Capítulo 10: Entender.

2719 Words
Gael, como descrever esse homem? — Fico feliz que tenha vindo… — Diz me olhando com atenção, como se estivesse tentando captar algo específico na minha expressão. No início foi alguém tão deslumbrante, chegava a ofuscar todos a volta, não só quando estava presente, mas também ao fim do dia, quando eu estava sozinho no meu quarto. Era desumano o quão perfeito ele foi aos meus olhos, me fazia sentir como alguém privilegiado só por ter sua atenção, fui um e*****o das migalhas de seu afeto. Agora, na minha frente, vestindo um terno caro, muito bonito, com sua aliança de ouro enorme no dedo, que dava para derreter e transformar numa porta, mostrava um homem materialista e e*****o de outro alguém. — Pois é, mas já tamo de saída. — Lhe dou um sorriso educado. Gael entreabre a boca, como se desconcertado com minha resposta. — Onde cês tavam? — Mateus perguntou atrás de mim, curioso. Defina ingênuo. — No lago. — Respondi calmo, Gael franze o cenho e olha para minha mão que segurava a do Felipe. — Enfim, tô indo embora, se divirtam! — Mas tão cedo? — Gael cruza os braços. — Um pouco rude da sua parte ir embora assim… — Na real, nem queria ter vindo. Era engraçado ver Gael surpreso com minha atitude, esperava o Cláudio passivo, que fazia tudo para agradar, nunca fiquei tão feliz em decepcionar alguém como estava naquele momento. — Então? Por que veio? — Perguntou com um sorriso de canto. — Se não queria vir, por que confirmou sua presença no grupo? — Pra ver você. — Respondi descaradamente. Ele arregalou os olhos, senti os olhares dos meus amigos não entendendo a situação, com o canto dos olhos vi Roberta me encarando, noto Vanessa, confusa e completamente alheia ao meu relacionamento que tive com Gael, me fitando com atenção e interesse. A mão do Felipe apertava a minha nervosamente, transmitindo sua dúvida e curiosidade em mim, Nilo e Jackeline me olhavam apreensivos. Mateus estava se ocupando em comer. — Ah, não me entenda m*l. — Expliquei rapidamente, com um sorriso de falso constrangimento. — É que eu precisava fazer uma coisa… — Enfiei a mão livre no bolso, o metal gelado do isqueiro contra a palma queima. — O quê? — Gael pergunta, descruzando os braços, sem entender. Soltei a mão do Felipe, que me olhou com aflição. Peguei o pulso do Gael, puxei sua mão com a palma virada para cima. O seu olhar surpreso com minha atitude me diverte, porque o Cláudio que conheceu jamais tomaria iniciativa para tocar outra pessoa, independente do tipo de toque. Mas o Cláudio que conheceu não existe mais… Peguei o isqueiro que me deu no aeroporto, quando disse: — O amor supera tudo, até o tempo… Coloquei o isqueiro na sua palma, fechei sua mão ao redor do isqueiro, e sussurrei bem próximo do seu rosto: — … Mas o tempo nos mostra muitas coisas, principalmente quem ama de verdade. A ironia era muito clara na minha voz, mas apenas Gael saberia exatamente do que estou falando. Lembro de como ele me fazia sentir especial, como ria e sorria das coisas que bobas que eu dizia, como me tocava, me deixava vulnerável e exposto. Gael tinha tanta facilidade em me abrir e ler, mesmo se eu não dissesse nada, saberia exatamente o que estava pensando e podia guiar minhas ações com meras sugestões. Agora, claramente não tinha mais esse poder sobre mim, estava desarmado. — Desculpa demorar tanto para devolver. — Disse soltando seu pulso e pegando a mão do Felipe novamente, que ficou aliviado com meu toque. — Andei ocupado. Mantive esse isqueiro para nunca esquecer o que passei, jamais me permitir ficar vulnerável novamente, me machucar de novo, pois sou fraco demais e não mereço um amor. Tivemos um relacionamento secreto, onde me dizia ter medo de seus pais