Nas últimas semanas percebi que Gris me evitava, muito. Toda vez que ele me via, virava na direção oposta, o que me deixava um pouco magoado. Não estava acostumado a ser ignorado com tanto esforço, mas ser evitado pela pessoa que me deu uma ótima noite, um bom momento, é como uma bela facada no ego.
Parece até que a noite que tivemos foi r**m… Mas ele nem se lembra do que rolou!
Não sei o que é pior, sinceramente, que situação ridícula. Mas não levou nem um mês para nos esbarramos de novo, e dessa vez ele não pode fugir de mim.
Saí do salão depois de mudar a cor do cabelo para roxo, olhei as horas e ainda tinha tempo até meu trabalho no restaurante do meu tio, então decidi passar numa cafeteria que tinha perto da faculdade, pois fazia o cappuccino do jeito que gostava.
Estacionei a moto do outro lado da rua, atravessei e entrei na cafeteria. Quando olhei na direção do balcão, Gris olhava diretamente para mim, seus olhos azuis, por trás dos seus óculos de armação fina, me desconcertaram, eram profundos, me lembraram de quando me jogou na cama e arrancou minhas roupas… Mas logo desviou o olhar para Vanessa, que estava sentada numa das cadeiras do balcão.
— … Mas esse cara consegue fazer os dois. — Gris diz, a voz brincalhona e meio tremida.
Vanessa, sentada no balcão, ri e dá de ombros.
Ando até o caixa, seus olhos passeiam por mim, como se me analisando, vejo o canto de sua boca levantar suavemente, parece gostar do que vê, mas logo sua expressão muda para um nada infinito.
— Boa noite, o que vai pedir? — Pergunta com uma voz robótica.
Sua voz dizendo aquilo me dá um rápido flash daquela noite.
— Quero ouvir você pedir… — Seu corpo sobre mim, suas mãos segurando meus pulsos com força acima da minha cabeça, sussurrando no meu ouvido. — Vamos… Pede.
Respiro fundo, tentando me concentrar no agora.
— Ah… Boa noite, quero um cappuccino com chocolate. — Digo me sentindo um pouco sem ar, de repente noto sua camiseta por trás do avental, dizia “odeio café”. — Como você pode trabalhar aqui e não gostar de café?
— Não é que eu não goste de café. — Um leve sorriso irônico surge na sua boca. — Eu só odeio mesmo.
Grosso… De um jeito fofo?
Ouço a risada da Vanessa mais uma vez, me viro para ela e a cumprimento. Cláudio me avisa que meu pedido logo ficará pronto, me sento do lado da ruiva, assim posso observar Gris com mais atenção.
Seus olhos são azuis suaves, bem expressivos, seus lábios ficam entreabertos quando está concentrado, franze as sobrancelhas de leve enquanto mexe no caixa, seu cabelo castanho e ondulado brilha contra luz das lâmpadas amarelas da cafeteria, leva o indicador ao meio dos óculos e dá uma rápida ajeitada, quase imperceptível.
— Não sabia que usava óculos. — Comento, tentando iniciar uma conversa.
— Minhas lentes de contato acabaram. — Responde, frio.
Ele não continua a conversa, isso me deixa muito frustrado.
— Vocês se conhecem? — Vanessa pergunta do meu lado.
Gris fica tenso com a pergunta, mas antes que possa responder, o sininho da porta toca e ele desvia o olhar para a porta, fazendo uma careta desagradável.
As antigas amigas falsas da Vanessa entram, rola um clima de guerra fria entre as meninas e percebo Gris observando tudo, como se estivesse esperando sua vez de tomar alguma atitude.
— Nilo. — Um cara atrás do Gris me chama.
Ele é gordinho, baixo, branco, cabelos cacheados, olhos castanhos e o rosto ferrado de cicatrizes de espinhas. Percebo os olhos dele no Gris, que brilham em sua direção, seu rosto corado, ignorando minha presença completamente.
— Obrigado. — Falo e pego meu cappuccino distraído, dou um gole, mas queimo a minha língua, afasto a xícara rapidamente da minha boca.
— Cazzo (c*****o)…
— Cuidado, tá quente. — Gris diz num tom entediado, mas vejo o canto da sua boca subir.
Quero arrancar esse sorrisinho i****a da sua cara…
— Muito obrigado pelo aviso agora que já queimei a boca. — Respondo, irônico.
— Disponha. — Se apoia no balcão, seu sorriso cresce um pouco para mim, os olhos azuis brilham com divertimento.
Minha irritação passa ao apreciar, pela primeira vez, seu sorriso e seus olhos em mim, mas j**k estraga esse pequeno momento.
— Vocês se conhecem? — Pergunta incrédula.
Gris fica tenso novamente, reviro os olhos e quando estou prestes a mandá-la se f***r, ele responde no meu lugar.
— Claro que não, nunca vi esse cara na minha vida. — Diz sem hesitar.
Olho para ele irritado.
Não tem como deschupar meu p*u, cara!
— Ah, não faria muito sentido mesmo… — j**k diz. — Vocês não estão no mesmo nível.
