Parte 2: Nilo.
— Essa festa tá um saco…
Eu não deveria ter vindo a essa unificação…
Ultimamente ando muito entediado com tudo no geral, meu grupo de amigos na faculdade, por exemplo: parecem que só se importam com imagem e com o que os outros pensam, nem me lembro como comecei a ser amigo deles. As pessoas que fico também, parecem tão desinteressantes, não sinto aquela conexão, afinidade, mas talvez o problema seja eu, pois a última pessoa que senti algo assim foi o Henrique.
E Henrique, por sua vez, sentia uma conexão com outra pessoa…
— Vamo de saideira? — Nando pergunta do meu lado, dando um gole na sua cerveja.
— Beleza, só vou no banheiro e já volto…
Me levanto e vou em direção ao banheiro, j**k me intercepta no caminho.
— Oi, Nilo… — Sua voz afetada me incomoda.
Tudo nela me incomoda.
Seu vestido justo e rosa parece desconfortável, seu cabelo liso e solto está um pouco frizzado, sua maquiagem um pouco borrada, tem um lado do rosto que parece ter mais blush que do outro, tento observar melhor, mas ela logo puxa seu cabelo, tampando a bochecha.
— Fala, j**k.
— Então, me falaram que você ficou com a Marta. — Sua entonação crítica me irrita. — É verdade?
Por que minha vida amorosa interessa tanto às pessoas?
— Sei lá, isso importa?
— Ah, você é “o” Nilo Garcia. — Diz, como se meu nome fosse algo sagrado. — Marta não é exatamente do seu nível…
Nem você.
— Se você diz, sinceramente não dou a mínima… — Com o canto dos olhos, vejo um cara alto de costas, o cabelo curto, num castanho escuro e ondulado, apoiado na parede perto do banheiro, vestindo uma camisa branca e uma bermuda preta, uma garrafa de cerveja na mão, não parece muito bem. — Acho que isso é só questão de opinião.
— Bom, ela anda dizendo que vocês ficaram… — Continua, como se tentando me avisar de um crime. — Não é legal ficar por aí espalhando mentiras, sabe?
Hipócrita do c*****o.
Conheço o tipinho dela, uma p**a patética. Acha que é superior a todo mundo, ainda mais agora namorando um estudante de medicina, seja por conta de aparência, dinheiro ou conexões, todos a sua volta devem se curvar a ela; a verdade é que por baixo dessa arrogância fajuta, tem uma menininha que não foi amada o suficiente pelos pais e quer atenção.
Diminuir os outros não mudará quem você é.
— Não ligo muito para o que pensam. — Muito menos para o que você pensa. — Agora, se me der licença…
Passo por ela, ignorando seu chamado, e sigo para o banheiro, uso o mictório, quando vou lavar as mãos, noto duas pernas compridas saindo de uma das cabines, me aproximo e a porta da cabine está entreaberta.
Empurro a porta devagar, com medo do que encontrarei, e vejo aquele mesmo cara que vi antes apoiado na parede do lado de fora, agora de frente, me deparo com seus olhos azuis, lindos, curiosos, direcionados a mim.
— Han? — Murmura na minha direção.
Já o vi pelos corredores da faculdade, o pouco que sabia era pelo que meus amigos do curso comentaram algumas vezes, porque é isso que fazem: falam dos outros pelas costas.
— Ih! A lá! Aquele é o ex da Vane! — Ricardo diz e aponta para o outro lado do corredor.
Quando olho na direção que aponta, vejo a Vanessa conversando animadamente com um cara bem alto, esbelto, olhos azuis, olheiras profundas, pele morena, cabelo castanho bem curto e lábios grossos. Um alargador enfeitava a orelha esquerda, usava uma camisa cinza com detalhes pretos nas mangas, jeans preto e tênis Converse.
Vanessa por sua vez é, provavelmente, a garota mais conhecida da faculdade, não é para menos: ruiva natural, olhos castanhos esverdeados, várias sardas, parecia uma personagem mistica que saiu do “Senhor dos Anéis”, usava roupas que valorizavam o corpo, sempre de salto baixo vermelho e um sorriso enorme.
Diferente de garotas como j**k, Vane é gentil e sincera, não age com segundas intenções, não espalha boatos, nem fala pelas costas de ninguém, muito menos age como alguém superior aos outros.
— Como um cara tão f**o e magrelo desse conquistou a Vane? — Perguntou Laís, incrédula.
Não entendi muito bem sua reação, claro o cara não era muito chamativo, mas não era f**o… Na verdade, ele não era nem um pouco f**o.