homofóbicos, mas sabia que tinha vergonha de mim em público, me queria e me usava, depois mantinha sua distância aos olhos dos outros. Aquilo era uma d***a viciante, cada fragmento de afeição me fazia sorrir por dias, pois aquilo foi o mais próximo de amor que experimentei. A verdade é que nunca o amei de verdade. Eu o idolatrei. Pensar que tempos atrás acreditava que amei uma pessoa, só uma, ele. Confrontando de frente o meu passado, enxergo que não amei Gael, não passou de uma paixão muito forte, algo completamente viciante e doentia. Refleti muito sobre isso por muito tempo, mas agora, de frente com a pessoa que me causou tantas dúvidas e dores, tudo ficou muito mais fácil de entender. Não precisava daquele isqueiro para me lembrar, pois eu jamais esqueceria mesmo se tentasse. — Você… Parou de fumar? — Gael pergunta, tentando entender minha atitude. Gael era um cara comum, mas foi capaz de me fazer vê-lo como alguém divino, que eu tinha o privilégio de ter comigo. Como qualquer adolescente ingênuo, eu o pus no pedestal, superestimei todas as nossas primeiras vezes, na minha visão ingênua ele foi o mais próximo da definição de “perfeição”, e, como qualquer adolescente narcisista, ele se aproveitou disso para inflar seu ego. — Ah, não mesmo! — Respondo rindo. — Algumas coisas são imutáveis. Talvez tenha sido a decepção, quando a realidade me bateu sem dó naquela igreja, ou pode ter sido o tempo, que em vez de ter sido superado pelo amor que um dia achei que tivemos, apenas me curou. Agora eu o enxergo como realmente é: uma pessoa, patética, comum e fez escolhas egoístas, como qualquer ser humano imperfeito que não consegue considerar os sentimentos dos outros. — Enfim, não quero tomar muito do seu tempo. — Continuo a falar, ignorando o olhar perturbado de Gael. — Sei que você deve estar muito ocupado com seus amigos, aposto que sua esposa está por aí procurando por você. — Ele recolhe os lábios. — E quem sou eu para te causar problemas… — Para. — O tom gutural me assusta, percebo que meus amigos ao redor também estão estremecidos. — Para de falar assim. Ergo as sobrancelhas confuso. — Assim como? — Uma leve provocação na voz. — Tô falando normal. Noto seu pomo de adão descer e subir, provavelmente na ação de engolir em seco, me viro para meus amigos, que estavam em silêncio completo, apenas observando a conversa com curiosidade. — A gente vai nessa pessoal! — Volto meus olhos para Gael, que ainda está com a mão erguida segurando o isqueiro com entalhe de ampulheta. — Adeus. Estremeceu ao som da minha despedida. — Vou com vocês. — Nilo diz de repente. Considero perguntar se ele realmente quer ir embora, mas sua expressão séria e tensa não me permite questionar. — Beleza, bora. — Digo simplesmente. * — Então… Aquele cara é seu ex? — Felipe pergunta, quebrando o silêncio desconfortável no Uber com uma pergunta mais desconfortável. Nilo e Felipe me olhavam esperando minha resposta. Legal… — Namorei ele no primeiro ano do ensino médio. — Respondi, respirei fundo e continuei. — O relacionamento em si não foi r**m, mas foi bem… Manipulado. — Sorri de leve. — Ele foi estudar fora, prometeu que voltaria… Mas cortou qualquer comunicação comigo e se casou com uma gringa. Um novo silêncio incômodo começou a surgir, mas Nilo fez o favor de quebrá-lo. — Motorista, tem como voltar? — Pergunta, se inclinando para frente. — Preciso meter a p*****a num b****a… Eu, Felipe e o motorista começamos a rir. — Bom, isso já faz muito tempo, mas o que vale é a intenção de meter a p*****a em alguém. — Falo colocando a mão no ombro dele o puxando de volta para o encosto do assento. Nilo se volta para mim e põem a mão sobre a minha, fazendo um calor irradiar de dentro de mim. — Você