Capítulo 04

1586 Words
Enquanto caminhava, sentia o peso dos olhares sobre si, as vozes murmurando e espalhando os espinhos acerca do seu sangue bastardo. Ainda assim, ela manteve-se composta, caminhando de queixo erguido e expressão vazia. O guarda a encarou por cima do ombro quando se aproximaram das enormes portas do escritório do Grão-duque. Ele deu algumas batidas e um som abafado ordenou a sua entrada. O rangido das portas deram as boas vindas para Luena, que enxergou a sombriedade daquela mesa de reuniões repleta de vassalos do Grão-duque. — Trouxe a jovem senhorita como ordenou — disse o guarda, frio e formal. Depois de semanas após o seu retorno, era a primeira vez que Luena revia seu pai. Podia sentir o peso de sua atenção a julgando silenciosamente. Por um momento o seu coração bateu forte em seu peito, mas ela friamente ignorou. Dando um passo à frente, ela respirou fundo e curvou-se respeitosamente. — Me chamou? O silêncio que se seguiu foi mais cortante do que qualquer palavra. O homem, de aparência jovem, encarava-a com uma frieza que calcinou a alma da jovem. Seus olhos azulados, antes tão familiares, agora eram duas pedras de gelo, impenetráveis e cruéis. — Sente-se, está na hora da reunião. Finalmente ela ergueu a cabeça. Cada vassalo a encarava com nítido desprezo, principalmente quando Luena passou em frente a uma enorme pintura de uma bela mulher de cabelos castanhos claros e olhos doces. Tudo bem, já estava acostumada. O som do seu sapato findou quando ela sentou-se na cadeira encostada na janela. Não lhe era permitido que se unisse à mesa, mas por causa do seu sangue ela era obrigada a participar da reunião. Somente quando Luena se acomodou no canto isolado, que Khait Arbane deu permissão para que os vassalos falassem. Ele folheava alguns documentos com uma expressão tediosa. — Meu Senhor, ao que tudo indica o Imperador chamou pelos ministros e políticos para participarem da alta temporada na capital. Dizem os rumores que trata-se do casamento dos príncipes. — O Segundo Príncipe deve se casar com uma noiva do leste — acrescentou outro, sombrio — Eles já o apoiam como herdeiro do trono. A pressão sobre nós será inevitável, ainda mais com o Duque Ivorak mirando diretamente em vossa posição. — Ivorak, sempre ele. Aposto que usará a própria filha como moeda. A fama dela como jornalista já o elevou o suficiente para se vender como aliado perfeito. Luena assistia a reunião apenas observando a reação de seu pai. Aquele homem, que parecia ter a idade dela, com uma beleza etérea, mas uma frieza digna de um inverno extremo, não reagia a nada. Não parecia estar incomodado com a notícia. Mas quando se tratava de Khait Arbane, tudo era um mistério. — Além disso — arriscou um vassalo — o Segundo Príncipe deseja participar das patrulhas do sul. Fiscalizar as fronteiras sempre foi função dos Arbane. Agora, com ele presente, é como se estivéssemos sob suspeita direta da família imperial. — E quanto ao Primeiro Príncipe… — hesitou outro, a voz mais baixa — dizem que está escondido, fugindo da mídia. O Imperador teria explodido de fúria ao ouvir sobre seu envolvimento com o crime organizado. A mera menção do Primeiro Príncipe fez Luena erguer os olhos para o homem de meia-idade que fazia o relatório. Provavelmente ele já tinha chegado no Sul sem que ninguém soubesse. Um sorriso disfarçado despontou dos seus lábios, olhando brevemente sobre o ombro, janela a fora. — Que interessante — murmurou Khait, finalmente, encarando os relatórios com nítido tédio — Sinto que eu deveria atender tamanha expectativa. — O que… quer dizer, mestre? — Um jovem tão t**o como o Segundo Príncipe está ansioso para se exibir. Por acaso quer aproveitar a ausência do Primeiro Príncipe, e garantir a coroa? A pontuação óbvia deixou todos os vassalos em silêncio. — Quer dizer então, que não seria r**m mostrar a realidade ao filho do Imperador, certo? — questionou um vassalo, com hesitação. Os olhares recaíram sobre Khait, que continuava a ler o documento com tédio. — Um presente muito óbvio. Isso deve colocar aquele soberbo em seu devido lugar. Era como uma ordem. Os vassalos estavam em sintonia com o seu senhor. Luena assistiu eles organizarem o próximo ataque, imaginando que mais uma vez a sua família seria colocada como inimiga do Império. Islerus era o último império da modernidade, sustentado não apenas pelo Imperador, mas pelas facções que lhe garantiam poder. Os Arbane, senhores do Sul, eram os mais poderosos entre eles — justamente por governarem uma terra selvagem e indomável. Havia desconfiança entre Khait e o Imperador. Um dia aliados, agora inimigos velados. Talvez o Imperador temesse que o Sul se tornasse independente. Se