De novo essa palhaçada de nivelamento?
Antes que eu respondesse, Gris age como se não se importasse, mas vejo no seu gesto que concorda com ela… Mas eu não.
Aposto que se j**k tivesse me conhecido na época da escola, não me colocaria nesse pedestal de popularidade infantil, onde insiste que todos devem seguir. Sempre odiei essa hierarquia ridícula, tanto na época que eu estava à margem dela quanto agora.
Jack volta a falar, perco o momento de mandá-la se f***r. Percebo que ela insinua que eu e Vanessa temos alguma coisa, olho para Gris para ver sua reação, ele está irritado, mas não parece com ciúmes…
Quero que tenha ciúmes?
Quando Vanessa acusa j**k de ser invejosa, j**k surta, grita coisas ridículas, porque ela tem que ser o centro das atenções e ter a última palavra.
Mas Gris roubou seu holofote rapidinho, sem nenhuma dificuldade, arrancando risadas dos clientes, me fazendo ter toda minha admiração. Isso prova que eu estava certo, Gris não é uma decepção.
Diria que a cereja do bolo foi ele jogar café na cara dela.
Nunca vou pisar no calo desse cara…
Jack saí correndo, humilhada, Gris apenas se vira para Vanessa e diz que fará outro café gelado. Seguro uma risada, ele tem prioridades bem definidas. O garoto gordinho sai com um esfregão para limpar a sujeira do café, os olhos de Gris encontram os meus, noto uma mudança na sua expressão, bem discreta, mas ocorreu.
Parece constrangido.
Cláudio volta sua atenção novamente a Vanessa, efetuando o pagamento do seu segundo café gelado. Rone pergunta sobre o antigo relacionamento deles, sinto que Vanessa tem sorte de conhecer um lado carinhoso do Gris, um lado que ele claramente não mostrava para todo mundo e nem pretendia mostrar.
— … Tipo quando você disse que fui a pessoa mais bonita que você já beijou. — Vanessa diz de repente.
Não duvido disso…
— Não não, eu disse que você foi a garota mais bonita que já beijei. — Gris a corrige.
Começo a prestar mais atenção.
— E quem foi o cara mais bonito que você já beijou? — O garoto gordinho pergunta apoiado no esfregão, bem curioso.
Os olhos azuis de Gris vão até mim, não consigo segurar o meu sorriso, o observo com uma pergunta nos olhos: vai dizer que sou eu?
Ele volta o olhar para o garoto gordinho.
— Bom… Teve esse cara na unificação… Mas virei uma “Heineken” com pernas, fiquei com ele e não me lembro de nadinha. — Ele faz uma careta engraçada.
Recolho os lábios com satisfação.
— Então você nem sabe se ele beija bem? — O garoto gordinho pergunta incrédulo.
— Pois é. — Gris responde, dando de ombros.
Por alguma razão, me sinto desafiado com isso.
Alguém nos fundos fala que o café gelado da Vanessa está pronto, Gris vai até a cozinha, olho as horas, pego meu capacete e saio para tomar um ar.
Então… Eu sou o cara mais bonito que ele já beijou, mas ele não quer ficar comigo de novo… Por quê?
Mesmo ele não lembrando do que aconteceu, não faz sentido agir assim.
Qual é a dele?
Meu celular vibra no meu bolso, me tirando dos meus devaneios, é Nando. Suspiro, coloco o capacete no chão, me apoio no poste e abro sua mensagem.
Nando: Adivinha!
Eu: Sou péssimo em adivinhar…
Nando: Vdd. ( ͡≖ ⍨ ͡≖)
Nando: Conheci uma garota! (っ^▿^)っ
Ele começa a me mandar várias mensagens sobre como essa garota é incrível, linda e maravilhos, me fazendo rir.
Nando: Mas não sei cmo chamar pra sair.
Eu: Deixa de ser bundão e só chama ela! (ㆆ_ㆆ)
Com o canto do olho noto alguém andando na calçada, é o Gris. Ele está de cabeça baixa, claramente me evitando, vejo seu olhar ir para os meus pés e logo afastar para o chão.
Por que você não olha pra mim?
Respiro fundo, irritado e decido tomar uma atitude.
Quando Gris passou na minha frente, enfiei o celular no bolso, peguei seu braço e o puxei para mim. É a primeira vez que vejo sua expressão surpresa, quando coloco minhas mãos ao seu redor, ele arregala os olhos, me revelando pupilas dilatadas e íris azuis penetrantes. Espero um momento, vendo se vai me afastar, mas não, parece perdido nos meus olhos.
Me inclino e o beijo com vontade, seus braços vêm ao redor do meu pescoço, pedindo por mais. Ele relaxa contra o meu corpo, me fazendo o segurar com mais força, permitindo que derreta em meus braços, seu beijo é muito mais firme que naquela noite, seu corpo parece se lembrar de mim.
