipe deseja participar das patrulhas do sul. Fiscalizar as fronteiras sempre foi função dos Arbane. Agora, com ele presente, é como se estivéssemos sob suspeita direta da família imperial.
— E quanto ao Primeiro Príncipe… — hesitou outro, a voz mais baixa — dizem que está escondido, fugindo da mídia. O Imperador teria explodido de fúria ao ouvir sobre seu envolvimento com o crime organizado.
A mera menção do Primeiro Príncipe fez Luena erguer os olhos para o homem de meia-idade que fazia o relatório. Provavelmente ele já tinha chegado no Sul sem que ninguém soubesse. Um sorriso disfarçado despontou dos seus lábios, olhando brevemente sobre o ombro, janela a fora.
— Que interessante — murmurou Khait, finalmente, encarando os relatórios com nítido tédio — Sinto que eu deveria atender tamanha expectativa.
— O que… quer dizer, mestre?
— Um jovem tão t**o como o Segundo Príncipe está ansioso para se exibir. Por acaso quer aproveitar a ausência do Primeiro Príncipe, e garantir a coroa?
A pontuação óbvia deixou todos os vassalos em silêncio.
— Quer dizer então, que não seria r**m mostrar a realidade ao filho do Imperador, certo? — questionou um vassalo, com hesitação.
Os olhares recaíram sobre Khait, que continuava a ler o documento com tédio.
— Um presente muito óbvio. Isso deve colocar aquele soberbo em seu devido lugar.
Era como uma ordem. Os vassalos estavam em sintonia com o seu senhor. Luena assistiu eles organizarem o próximo ataque, imaginando que mais uma vez a sua família seria colocada como inimiga do Império.
Islerus era o último império da modernidade, sustentado não apenas pelo Imperador, mas pelas facções que lhe garantiam poder. Os Arbane, senhores do Sul, eram os mais poderosos entre eles — justamente por governarem uma terra selvagem e indomável.
Havia desconfiança entre Khait e o Imperador. Um dia aliados, agora inimigos velados. Talvez o Imperador temesse que o Sul se tornasse independente. Se fosse assim, a frieza de seu pai tinha um motivo calculado. E Luena sabia que precisaria investigar.
— O jovem mestre Khalid deve estar aguardando por suas ordens, ele foi avisado sobre os movimentos do Segundo Príncipe. O que devemos fazer, meu senhor?
Apoiando o queixo sobre a mão em uma pose preguiçosa, Khait deixou os papéis sobre a mesa, e ergueu os olhos claros para os demais vassalos.
— Avise-o para que receba o príncipe bem antes do início da temporada. Isso deve bastar para aquele garoto.
Luena mordeu a parte interna da boca para não rir. Era típico dele.
O inverno castigava o sul, e as fronteiras eram ainda mais cruéis. Para um príncipe sem preparo, bastaria um deslize para que o terreno o esmagasse. O Grão-duque não mostrava misericórdia nem mesmo diante do filho do Imperador.
— Khalid deve concluir a missão no primeiro forte e reforçar a segurança. Eu mesmo farei uma inspeção. É provável que o Imperador envie espiões, e quero estar preparado.
— Entendido, senhor. Faremos os preparativos. No entanto… o que a jovem senhorita Luena deve fazer enquanto isso?
— Esqueçam a garota, e se concentrem em preparar o pessoal para essa subjugação.
Como esperado, seu pai sequer olhou em sua direção. Luena apertou os dedos em sua calça e controlou suas emoções. Estava sendo colocada na posição de inútil.
Longe dali, na copa de uma árvore centenária que se debruçava sobre a estrada poeirenta, o príncipe observava a Mansão Arbane com um par de binóculos. A brisa do entardecer agitava seus cabelos brancos, enquanto os olhos de fogo perscrutavam cada detalhe da imponente construção, como se estivesse gravando cada pedra em sua memória.
Equilibrando-se com a graça de um felino sobre o galho da árvore, o rosto de Noir refletia sua ansiedade em cumprir com seu objetivo o quanto antes. Havia alvo selvagem e intenso em seu olhar, uma promessa de que ele não hesitaria em usar todos os meios necessários para alcançar seus fins.
Ele virou o binóculos para a janela, onde via uma jovem de cabelos pretos de costas para si. Por um breve momento ela olhou para trás, bem na sua direção, como se tivesse percebido a sua presença. Inconscientemente o príncipe baixou o binóculos e franziu a testa.
— O que temos aqui… ack!
A voz fantasmagórica ressurgiu em sua mente, o assombrando com pontadas latejantes em sua cabeça: devore-a! Respirando fundo, o príncipe apoiou-se no tronco da árvore, voltando a erguer os olhos trêmulos para a distante janela, mas sem conseguir ver absolutamente nada.
— Senhor, confirmei que nosso espião foi pego pelos seguranças. Parece estar sendo mantido no subterrâneo.
A voz repentina de Forak fez Noir voltar à realidade. Puxando o binóculos, o príncipe voltou a vasculhar a área no térreo da mansão.
— E quanto aos bandidos que encontramos no caminho?
— Seus rastros levam para o noroeste, mas não parecem ter deixado a região. Devo rastreá-los?
Batendo o indicador sobre o binóculos, Noir suspirou frustrado por não encontrar nenhuma brecha para a prisão subterrânea. Sentando-se no galho da árvore, ele apoiou o braço sobre o joelho e ponderou.
— Peça que a equipe delta siga-os e relate seus movimentos. Mas que evitem contato. Devemos apenas observar por enquanto.
O auxiliar torceu os lábios e então também escalou a árvore, ficando no outro galho. Forak observou a imensa mansão ao longe, o seu vasto jardim e toda a riqueza que somente pertenceria ao único Grão-duque do Império.
— Acha que eles vão tentar invadir a mansão? Me parece uma ideia bem i****a…
— Se foi alguém do lado do meu querido irmão que teve essa ideia, então devem ter planejado alguma coisa para evitar o Grão-duque — Noir refletiu, tentando sufocar a voz em sua cabeça que já começava a lhe irritar.
— Todos sabem que ninguém consegue derrotar Khait Arbane, então lutar diretamente com ele é suicí— você está bem?
Forak olhou preocupado para o seu mestre, percebendo uma fina camada de suor em sua testa. Noir soltou um rosnado baixo e apenas assentiu, voltando a observar a mansão com o binóculos.
— Reúna o pessoal esta noite, quero estar preparado para qualquer improviso.
— Senhor, é meio difícil se preparar para algo a qual não sabemos o que é…
Abrindo um sorriso malicioso, Noir virou a cabeça para o seu auxiliar. O brilho intenso em seus olhos refletiam sua sede em se envolver em problemas com o Grão-duque, ou de querer aprofundar a raiva de sua madrasta. Problemas eram sempre sua fonte de diversão, e isso faria Forak trabalhar em dobro. Talvez esse seja o motivo por trás dos arrepios quando se deparava com o olhar de Noir.
— Faremos o que sabemos de melhor: esperar pelo pior momento para aparecermos.