Capítulo 57
A Joyce perguntou por que ela estava falando aquilo. Ela disse que era melhor pra evitar brigas. Ela respondeu:
— Sua mãe e seu pai sentem sua falta. Você não pode só evitar todo mundo assim. Há quantos meses você já está longe? E olha como você ficou em voltar, dá pra ver a tristeza em você. Não sei por que você foi, mas não acho que seja a melhor coisa a se fazer.
A Kaori disse que foi embora pra não precisar mais mentir, que estava cansada de tudo e todos. A Joyce disse que todos já tinham esquecido a história dela ter mentido sobre recuperar a memória. Ela perguntou se a Joyce sabia o que tinha acontecido na noite do acidente. A Joyce disse que não todos os detalhes e perguntou se a Kaori queria contar. Ela respondeu:
— Não… não gosto de lembrar disso. Vou deitar, preciso pegar o ônibus bem cedo!
A Joyce abraçou a Kaori, disse que ia levar ela na rodoviária. Ela disse que não precisava, mas a Joyce insistiu. No dia seguinte, o Juliano já acordou pedindo pra Kaori ficar. Ela disse que não podia porque tinha que cuidar da casa, lavar roupa. Eles foram juntos levar ela pegar o ônibus. Ele pagou a passagem, perguntou se ela estava precisando de ajuda e deu duzentos reais. Ela foi embora triste e se sentindo culpada por não ter visto a Lisa. Ela estava com saudades, mas deixou o orgulho tomar conta dos atos dela.
Chegando em casa, ela encontrou a Maria acompanhada com um ficante, a Bibi bebendo cerveja. Ela não gostou, estava de mau humor, foi se trancar no quarto. No dia seguinte, a Kaori discutiu com a Bibi, chamando atenção dela por estar bebendo e fumando. Ela disse que era pouca coisa, que não faria m*l algum. Criticou as boas maneiras da Kaori, dizendo que ela estava pior que mãe.
Tudo piorou quando a Kaori tocou no assunto do dinheiro e das pendências. Isso foi de manhã, ela foi trabalhar chateada. Na hora do almoço, viu que a marmita tinha azedado. Todos os dias ela levava almoço de casa, a Maria que fazia na maior parte das vezes. Como a empresa ficava afastada da cidade, não tinha nem onde comprar comida. Ela jogou fora e foi sentar na parte de fora pra esperar dar a hora.
Ela tinha algumas conhecidas lá, mas ficava sozinha quase sempre, mexendo no celular, ouvindo música nos fones. Tinham poucos homens na empresa, por isso ela se assustou quando um deles foi falar com ela. Ele se aproximou, falou oi. Ela tirou o fone e falou oi. Ele disse que tinha visto ela jogando a comida fora e que acontecia sempre com ele antes dele aprender a cozinhar. Ela respondeu sem graça:
— É… foi culpa do feijão.
Ele ofereceu uma maçã pra ela, disse que sempre levava uma fruta para emergências. Ela respondeu:
— Não precisa, mas muito obrigada, de verdade, valeu.
Ele disse que não ia comer, que ia ficar m*l se ela não aceitasse. Ela sorriu e respondeu:
— Eu não como maçã. Então acho que você pode ficar bem e conviver com isso!
Ele respondeu que ia barganhar uma banana em troca da maçã com os mecânicos. Ela falou constrangida:
— Não precisa… me dá aqui, eu aceito, mas vou comer na hora do café!
Ele colocou a maçã na mão dela e falou que no dia seguinte ia levar laranja. Ela agradeceu, disse que ia se ligar mais com a marmita. Ele saiu andando. Ela nem viu qual era o nome dele. A maçã realmente foi útil, ela ia ficar com fome a tarde toda se não fosse a gentileza do rapaz.
Depois, ela notou que ele pegava o mesmo ônibus que ela. Na verdade, ele estava lá todos os dias, mas ela nunca tinha parado pra reparar. Ela descia antes dele.
Quando chegou em casa, a Maria estava na cozinha já preparando o jantar. A Kaori comentou que ficou sem almoçar. A Maria disse que ia levantar cedo pra fazer comida mais fresca. A Kaori disse que não precisava, que era só não colocar feijão.
Elas começaram a conversar sobre a viagem da Kaori, ela disse que ia ganhar muitas coisas de bebê. Quando a Bibi chegou, a Maria comentou sobre as roupinhas. A Bibi não gostou, disse que não era pra ninguém aparecer lá com nada, porque ela não ia ficar com o bebê. As duas começaram a falar que era pra ela pensar muito bem, porque era uma decisão muito séria. A Bibi respondeu grossa:
— Vocês acham o quê? Que vão ficar o resto da vida me ajudando? Eu tô sozinha nessa, esse b.o. é meu. Agora vocês querem ajudar, mas vai chegar o momento em que vou estar sozinha com uma criança sem pai, sem a menor estrutura pra criar ela. Não vou ficar brigando com vocês por isso, é uma decisão só minha, cabe a mim decidir.
Elas ficaram chateadas, mas pensavam o mesmo: que a Bibi ia mudar de ideia vendo o rostinho do bebê.
Alguns dias depois, a Lisa começou a insistir pra ver a Kaori, queria ir até lá. A Maria convenceu ela a aceitar. Demorou semanas. A Bibi passou o dia todo fora pra não ver a Lisa. Marcaram em um sábado. A Lisa foi sozinha com o carro do Hugo.
