"Na alegria e na tristeza"

1091 Words
A nova namorada do meu pai teria um bebê, quer dizer então que, eu serei a irmã mais velha? Não. Tudo menos isso. Parecia que eu estava revivendo tudo. Como quando ele prometia que não ia embora e em questão de segundos fazendo tudo exatamente como prometeu que nunca faria. Como se ele não se importasse comigo nem um pouco.  — Pai, mas vocês nem se casaram ainda... - tentei dizer, como se num passe de mágica, o bebê desaparecesse da barriga dela.  — Eu sei, mas vamos nos casar sem festa mesmo. Por favor, pelo menos finja que está feliz por nós, Amy. —  Pede, meu pai.  — Eh! —  Finjo entusiasmo.  Tyler solta uma risadinha, e pede permissão para sair da mesa, eu saio com ele, indo para o jardim de frente de casa. Tyler sabia o que eu devia estar sentindo.  —  Ei! Você vai superar isso, aposto que vai rir muito quando olhar pra trás e perceber que estava com ciúme de um bebê... — Tyler disse, tentando me alegrar, mas viu que eu continuava cabisbaixa. Isso não podia estar acontecendo comigo!  Ele fecha os olhos, e após abrir ele levanta de leve minha cabeça.  — Não é porque ele vai ter um bebê com outra mulher que ele vai esquecer você — continuou. — Você e sua mãe também. Eu sei que ele sabe o papel que ela teve na vida dele. E você, Amy, é insubstituível.   — Esse é o ponto, Tyler. Meu pai já se casou três vezes — Digo, e repito mais firmemente: — TRÊS! E a minha mãe continua na mesma, ela nem sabe mais o que é seguir em frente. —  Pauso para engolir em seco. —  Eu não julgo o papai, mas a mamãe é tão linda, por que ela simplesmente não continua? — Uma lagrima cai em meu rosto, e Tyler enxuga-a.  — A sua mãe vai encontrar alguém legal, que a ame como ela merece. Te prometo.  —  Amor não existe, Tyler. Veja meus pais, casados há 7 anos, separados há três anos, e nada. —  Retruco.  —  Mas eu amo você. —  Ele diz, e eu sorrio fracamente.  — É diferente. Somos amigos.  — Amy, você precisa parar de atribuir o amor somente aos romances de casais. Amor é quando sua mãe chega em casa e mesmo cansada, assiste um filme com você. Amor é quando uma turma planeja uma festa surpresa para um professor preferido. Amor é o beija-flor que volta todos os dias para a mesma rosa. E amor é o que eu sinto por você. — Enquanto ele dizia isso, segurei novamente o choro. — Se existe amor assim, eu sei que tem de sobra para sua mãe. Você vai ver.  Tyler segura minhas mãos e diz:  —  Deita aqui vai — Mudando de assunto, ele deita minha cabeça em seus ombros, e alisa meus cabelos. —  Eu estou aqui, para o que precisar.  — Eu também amo você, Tyler. Muito. —  Pus a falar.  Depois de segundos de silêncio, ele deu uma risada, o que me fez erguer uma de minhas sobrancelhas.  — Do que está rindo?  —  Eu achei que você fosse desmaiar quando ele disse a palavra "bebê" — Ele riu ainda mais, e eu bati meus ombros nos dele.   Alguns minutos do seu lado e eu já me sentia 10 vezes melhor.  —  Eu também achei.  — Tenho certeza que você vai amar seu irmão ou irmã. Porque é assim que você é. Você ama as pessoas incondicionalmente. É o que mais admiro em você.  Antes que eu pudesse retribuir essas palavras, meu pai aparece sorrindo no jardim, com os braços cruzados e diz, para minha infelicidade:  —  Vejo que conseguiu acalma-la, vamos entrar?  Michelle aparece logo em seguida, coloca os braços em volta do meu pai, o abraçando por trás, e nos lança um sorriso meigo. Aquilo embrulhou meu estômago por algum motivo. O fato dela ser apenas alguns anos mais velha que eu, ajudou.   —  Acho que não — Resolvi dizer. —  Temos aula amanhã, podemos ir para casa agora? —  Perguntei.   —  Que assim seja, então. — Deu os ombros. Parte de mim teve certeza que ele estava aliviado por eu preferir ir embora.  Eu não ligava em faltar aula amanhã, mas não estava nem um pouco afim de dormir na casa deles.  —  O namorado dela é bem legal, não é amor? —  Ouço Michelle sussurrar.  — Eles são só amigos. —  Meu pai responde, talvez com ciúmes da situação, e eu apenas me deito no colo de Tyler, desejando que o tempo corresse mais rápido.    Minutos depois, quando chegamos a minha casa, Tyler disse que gostaria de ficar comigo, e perguntou se tinha algum problema, eu disse que não. Na verdade, era a melhor coisa que ele poderia fazer por mim depois de um dia como este. Ouvi ele ligar para o seu pai, dizer algumas palavras e levar uma bronca. Ele sorriu sem graça.   Poucas vezes vi o Tyler sem graça. Mas de todas as vezes que vi, sempre tinha o pai dele no meio. Eles moravam sozinhos há muito tempo, e um aprendeu a respeitar o limite do outro. Mas as vezes, em alguma frase dita inocentemente ou um gesto m*l pensado, a relação deles fica bem difícil. Eu sei que o Tyler sofre muito por isso.   — Obrigada por segurar essa barra comigo. —  Agradeci, finalmente.  — Tá tudo bem. Amizade na alegria e na tristeza, lembra? — Recordou.  Eu o envolvi com o abraço, e depois entramos em casa.  Quando cheguei, evitei a mamãe por muito tempo. Não queria ser a pessoa que iria lhe dar a notícia sobre o papai e a Michelle, eu sei o quanto isso a abalaria. Mas quando o Tyler já se encontrava dormindo, mamãe entrou no quarto para me dar boa noite, e eu não consegui esconder o meu descontentamento.  — Amy, o que está te incomodando?  — A Michelle está grávida. — Desabafei. Nesse instante, a mamãe ficou pálida, e tenho certeza que sua pressão caiu. Acho que mesmo estando separados há mais de 5 anos, parte dela sempre acreditou que no fim, eles ficariam juntos.  — Mãe?  — Hum? — Ela disse, retornando em si.  — Você tá bem?  — Sim. — Afirmou. — Não se preocupe com isso. Seu pai te ama, vai sempre amar.  A envolvi num abraço, e desejei do fundo do meu coração, que aonde quer que estivesse alguém que merecesse o coração da minha mãe, que aparecesse logo. 
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