Ele parece alguém que apenas não se destaca, ou melhor, não quer se destacar.
— Macumba, só pode… — Respondeu Ricardo, rindo.
— Ou a Vane apenas não tem bom gosto. — j**k disse, arrancando risada das outras meninas do grupo.
— Qual o nome dele? — Lipe perguntou do meu lado, parecendo ser o único interessado.
Todos se entreolharam, parecem não ter ideia.
— E quem se importa? — j**k responde por fim.
Observei os dois por um tempo, Vanessa parecia se divertir bem mais conversando com ele do que com nosso grupo de amigos. Ela não comentava muito sobre o cara, não acredito que fosse por vergonha, acho que Vanessa está preservando um lado dela que os outros não iriam entender.
Andando pelos corredores, sempre com uma cara séria, acompanhado de uma garota gótica, o ex da Vane não parecia ser do tipo que faria alguém rir, mas lá estava a própria Vanessa, gargalhando sobre algo que ele dizia, o sorriso dele era contido e doce.
Como seria a risada dele?
Volto a realidade, percebendo que dei uma viajada enquanto encarava o rapaz na minha frente, me abaixo do seu lado e o olho com atenção.
— Cê tá bem? — Pergunto, está abraçado com uma garrafa de cerveja, a camisa branca amarrotada.
— Ótimo, tô ótimo… — Sua voz está enrolada e meio… Sarcástica?
— Quer ajuda pra levantar?
— Na real… O chão tá bem confortável… — Responde, novamente naquela entonação sarcástico.
Um cara, aparentemente sério, fazendo comentários sarcásticos abraçado a uma garrafa de cerveja, sentado no chão de um banheiro de boteco.
Nada do que eu esperava…
Me sento de frente para ele enquanto contenho uma risada.
— Você é o ex da Vane, né? — Pergunto incerto. — Qual… O seu nome?
Ele enfia a mão no bolso, pega sua carteira, abre e tira sua carteirinha de estudante, oferecendo para mim.
Estudante de Cinema: Cláudio Gris.
Gris? Que diferente…
— E você é Nilo Garcia… O Adônis da faculdade… — Ele afirma, me fazendo levantar os olhos para ele.
Franzo o cenho, devolvo a carteirinha dele, que pega desajeitado, derrubando no chão.
— Opa… — Murmurou, parecendo uma criança, pegando a identificação de novo.
— É assim que as pessoas me chamam? — Pergunto rindo.
— É assim que te vejo… — Gris diz sem expressão, guardando na carteira e enfiando no bolso da bermuda.
Pisco algumas vezes, tentando entender se está flertando comigo ou sendo sarcástico de novo.
— E como você se vê?
— Hefesto. — Responde sem hesitar.
Começo a rir.
— Você curte mitologia grega?
— Eu lia muito “Percy Jackson” no ensino médio… Algumas coisas continuam aqui… — Aponta um dedo para a própria testa. — Não me lembro de nada sobre a aula de “produção de documentário” que tive ontem… Mas sei de cor e salteado… Cada livro da saga… — Sua voz enrolada parece se perder nas palavras.
— Eu lia também, quando era criança. — Digo e Gris me olha surpreso.
— Você não… Faz o tipo… Nerd. — Comenta confuso.
Balanço a mão.
— Nem sempre fui o “Adônis do curso de história”, então…
Sinto um desconforto na boca do estômago ao lembrar da minha infância, os apelidos, as humilhações…
— Por que você seria Hefesto? — Pergunto, querendo mudar de assunto e, sinceramente, adorando essa conversa.
Seu rosto forma um sorriso triste.
— Porque eu sou uma piada ambulante… — Ele ri. — Minha ex é uma deusa… Ninguém sabe quem sou… Ninguém me vê… A não ser quando sou… Necessário… — Seus olhos vão para o teto. — Necessário… Gosto dessa música…
Ele começa a cantarolar uma música do filme “Mogli: o menino lobo”, depois de um tempo para e olha para mim.
— Gosto de ser invisível, mas… Só às vezes… Eu queria que… — Seus olhos vão para a garrafa que está abraçado. — Alguém me visse como sou…
— E quem é você? — Me aproximo dele.
Gris ergue os olhos tristes para mim.
— Alguém… Que é mais que… O ex de alguém… — Riu, me fazendo sentir um pouco m*l por ter o chamado assim antes. — Mais que… Um cara sem graça… Além de… Um magrelo que ninguém se importa… Que ninguém quer ouvir… — Leva a garrafa que está abraçado aos lábios e dá um gole. — Se sumisse… Ninguém iria notar.