Ela chegou de manhã, a Kaori já estava esperando ansiosa. Elas se abraçaram no portão. A Lisa chorou, disse que não entendia por que a Kaori estava fazendo aquilo com ela. Ela respondeu:
— Nem tudo é sobre você, mãe. Eu tô bem aqui, gosto da vida que tenho agora!
A Lisa disse que ela não precisava excluir a família pra recomeçar. A Kaori ignorou, chamou ela pra entrar, mostrou a casa. Elas sentaram na sala. A Lisa abriu a bolsa, pegou o convite, disse que tinha novidades. A Kaori respondeu:
— Não fico nada surpresa. Legal, mãe, parabéns. Onde vai ser?
Ela disse que em um sítio, coisa pequena, só pra família mesmo. A Kaori perguntou se ela tinha certeza e se estava feliz. A Lisa disse que sim, que o Hugo era uma pessoa incrível, que só colocava ela pra cima. A Kaori respondeu:
— Se você tá feliz, tá tudo certo. Você merece tudo isso!
A Lisa respondeu surpresa:
— Por que você tá falando isso?
Ela disse que era verdade. A Lisa respondeu:
— Você não me parece bem há muito tempo. Não mente pra mim, o que tá acontecendo, Kaori? Você nunca foi assim. Depois daquele acidente você ficou tão bem, e agora nem parece a mesma. Eu sinto tanto a sua falta em casa, penso em você todos os dias, filha.
Com os olhos cheios de lágrimas, a Kaori respondeu:
— Mãe, não começa. Por isso eu não queria ninguém aqui. Você não pode ser uma mãe um pouco normal?
Chorando, a Lisa disse que só estava preocupada, sentindo que estava perdendo a filha cada vez mais. A Kaori disse que, se ela não quisesse piorar tudo, era pra parar de questionar a vida e as escolhas dela.
Elas passaram algumas horas juntas, foram passear, ver algumas lojas. A Lisa se surpreendeu com a Kaori recusando o que ela oferecia. Quando perguntou por que ela não queria comprar nada, a Kaori disse que preferia o dinheiro, porque tinham algumas contas atrasadas. A Lisa fez perguntas, mas a Kaori já tinha tudo planejado na ponta da língua. Mentiu sobre a situação da Bibi e da Maria.
A Lisa deu cento e cinquenta reais pra ela, disse que podia ir sacar mais se ela quisesse. A Kaori disse que ia usar cinquenta pra conta e o restante pra ela, mas mentiu, só a conta era duzentos. A Lisa tentou aproveitar o momento delas ao máximo, contou tudo sobre o casamento, disse que queria ela como madrinha. A Kaori recusou na mesma hora, dizendo que não queria assumir uma responsabilidade daquelas, ainda mais sem um par. O Miyuki ia ser o par dela.
A Lisa disse que ele queria muito ir conhecer lá, que a Ivone estava com saudades. A Kaori disse que também estava de todos eles, que logo ia pra lá visitar todo mundo. A Lisa foi embora chorando. Ambas ficaram arrasadas. A Maria tentava entender, aconselhar, sem muito sucesso na maioria das vezes.
O Rui não conversava mais com a Kaori. O Enzo estava namorando e as meninas afastaram ele pelo bem dele mesmo. A filha do Daniel nasceu. Às vezes, a Kaori se pegava curiosa, procurando fotos deles nas redes sociais. Eles estavam juntos e aparentemente bem. Ela só se sentia i****a por ter acreditado nele.
Um dia no trabalho, ela levou um bolo para as colegas e quis oferecer ao rapaz que deu a maçã pra ela. Envergonhada, desistiu. Mas, na hora de ir embora, sentou no fundo, onde ele sempre sentava. Quando ele a viu, sorriu e foi sentar em outro lugar, atrás dela. Ela se levantou no banco mesmo, virou pra trás e falou, dando o pote pra ele:
— Guardei pra você, fica em troca da maçã.
Ele abriu e disse que não ia fingir que não gostava, porque gostava muito. Ela respondeu:
— Pode levar o pote. Se devolver com comida, eu agradeço!
Ela sentou e um amigo dele chegou pra sentar com ele. Quando ela desceu do ônibus, ele gritou da janela:
— Não leva marmita amanhã, vai ser por minha conta!
Ela ficou vermelha de vergonha, deu risada e acenou, dando tchau. Ficou pensando se ele estava falando sério. À noite, perguntou a uma colega o nome dele e adicionou nas redes sociais. Ele aceitou a solicitação. Ela não teve coragem de perguntar nada e fez a marmita como de costume.
De manhã, quando levantou, tinha uma mensagem dele falando que ia levar o pote dela com o almoço. Ela respondeu:
“ok, eu saio 11:30”
No ônibus, tudo foi normal, sentaram longe. Na hora do almoço, ele esperou ela, entregou o pote e disse que, se estivesse r**m, era só ela trocar com ele, que o dele estaria r**m igual, mas o que importava era a intenção. Ela ficou vermelha, disse que não tinha necessidade, agradeceu e foi comer.
Eles nem comeram juntos, ele era um pouco tímido. Ela gostou do tempero, comeu quase tudo. Era arroz, feijão, bife e refogado de abobrinha. Ele mandou uma mensagem perguntando se estava aprovado ou reprovado. Ela respondeu sorrindo:
“Super aprovado, obrigada??”
Na hora de ir embora, ela achou que ele fosse sentar com ela, mas não. Ele sentou no lugar de sempre mesmo. Os dois começaram a se cumprimentar, dizer oi, tchau, sorrir ao se encontrarem dentro da empresa. Ela estava um pouco interessada, mas com preguiça de investir.