Sinto seu gemido vibrar contra a minha boca, me faz querer sentir ainda mais o seu gosto, provo o sabor do cigarro que fumou e de menta suave. Ele briga por espaço na minha boca, mas minha língua o domina com facilidade. Minha respiração começa a ficar fraca, não quero parar, mas preciso, se não acabarei indo longe demais, então começo a me afastar, aos poucos, ele parece entender o que faço e no mesmo ritmo se afasta de mim.
Nossos corpos se comunicam bem…
— Espero que você não esqueça disso amanhã… — Digo bem próximo dele, que estremece ao som da minha voz.
Gris respira fundo, dá um passo para trás e me encara.
Diz alguma coisa, que quer me ver de novo, eu quero repetir aquela noite, só pra você lembrar de mim…
Gris respira fundo mais uma vez e me dá um balde de água fria.
— Ok… — Murmura, parece assustado e tenso.
Recolho os lábios, resisto a vontade de beijá-lo de novo, eu o deixei desconfortável? Parece que dou um passo na sua direção e ele dá dois para trás. Estalo a língua e bufo de irritação.
— Até Gris. — Falo, me abaixo, pego o capacete que deixei no chão, olho uma última vez, procurando talvez uma permissão para outro beijo, mas não encontro. Dou as costas e me afasto, atravesso a rua, subo na minha moto, coloco o capacete, dou a partida e me vou em alta velocidade em direção ao meu trabalho.
Aposto que nunca mais vai olhar na minha cara…
Merda! m***a! Eu sou muito i****a! Stronzo…
*
— Onde você tá com a cabeça? Stronzo (e******o)! — Tio Franco grita comigo.
Olho para ele surpreso, percebi que, sem querer, coloquei sal em vez de açúcar no suco que estava fazendo, os outros funcionários da cozinha do restaurante me olham preocupados.
— Desculpa… — Murmuro envergonhado.
— Larga isso! — Manda irritado, pega o suco e joga o conteúdo no ralo, batendo o copo na pia. — Vem comigo.
Vamos em direção à porta dos fundos da cozinha, quando saímos, ele fecha a porta com força e saca um cigarro.
— Quer?
Aceito, começamos a fumar em silêncio, o gosto parece mais agradável que o normal.
Meu tio Franco tem um negócio de família de umas duas gerações, começou quando a família Garcia veio da Itália para se estabelecer no Brasil e meu avô iniciou um quiosque de pizza. Aos poucos virou um restaurante onde, além de pizza, vendiam hambúrguer, batata frita, fogazza e outros pratos nesse estilo.
Tio Franco era alto como eu, gordo, pele bronzeada e tinha uma voz animada característica da minha família. O cabelo preto, um liso escorrido, estava preso num r**o de cavalo, barba por fazer, o nariz tinha uma leve curvatura e olhos castanhos escuros como os meus.
Quando ele relaxa, olha para mim com aflição.
— Parla come mangi (Vá direto ao ponto). — Tio Franco pede calmamente.
Ele tinha o seu próprio jeito de se preocupar, não perguntava se estava bem, ou se aconteceu algo, apenas dizia para eu contar tudo sem enrolação.
— Tem… Esse cara da faculdade… — Começo hesitante.
— Você quer brigar com ele ou f***r ele? — Meu tio pergunta com uma sobrancelha erguida.
— Não! Oddio zio (Meu Deus tio)… — Murmuro envergonhado, deixando escapar meu italiano.
— Anda, fala antes que meu cigarro acabe! — Pede impaciente.
Suspiro e dou uma tragada mais forte.
— Esse cara, Cláudio… Gris, eu… Tô com dificuldade de me aproximar dele. — Digo.
— Fottere (f***r)… — Meu tio murmura.
Ignoro e continuo.
— Ficamos uma vez, mas ele não se lembra disso. — Digo e ele ergue as sobrancelhas. — Pois é, tava bêbado, enfim, depois ele começou a me evitar, aí hoje beijei ele…
— Molto bene (Muito bom)!
— … E o assustei. — Termino, dando de ombros.
— Como você sabe que o assustou? — Meu tio pergunta com simplicidade. — Olha, eu posso não ser um grande especialista nessa coisa de ser… Bissexual?
— Isso.
— Mas eu diria que entendo de pessoas. — Dá uma tragada profunda, o cigarro está quase no fim. — Pelo pouco que você falou, esse tal… Gris soa como um bambino (menino) tímido… Ou talvez esteja esperando uma atitude sua?
— Eu tomei atitude! — Protesto.
Tio Franco me dá um t**a na nuca.
— Beijar ele não conta, aposto que foi roubado, que nem a Daniella no seu aniversário de onze anos. — Diz rindo. — Você roubou um beijo dela no meio dos parabéns!
Seu cigarro acaba, ele taca a bituca no chão e pisa nela.
— Atitudes vão além de contato físico. — Me dá um tapinha no ombro. — Tem que saber demonstrar.
Ele abre a porta dos fundos e passa por ela.
— Agora põe a m***a da cabeça no lugar! — Meu tio grita, seu sotaque forte no ar, sem olhar para trás.
Suspiro, apago o cigarro e volto para dentro.