Arregalo os olhos para ele, sem acreditar na simplicidade que falava tudo aquilo.
Eu notaria.
Me assusto com meu pensamento intrusivo.
— As pessoas… Passam na minha vida e nem se importam… Com o que me causaram… — Balança a cabeça e deixa a garrafa, agora vazia, de lado. — Quebrado… Insignificante… — Ele começa rir. — Desculpa… Sou patético.
— Você não é patético, eu entendo… — Começo a falar, mas ri da minha resposta.
— Duvido! As pessoas beijam o chão que cê anda… — Gris diz com entusiasmo na voz. — Se cometer um erro, ninguém vai jogar na sua cara… Se cometer um acerto, ninguém diz que podia ter feito melhor… Se você fica com alguém… Ninguém… Duvida… Aposto que nunca pediram pra ficar com você… No sigilo.
Já pediram sim…
Engulo em seco.
— As pessoas não se importam comigo. — Falo, dando de ombros. — Elas veem o que querem ver, não quem eu sou. — Sinto lágrimas formarem nos meus olhos. — Eu sou… Alguém que as pessoas põem no pedestal, mas nem querem saber o que sinto, ou deixo de sentir, o que penso…
— As pessoas são burras… — Gris diz secamente. — Se uma pessoa como você… Nossa… Alguém como você viesse até mim… Eu não saberia o que fazer.
— Por quê? Por que estou num nível diferente do seu? — Pergunto com desdém, sinto algumas lágrimas fugirem dos meus olhos.
Por que eu tô me sentindo um lixo?
— Porque você é muito mais… Merece muito mais… Do que eu jamais poderia oferecer… — Cláudio, com seus olhos azuis, me encara de uma forma que nunca ninguém me olhou. — Eu jamais poderia te dar… O que você realmente merece… — Leva sua mão ao meu rosto e seca minhas lágrimas com seu polegar. — Uma vida sem… Decepção.
Sua resposta me surpreendeu, novamente, ele não era nada do que esperava.
— Decepção?
Gris afasta sua mão, deixando um espaço frio no meu rosto.
— Eu nunca faço… O que os outros esperam de mim… — Suspira. — Nunca sei como agir com as pessoas… Tenho… Medo… — Bufa com irritação. — A pessoa que mais amei na vida… Entrou num avião para nunca mais voltar… E me disse… Que não me queria mais… Não sou capaz… De fazer ninguém feliz.
Me aproximo mais dele, ficando a centímetros do seu rosto.
— Você não é uma decepção. — Falo, levando minhas mãos ao seu rosto.
Gris fecha os olhos ao meu toque.
— Eu não sou o bastante.… — O sinto se aconchegar seu rosto nas minhas palmas.
Começo a acariciar seu rosto.
— Eu não decepciono as pessoas, porque ninguém espera nada de mim. — Admito.
Gris abre seus olhos suavemente, revelando mais uma vez seus lindos olhos azuis.
— Você… Não tem que fazer nada… Pelos outros, apenas por você… — Começa a rir. — Acho que esse conselho serve… Pra mim também… Nossa… — Seus olhos se focam nos meus. — Seus olhos… Tem cinza…
Dou uma risada, intrigado com o que ele disse.
— Cinza?
O quão bêbado ele tá?
— Ao redor… Do castanho… Tem um pouco de cinza… Amo cinza… — Gris sorri, um sorriso sincero, que me faz querer ver mais vezes. — Cinza é uma cor linda… Lembra o céu nublado… Dias de chuva… Seus olhos…
Ergo as sobrancelhas, nunca notei que meus olhos têm um pouco de cinza, acho que ninguém nunca notou. Os olhos de Gris descem para a minha boca, suas bochechas ficaram coradas, ele desvia o olhar timidamente.
Fofo.
— O que foi? — Pergunto, um sorriso pequeno surgindo no meu rosto.
— Quero te beijar…
Me inclino para ele e o beijo.
O sinto amolecer, se entregar ao meu toque com facilidade, tornando aquele momento ser incrível, mesmo no chão imundo daquele banheiro de boteco. Um leve gemido escapa da sua boca contra a minha, fazendo arrepiar cada pelo do meu corpo com a ideia de fazê-lo gemer mais e por mais tempo.
— Na sua casa ou na minha? — Pergunto no meio do beijo.
— Pode ser na sua…
Sorrio contra seus lábios.
