Capítulo 49
A recuperação foi dolorosa. Ela recebeu alta alguns dias depois. Chegando em casa, tomou banho e foi dormir à base de calmantes. A Lisa tinha ido trabalhar. Antes de dormir, a Kaori ligou o celular; as amigas tinham mandado mensagens. Ela respondeu, contou o que aconteceu, só não falou nada para a Daia, porque ela mesma queria contar ao Rui.
Ele tinha mandado mensagem já no sábado perguntando se ela estava bem. Ela respondeu:
“Oi, tô me recuperando. E você?”
Ele perguntou se podia ligar para ela. Ela respondeu:
— Podemos conversar por mensagem mesmo? Preciso falar com você!!
Ele disse que sim e perguntou o que tinha acontecido. Ela dormiu e não respondeu. No final do dia, acordou com o celular tocando; era o Rui. Ela não atendeu e mandou uma mensagem:
“Oi, eu tava dormindo.”
Ele disse que estava no portão e perguntou se ela estava em casa mesmo. Ela respondeu por áudio, sonolenta:
— Tô sim… se tiver aberto pode entrar. Eu preciso tomar um banho, pode me esperar na sala.
Ele entrou. Ela correu para o banheiro, porque estava com o pijama sujo de sangue; o absorvente tinha vazado e sujado até a cama. Ele ficou na sala, sentado, esperando.
Ela saiu do banheiro já vestida. Ele falou sério, levantando:
— Oi… como você tá?
Ela respondeu parada na frente dele:
— Não precisava ter vindo aqui, eu ia te responder. Tomei calmante pra dormir, meu corpo tá muito r**m. Desculpa.
Ele respondeu meio perdido:
— Tá… você quer que eu volte outra hora? Posso fazer alguma coisa por você?
Ela respondeu indo para o quarto:
— Não, vai ser rápido. Eu só achei que devia te contar porque é o certo, e pessoalmente é melhor.
Ela se aproximou da cama e foi tirar o lençol, falando de costas para ele:
— Faziam algumas semanas que eu não estava bem e naquele dia do chá da Daia, piorei. Eu estava grávida de quatro a cinco semanas, mas era nas trompas, então não tinha o que fazer. É… não tinha como deixar ele lá. Induziram o aborto com medicação, porque eu já estava comprometida e um procedimento cirúrgico já não era mais viável.
Ele ficou quieto, ouvindo com espanto. Se aproximou para ajudar com a cama. Ela disse que não precisava, constrangida. Ele respondeu, enrolando o lençol:
— Fica tranquila. Quando o Be nasceu, eu que cuidei da Lidi. Posso colocar no tanque?
Ela balançou a cabeça que sim. Ele voltou, tomou a frente dela, colocou outro lençol, arrumou a cama, perguntou como ela estava e passou a mão no braço dela.
Ela sentou e falou cabisbaixa, com as mãos na cabeça:
— Não tô bem, mas vou ficar. Só queria te falar isso mesmo, pra evitar qualquer atrito desnecessário com histórias m*l contadas. Era seu, eu só estive com você. E tomei a pílula do dia seguinte como combinamos. O médico explicou que o motivo de tudo pode ter sido isso.
Ele sentou na cadeira do computador, se aproximou e falou chateado que sentia muito por tudo o que ela passou. Perguntou por que ela não contou logo a verdade assim que soube. Ela respondeu:
— Tive medo das coisas ruins que você podia me falar. Você não queria, eu também não. Deve ser castigo, sabe? Pelas coisas que fiz de errado!
Ele a abraçou, disse que não sabia nem o que falar. Estava quase chorando. Ela respondeu quase chorando também:
— Não precisa falar nada, já acabou antes mesmo de acontecer. Eu me sinto tão culpada… não notei o que estava acontecendo no meu corpo, não me cuidei. Eu sou muito burra mesmo. Ultimamente tá tudo dando errado. Isso cansa, eu tô exausta! Preferia ter morrido naquele acidente.