fosse assim, a frieza de seu pai tinha um motivo calculado. E Luena sabia que precisaria investigar. — O jovem mestre Khalid deve estar aguardando por suas ordens, ele foi avisado sobre os movimentos do Segundo Príncipe. O que devemos fazer, meu senhor? Apoiando o queixo sobre a mão em uma pose preguiçosa, Khait deixou os papéis sobre a mesa, e ergueu os olhos claros para os demais vassalos. — Avise-o para que receba o príncipe bem antes do início da temporada. Isso deve bastar para aquele garoto. Luena mordeu a parte interna da boca para não rir. Era típico dele. O inverno castigava o sul, e as fronteiras eram ainda mais cruéis. Para um príncipe sem preparo, bastaria um deslize para que o terreno o esmagasse. O Grão-duque não mostrava misericórdia nem mesmo diante do filho do Imperador. — Khalid deve concluir a missão no primeiro forte e reforçar a segurança. Eu mesmo farei uma inspeção. É provável que o Imperador envie espiões, e quero estar preparado. — Entendido, senhor. Faremos os preparativos. No entanto… o que a jovem senhorita Luena deve fazer enquanto isso? — Esqueçam a garota, e se concentrem em preparar o pessoal para essa subjugação. Como esperado, seu pai sequer olhou em sua direção. Luena apertou os dedos em sua calça e controlou suas emoções. Estava sendo colocada na posição de inútil. Longe dali, na copa de uma árvore centenária que se debruçava sobre a estrada poeirenta, o príncipe observava a Mansão Arbane com um par de binóculos. A brisa do entardecer agitava seus cabelos brancos, enquanto os olhos de fogo perscrutavam cada detalhe da imponente construção, como se estivesse gravando cada pedra em sua memória. Equilibrando-se com a graça de um felino sobre o galho da árvore, o rosto de Noir refletia sua ansiedade em cumprir com seu objetivo o quanto antes. Havia alvo selvagem e intenso em seu olhar, uma promessa de que ele não hesitaria em usar todos os meios necessários para alcançar seus fins. Ele virou o binóculos para a janela, onde via uma jovem de cabelos pretos de costas para si. Por um breve momento ela olhou para trás, bem na sua direção, como se tivesse percebido a sua presença. Inconscientemente o príncipe baixou o binóculos e franziu a testa. — O que temos aqui… ack! A voz fantasmagórica ressurgiu em sua mente, o assombrando com pontadas latejantes em sua cabeça: devore-a! Respirando fundo, o príncipe apoiou-se no tronco da árvore, voltando a erguer os olhos trêmulos para a distante janela, mas sem conseguir ver absolutamente nada. — Senhor, confirmei que nosso espião foi pego pelos seguranças. Parece estar sendo mantido no subterrâneo. A voz repentina de Forak fez Noir voltar à realidade. Puxando o binóculos, o príncipe voltou a vasculhar a área no térreo da mansão. — E quanto aos bandidos que encontramos no caminho? — Seus rastros levam para o noroeste, mas não parecem ter deixado a região. Devo rastreá-los? Batendo o indicador sobre o binóculos, Noir suspirou frustrado por não encontrar nenhuma brecha para a prisão subterrânea. Sentando-se no galho da árvore, ele apoiou o braço sobre o joelho e ponderou. — Peça que a equipe delta siga-os e relate seus movimentos. Mas que evitem contato. Devemos apenas observar por enquanto. O auxiliar torceu os lábios e então também escalou a árvore, ficando no outro galho. Forak observou a imensa mansão ao longe, o seu vasto jardim e toda a riqueza que somente pertenceria ao único Grão-duque do Império. — Acha que eles vão tentar invadir a mansão? Me parece uma ideia bem i****a… — Se foi alguém do lado do meu querido irmão que teve essa ideia, então devem ter planejado alguma coisa para evitar o Grão-duque — Noir refletiu, tentando sufocar a voz em sua cabeça que já começava a lhe irritar. — Todos sabem que ninguém consegue derrotar Khait Arbane, então lutar diretamente com ele é suicí— você está bem? Forak olhou preocupado para o seu mestre, percebendo uma fina camada de suor em sua testa. Noir soltou um rosnado baixo e apenas assentiu, voltando a observar a mansão com o binóculos. — Reúna o pessoal esta noite, quero estar preparado para qualquer improviso. — Senhor, é meio difícil se preparar para algo a qual não sabemos o que é… Abrindo um sorriso malicioso, Noir virou a cabeça para o seu auxiliar. O brilho intenso em seus olhos refletiam sua sede em se envolver em problemas com o Grão-duque, ou de querer aprofundar a raiva de sua madrasta. Problemas eram sempre sua fonte de diversão, e isso faria Forak trabalhar em dobro. Talvez esse seja o motivo por trás dos arrepios quando se deparava com o olhar de Noir. — Faremos o que sabemos de melhor: esperar pelo pior momento para aparecermos.
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