*
Não passou pela minha cabeça que me sentiria tão bem com alguém que, no dia seguinte, nem se lembraria do que aconteceu.
Acordei sem ele do meu lado, levantei e andei pelo apartamento, nada dele. Achei que tinha saído para, quem sabe, comprar um café ou algo assim, mas não voltou. A única coisa que deixou para trás foi seu cheiro na minha cama e um isqueiro com entalhe de ampulheta no bolso da minha calça, que havia usado para fumar um cigarro enquanto esperava o carro e pediu para eu guardar, pois tinha muito medo de perdê-lo.
Fui ao banheiro, lavei o rosto e olhei no espelho. Aproximei meu rosto do meu reflexo, observando atentamente meus olhos e não pude conter um sorriso.
Ele tem razão… Tem um pouco de cinza ao redor dos meus olhos.
Nos dias que seguiram o procurei pela faculdade, sabia que Gris fazia cinema, mas não sabia seus horários. Considerei perguntar a Vanessa sobre ele, mas as coisas estavam estranhas entre ela e nosso grupo de amigos.
Jack estava espalhando um boato sobre a Vane querer roubar o namorado dela.
Quem caralhos iria querer roubar o Pablo de alguém, o maluco parece um rato!
Eu andava com aquele isqueiro para todo o lado, na esperança de vê-lo e saber porque foi embora sem dizer nada no dia seguinte, será que se arrependeu? Talvez tenha ficado constrangido? No pior, usaria o isqueiro como desculpa para falar com ele e pedir seu número.
Finalmente o vi andando pelo corredor ao lado da garota gótica.
— Cláudio! — Vanessa o chama, fazendo ele parar e virar na direção dela.
Imediatamente depois que ela se afasta, j**k e Marta começam a cochichar uma para a outra.
— Lá vai ela atrás de macho. — Diz j**k com desdém.
— Meu Deus, mas ela desceu de nível, primeiro Pablo e agora… Quem é aquele mesmo? — Marta pergunta com nojo.
— Cláudio Gris. — Respondo, sério.
Elas se viram para mim, surpresas.
— Nossa, Nilo, me admira você saber o nome dele, você raramente se importa em saber o nome de outras pessoas… — j**k comenta, mas sei que está sondando.
— É porque a maioria das outras pessoas são escrotas como você. — Respondo sem pensar, e todos me olham surpresos, mas não dizem nada.
Jack e Marta voltam a cochichar, as ignoro e observo Gris com atenção.
Ele falava algo que fazia Vanessa rir, enquanto a amiga gótica os olhava com um sorriso travesso, Gris olha de canto para sua amiga gótica e revira os olhos. Seu olhar vai para j**k e Marta, sua expressão parece entediada para elas, logo sobe sua visão para mim, que parece surpreso ao me ver.
Quase no mesmo segundo, volta seu olhar para Vane.
Vai mesmo me ignorar?
Os dois se despedem, Cláudio se afasta e Vanessa volta até o nosso grupo.
— Estavam conversando sobre o quê? — Laís pergunta para a Vanessa.
Laís, da mesma forma que j**k, se acha superior a todo mundo. Tendo pais ricos, se acha no direito de agir como uma princesa, até se veste como uma: vestidos com saias rodadas, sapatilhas brilhantes e sempre uma faixa de cabelo diferente, j**k nunca perde a oportunidade de dizer pelas costas dela como ela se veste que nem uma criança.
Laís tem um cabelo castanho liso, escorrido de liso, olhos castanhos escuros, pele morena e lábios grossos, se não fosse pela maquiagem forte, ela seria até bonita.
— Ah, nada importante… — Ela começa a responder, mas logo j**k a corta.
— “Nada importante”? — Ri debochadamente. — Do jeito que vocês estavam conversando, pareciam até flertarem um com o outro…
Vanessa a olhou com irritação.
— Às vezes a gente só enxerga o que quer ver. — Vanessa responde seco. — Vou pra aula.
Vanessa se afasta e j**k bufa de irritação.
— Ela vai mesmo fingir que não flertou com o meu namorado? — j**k pergunta indignada.
Reviro os olhos.
— Por que ela flertaria com o seu namorado? — Pergunto.
— Ora! Chamar atenção? — j**k diz, como se fosse óbvio.
Sim, porque Vanessa precisa chamar atenção pra compensar a falta de amor que não recebeu dos pais… Ah, não, espera! Essa é você…
— Com certeza ela só quer que todos os caras deem atenção a ela. — Diz Laís com nojo. — Ela se acha.
Vocês são patéticas.