Ele disse que não era culpa dela. Perguntou se podia ajudar de alguma forma, dinheiro, remédios, qualquer coisa. Ela respondeu se afastando, indo deitar, chorando:
— Não, tá tudo certo. Eu vou ficar de repouso essa semana porque tive algumas complicações e depois volto pra casa. Eu tô com muito sono, me desculpa.
Ele segurou a mão dela, olhando as marcas de agulha, e respondeu ainda sentado na cadeira ao lado da cama:
— Não precisa se desculpar por nada. O que você tomou pra dormir? Você tá dormindo desde que horas?
Ela disse que desde antes do almoço. Falou que ele podia ir embora. Ele respondeu enxugando as lágrimas dela:
— Eu vou ficar até sua mãe chegar. Já não te acompanhei no hospital e eu devia estar com você lá pra te apoiar.
Ela ficou quieta, se aconchegou na cama. Quando estava pegando no sono, ele perguntou se ela não ia comer nada. Ela respondeu sonolenta:
— Não quero comer… e você não precisa ficar fazendo isso. A gente nem tava mais conversando mesmo. Eu agradeço sua atenção, mas não precisa ficar.
Ele ficou quieto, não saiu do lugar, não respondeu nada. Ela dormiu, e ele ficou ali por horas, vigiando o sono dela, pensando em tudo, até a Lisa chegar.
Quando a Lisa chegou, entrou sem fazer barulho. Parou na porta do quarto e falou baixinho para ele:
— Oi, tudo bem por aqui?
Ele levantou, saiu do quarto e disse que quis ficar ali até ela chegar. Ela falou:
— Vocês conversaram?
Ele respondeu chateado:
— Sim, ela me contou tudo. Eu não fazia ideia de nada. Fiquei preocupado no sábado, mandei mensagem, liguei… mas ela não me disse nada até hoje.
Começaram a falar da Kaori. A Lisa disse que ela tinha mania de querer resolver tudo sozinha, mesmo que aquilo acabasse com ela. Ele ofereceu ajuda, disse que queria fazer algo por ela. A Lisa respondeu:
— Eu queria poder ajudar, me sinto incapaz tanto quanto você. Ela não se abre comigo, só sabe falar que quer ir embora daqui. Eu já não sei mais o que fazer com ela, Rui.
Ele disse que também não conseguia entendê-la, que tinha medo de se envolver mais, porque ela era imatura e ele não era nada tolerante. A Lisa disse que a Kaori não ia deixar ele se aproximar porque, na cabeça dela, seria por pena, já que tinham terminado, e que a filha era oito ou oitenta.
Ele disse que ia tentar ser amigo, já que ela se abria com ele, e se colocou disponível para ajudar de qualquer forma. O medo de todos era de que ela tentasse se matar de novo.
A Kaori dormia, não ouviu nada. A Lisa acompanhou ele até o portão, agradeceu várias vezes por tudo, e ele se desculpou, lamentou por terem se descuidado e provocado tudo aquilo. A Lisa disse que as coisas não eram fáceis mesmo. Comentou que viu a Kaori feliz como não via há anos enquanto ela estava saindo com ele.
Ele mesmo disse que não eram compatíveis, que, na situação dele, mais experiente, tinha ido longe até demais com ela e que não devia nem ter se envolvido.
A Lisa fez um prato de comida e foi acordar a Kaori para comer. Ela deu algumas garfadas, pouca coisa, e disse que não queria ficar ali. A Lisa respondeu com firmeza:
— Você precisa se cuidar, e eu não vou deixar você ir pra lugar nenhum assim. Eu sou a sua mãe e você vai me respeitar querendo ou não. Seu pai vai vir aqui amanhã pra gente conversar. Seu irmão tá chegando no fim de semana! Você não tá trabalhando com registro, graças a Deus colocamos as contas em ordem. Não tem por que ir embora pra canto nenhum. Falta pouco pra acabar o ano, depois você se decide, pensa com calma no que vai fazer.