merece alguém melhor. — Murmurou sério. Seu olhar intenso no meu quase me fez esquecer que Felipe estava do meu lado, quase. Retirei minha mão do seu ombro e me aproximei do Felipe, que sorriu para mim. — Ainda vai querer ir na minha casa? — Pergunto baixinho para ele. — Sim. — Seu rosto corado me diverte. Sinto uma estranha tensão na boca do estômago, uma sensação de que estava cometendo um erro, mas não fazia sentido… — Chegamos. — O motorista avisa. Saímos do carro, entramos no prédio e fomos até o elevador, acho que a última vez que usei o elevador foi quando me mudei, até tinha esquecido que tinha um espelho no elevador, com o qual me assustei com o meu reflexo. — Ai! Que susto… — Murmurei levando a mão no peito. Felipe deu uma risadinha contida, levando a mão a boca, mas Nilo achou hilário, a ponto de se dobrar para frente de tanto rir. — MEU DEUS! — Nilo grita, apoiando a testa na parede lateral do elevador. — TÔ SEM AR! — Cala a boca! — Grito dando um t**a no ombro dele, que nem reagiu. — Eu não tenho o costume de usar o elevador! — Deu pra notar… — Felipe murmura, com um sorrisinho. — Jesus… — Murmurei irritado enquanto apertava o botão do nosso andar. Chegando no andar, os dois idiotas ainda davam risadinhas, enquanto eu pegava minhas chaves. — Bom, boa noite, Nilo, que horas a gente…? — Começo a falar e Nilo me interrompe. — Não vai me convidar pra entrar? Olho para ele incrédulo. — … Não. — Digo simplesmente. Nilo para inquieto. — Por quê? — Ele pergunta. Meu queixo genuinamente cai. Ele vai me obrigar a dizer em voz alta? — Eu e o Felipe… — Começo, noto que Felipe está bem corado. — … Temos planos. As sobrancelhas de Nilo se unem, está irritado, ele olha para o Felipe, que devolveu seu olhar confuso sua reação. — Lipe, posso falar com você? — Ele mais manda que pergunta, pois antes que Felipe pudesse responder, Nilo pega no seu braço e o puxa para o início do corredor, em direção ao elevador, eles entram e descem para o térreo. Mas que p***a…? Em menos de dois minutos, Nilo volta sozinho, vem em minha direção e com a maior cara de p*u diz: — Lipe teve que ir. — Deu de ombros e sorriu. — Vamo entrar? Seria incapaz de descrever minha expressão naquele momento, mas por dentro eu estava borbulhando de ódio. — Nilo, me faz um favor? — Claro, o quê? — Nilo ainda sorria. — Se mata. Abro a porta com raiva e quando estou prestes a fechar na cara do Nilo, ele a segura impedindo de fechá-la. — Não faz isso! — Pede. Abro a porta novamente, ignorando os miados curiosos de Gezora. — Por que você fez isso, hein? — Pergunto tentando controlar o volume da minha voz. — Você acabou de mandar o cara que eu ia comer embora! Nem vem me dizer que ele “teve que ir”, eu não caio nessa! Por que caralhos você…? — Vamo no meu apartamento. — Nilo diz simplesmente, ignorando minha reação furiosa. Antes que pudesse recusar, ele pegou meu braço, me puxou, pegou as chaves da minha mão e trancou a porta do meu apartamento. Enfiou as chaves no bolso da sua calça e me puxou para o fim do corredor, em direção ao seu apartamento. — Nilo? — Chamo, mas ele não me responde. Ele pega suas chaves, abre seu apartamento e nós entramos. Seu apartamento é igual ao meu, mas tem uma parede pintada em um tom claro de roxo e as outras num tom preto, cortinas roxas na janela, uma televisão maior que a minha no rack da sala e um computador na mesa de centro. Tem alguns porta-retratos, quadros de flores estilizadas num estilo de manchas de tinta na parede sobre o sofá, que é preto, não tem uma mesa de jantar na sala, tornando seu pequeno apartamento mais espaçoso. Não tive tempo para notar esses detalhes da última vez que pisei aqui… Sinto um frio na barriga. A última vez que pisei