— Vou pra aula também. — Falo e me afasto, ignorando os olhares curiosos dos meus “amigos”.
— Desde quando ele chega na hora pra aula? — Ouço a voz do Ricardo atrás de mim, mas apenas ignoro.
Preciso de amigos melhores.
*
Decido que hoje é o dia que falarei com o Gris e tirar essa história a limpo, procuro ele em todo o lugar depois que minha aula acaba, o encontro numa mesa ao ar livre do refeitório.
Ele mexia no computador e parecia muito ocupado, estava preste a ir até ele, mas Vanessa se aproximou e se senta do seu lado, que nem levanta os olhos para ela. Decido sentar numa mesa e observar, Vanessa pega um fone de ouvido do Gris, o fazendo finalmente olhar para ela, sem nenhuma resistência fecha seu computador e dá toda sua atenção a ela.
Gris parece ter muita consideração com ela.
Durante a conversa vejo olhares de preocupação e carinho para Vanessa, enquanto essa gesticula e demonstra frustração. Gris olha na minha direção, seus olhos encontraram os meus, mas rapidamente dirige seu olhar para Vanessa, sem parecer nem um pouco alterado pela nossa breve troca de olhares.
Para de me ignorar!
Depois de um tempo, Vanessa o abraça, noto Gris surpreso com sua atitude, mas retribui. Logo eles se levantam, Vanessa devolve o fone de ouvido para ele, se despedem e cada um vai para um lado.
Me levanto e vou atrás dele.
— Gris. — Chamo incerto, mas ele não escuta. — Ei! Gris! — Nada, toco seu ombro e ele dá um grito.
Cláudio se vira para mim, puto da vida, me dando uma bronca por o assustar. Não consigo fazer outra coisa além de rir, não sabia que podia ficar tão irritado com tão pouco.
Então fica aquele silêncio estranho, ele parecia irritado, distante e desconfortável comigo, totalmente diferente daquele noite, onde não só ele me puxava contra seu corpo, como também não me soltava de jeito nenhum.
— Quer alguma coisa? — Seu tom de voz soa como um t**a.
Sorrio, meu melhor sorriso, geralmente as pessoas se abrem com facilidade para mim, riem ou se soltam, mas não ele, parece que meu sorriso ensaiado o afasta.
Eu não gosto disso.
Estou sem saber como agir, algo que nunca me aconteceu antes com outras pessoas. Quando devolvo o isqueiro, ele sorri, um sorriso que me deixa aliviado, mas ele nem olha para mim e se afasta logo depois.
Quando pedi seu número, me olha como se eu fosse maluco, mas a parte mais humilhante dessa conversa foi quando disse as seguintes palavras:
— Eu nem me lembro o que rolou… Então, não posso dizer se gostei ou não.
Fico tão em choque com sua reação que nem percebo quando se afasta, no fim, fico sozinho e puto da vida.
Qual é o problema dele?
— Nilo? — A voz de Marta atrás de mim me tira dos meus pensamentos homicidas.
— Quê?
Marta, fiquei com ela no mês passado, desde então me manda mensagens, me segue pela faculdade, sempre senta do meu lado nas aulas… Isso tá me enchendo o saco já.
Ela não é f**a, mas não tem nada que a destaque. Magra seria um elogio, ela é osso, usa roupas delicadas, nariz fino, cabelo loiro e olhos azuis bonitos… Mas não tão bonitos quanto os do…
— O que você tava falando com o ex da Vane? — Marta pergunta curiosa.
— Por que quer saber? — Pergunto de volta, m*l-humorado.
Marta ajeita o cabelo atrás da orelha.
— Olha, se você tá a fim da Vane, acho que falar com o ex dela não ajuda. — Marta diz com desdém. — Tem garotas muito melhores pra você ficar.
— Ah, é mesmo? Tipo quem? — Pergunto, cruzando os braços.
— Ora… Eu.
Começo a rir, alto, ridícula.
— Tenho pena de você. — Falo e ela estremece ao som do meu menosprezo. — Você, j**k e Laís se juntam contra Vane, mas nem notam que também estão uma contra a outra. — Me inclino para ela. — Elas falam pelas suas costas também, não se engane.
Marta comprime os lábios, não diz mais nada, me afasto com uma única coisa na mente: a voz do Gris na noite da unificação.
— Se uma pessoa como você… Nossa… Alguém como você viesse até mim… Eu não saberia o que fazer.
Levo a mão ao rosto, esfrego os olhos, irritado. Vou apenas deixar isso pra lá, porque claramente não significou nada…
…Pra ele.