aqui… — Senta lá, Cláudio. — Manda, apontando para seu sofá. É a primeira vez que ele me chama pelo meu nome… Obedeço, me ajeito no sofá e o olho apreensivo. Minha mente está a mil, Nilo se livrou do Felipe, me trouxe para seu apartamento e está na minha frente, parado, me encarando pensativo. — Me diga com sinceridade. — Fala num tom nervoso. — O que eu sou pra você? Ergo as sobrancelhas. — Nilo, você já não fez essa pergunta…? — Quero que você diga, com toda a sinceridade que existe em você… O que eu sou pra você, o que pensa de mim? — Tem tensão na sua voz, o que acaba me deixando tenso também. Ansiedade, ótimo… — Ok… — Respondo meio incerto. — Penso que você tá agindo de forma bem estranha… Ele dá uma risada esquisita e senta na mesa de centro, de frente para mim. — Vamo lá, Gris… — Tá… — Eu não tô entendendo nada. — Você é, na minha humilde opinião, um cara muito gentil. — Dou de ombros e desvio o olhar, me sentindo envergonhado. — Se preocupa comigo e, me sinto meio culpado em dizer isso, mas gosto que se preocupa comigo… É egoísta, eu sei, mas não tem muitas pessoas que se preocupam comigo… Do mesmo jeito que você… Paro, voltando a olhar para ele, que não deixa de me encarar com expectativa. — Continua, vai. — Nilo pede, sua voz mais calma. — Ok. — Me ajeito, recostando no sofá. — Eu… — Não acredito que vou dizer isso em voz alta. — Adoro sua companhia. — Novamente desvio o olhar. — Você é totalmente diferente do que imaginava, achei que seria um b****a, tirando o que você acabou de fazer com o Felipe, você se provou ser um cara bem legal. — Suspiro novamente. — Han… Sei lá, divertido, sorridente, você é bonito… Tipo, muito… Suas camisas são incríveis, seu estilo no geral… Adoro sua comida… Cabelo, é! Seu cabelo é legal, mas admito que gostaria de saber qual é a cor natural, mas gostei do seu cabelo hoje, combina com você… Adoro seu… — Paro imediatamente de falar, meu rosto queimando. — Meu o quê? — Nilo insiste. — Acho que já tá bom… — Responde. — Insiste mais. Enterrei as mãos no rosto. — Tenho mesmo? — Sim. — A voz de Nilo é firme. Fiquei alguns segundos em silêncio, considerando mentir, mas não consigo pensar numa boa mentira sob pressão, me inclino para a frente emitindo um som de dor e sofrimento pelas próximas palavras que sairão da minha garganta. — Cheiro. — Murmuro. — Eu… Adoro seu cheiro… É… Muito bom… É lavanda? Não tenho coragem de tirar a mão do rosto, não ouço nada, me recuso a tirar as mãos do rosto para ver sua reação. — Gris. — Sua voz surge no silêncio. — Eu. — Murmuro por trás das minhas mãos. — Olha pra mim. — Não. Quero afundar no chão e sumir. Suas mãos seguram as minhas, tirando do meu rosto, mas não olho para ele. Uma de suas mãos vai até meu queixo, erguendo meu rosto, finalmente nossos olhos se encontram, estou tentando entender o que está acontecendo, mas a sua proximidade dificulta meu raciocínio. — Você fica lindo vermelho. — Diz suavemente. Isso é um sonho, muito, muito real… Não seria a primeira vez! Mas está muito detalhado para ser um sonho… — Não flerte com outras pessoas, não pegue na mão de outras pessoas, não beije outras pessoas, não convide outras pessoas para o seu apartamento… — Nilo pede com seriedade. — Faça essas coisas… Comigo. — Pede, reforçando a palavra “comigo” num tom grave e profundo. Han? — Han? — É o único som que sai da minha boca. Nilo não diz mais nada, apenas remove qualquer distância entre nós, trazendo seus lábios contra os meus. Eu não me afasto e nem quero me afastar, estou atordoado e me derretendo contra sua boca, fecho os olhos, levo as mãos até sua nuca, querendo mais e me deixo levar pela sensação maravilhosa que seu beijo me causa.
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