— Deixa eu ver se entendi… — Nando diz, sua voz cautelosa. — Você conversou com esse cara no chão do banheiro, na festa da unificação, a qual você me abandonou sem falar nada. — Dou um sorriso amarelo. — Rolou uma parada, um “tchan” ou sei lá… Dormiu com ele, mas ele não se lembra de nada, te evitou por umas… Duas semanas? — Afirmo. — Ok, então você tem a brilhante ideia de beijar ele, do nada, no meio da rua! Porque ele disse, sem mencionar seu nome, que você foi o cara mais bonito que ele já beijou.
— Exatamente.
— Ele ficou assustado, você não falou nada, foi embora e agora você não sabe o que fazer? — Nando conclui.
— É. — Respondo, comprimindo os lábios nervosamente.
Pedir conselho para meu tio não funcionou, então apelei para meu melhor amigo.
Nando, ou Fernando, é o único cara que eu poria a mão no fogo. Nos conhecemos desde… Sempre. Não estou exagerando, nossos pais se conheciam na faculdade, se tornaram vizinhos e crescemos juntos como irmãos.
Tem uma foto das nossas mães com barriga de grávida provando que, antes mesmo de nascermos, estaríamos sempre na vida um do outro.
As coisas continuaram assim, mesmo quando meu pai se mudou para Itália, com intenção de trabalhar como professor. Nando esteve do meu lado, me deu apoio no pior momento da minha vida e sempre serei grato por isso.
Nando é um cara muito gente boa, faz curso de medicina e sempre que tem tempo vem me ver no bloco de humanas. É uns bons centímetros mais baixo que eu, a testa dele bate na altura do meu peito, tem olhos castanhos pequenos, cabelo curto e preto num degradê com risco na lateral, piercing na sobrancelha, que fez no mesmo lugar que a minha tatuagem. Tem um corpo forte, mas não rasgado, aquele tipo forte com pancinha, mas nada que ele se incomode em ter, na real, sempre diz que é isso que atrai a mulherada.
O que realmente atrai é sua personalidade, é impossível odiar Nando, pode tentar, mas ele vai ser tão legal com você que nem dará chance para isso.
— Te dar a mesma resposta que cê me deu com a garota que tô saindo… — Diz com um sorriso de canto. — Deixa de ser bundão e chama ele pra sair!
— Você não me ouviu? Ele já me rejeitou!
— Não, Nilo, você beijou ele e ele não disse nada! — Nando diz rindo, eu ia falar, mas ele continuou. — Se tá se referindo ao dia que cê devolveu o isqueiro, ele com certeza foi b****a porque, como você mesmo disse, ele tava atrasado pro trabalho, ou você foi muito incisivo, sei lá. — Ele balança a cabeça. — Você sempre faz algo assim… Meu Deus, cê arrancou um beijo do menino no meio da rua! Queria que ele dissesse o quê? “Ah, agora que você me beijou, eu quero você, preciso de você”… — Força uma voz grossa, nem um pouco parecida com a do Cláudio, e termina fazendo barulho de beijo.
— Para com essa p***a! — Peço irritado, enfiando a mão na cara dele e empurrando para trás, o fazendo rir mais.
— Uma conversa resolve tudo… Eu não entendo, você geralmente não age assim.
Ele tem razão, eu não sou assim. Eu sempre sei o que fazer, o que falar e como agir. É sempre fácil, simples, rápido… E maçante.
Repetitivo e igual.
Essa é uma situação que nunca passei, me faz pensar nas minhas ações e fico preocupado com a reação dele, na verdade, Gris nunca tem a reação que espero.
Suspiro e me ajeito no banco do corredor.
— Não sei… É diferente. — Murmuro sem muita certeza. — Ele me disse coisas que me fizeram pensar… Agora o vejo de longe, falando com a Vanessa e com a outra amiga dele lá, ele age de forma tão solta… — Suspiro, cansado. — Mas, comigo, ele é tão… Frio e contido.
Lembro de como me abraçou naquela noite, se acomodou em mim para dormir, o calor do seu corpo contra o meu era…
— Você reclama quando as pessoas são muito grudentas, agora reclama quando ficam na delas… — Nando comenta, me tirando dos meus pensamentos.
— Não, reclamo de pessoas que só querem ficar perto de mim pela minha aparência ou pra chamar atenção. — Corrijo ele. — Gris não parece dar a mínima pra isso.
— Tá aí, a sua resposta. — Nando estala os dedos. — Em vez de ficar agindo como se ele fosse cair aos seus pés, recorra à sua personalidade. — Diz com humor.
Não é um conselho r**m…
— Cláudio tá vindo com a Vane. — Ele me dá uma cotovelada leve.
Me viro e os vejo andando pelo corredor na nossa direção, me preparo para a possibilidade dele me ignorar completamente.
Gris tem um casaco cinza amarrado à cintura, o mesmo que usou alguns dias atrás, quando roubei um beijo.
— Oi, tudo bom? — Vanessa nos cumprimenta.
— Bom dia. — Gris diz educadamente.
Seu olhar vem até mim, sorri de leve e faz um gesto discreto com o queixo. Ergo as sobrancelhas surpreso, lanço um sorriso de canto de volta, ele desvia o olhar, recolhe os lábios e noto seu rosto ficar um pouco corado.
Isso é um bom sinal, né?
— A aula já começou? — Vanessa perguntou olhando para o interior da sala, onde tem alguns alunos.
— Ainda não, professor tá atrasado. — Respondo.
— Bom, vou entrar então. — Então se vira para o Gris. — Nos vemos depois?
— Claro. — Percebo seu olhar cair em mim por um momento, mas desvia de novo. — Até.
— Tchau, tchau. — Vane diz com seu sorriso enorme e entra na sala.
Gris se afasta, olho para ele se distanciando, quando vira no final do corredor o vejo dar uma olhada na minha direção. Outro sorriso discreto e então ele desaparece.
Eu chamaria isso de evolução.
— Ele não pareceu incomodado com você. — Nando comenta.
— É, acho que não… — Murmuro com um sorriso involuntário.
Isso se repetiu algumas vezes, ele me via no corredor, sorria e acenava discretamente. Tinha momentos que eu não notava, ou demorava demais para notar e ele já tinha se afastado, mas essa sua pequena atitude me fez dar ainda mais atenção a ele, pois sentia que se eu não olhasse atentamente, perderia um detalhe importante.
*
Andando pelo corredor, em direção à biblioteca, uma mão me puxa para uma sala vazia, logo lábios atacam minha boca, me surpreendendo.
— Oi, senti sua falta… — Marta sussurra contra minha boca.
Afasto ela e a olho por um momento.
— Qual foi a última vez que você comeu? — Pergunto, reparando que suas clavículas estão mais aparentes que o normal.
Marta estremece com a minha pergunta, mas logo força um sorriso e dá de ombros.
— Fale menos e beije mais! — Novamente ela ataca minha boca.
A afasto de novo.
— Marta…
Ela revira os olhos irritada.
— Nossa, Nilo, eu só quero dar uma relaxada antes da próxima aula! Eu tô bem! — Ela bufou frustrada. — E desde quando você se importa com o meu peso?
— Eu não ligo pro seu peso, só perguntei…
— f**a-se! — Marta pega sua bolsa e saí da sala. — Quando voltar ao normal, me avise!
Bate a porta da sala ao fechar, me deixando sozinho com meus pensamentos. Não sou i****a, Marta claramente não está comendo direito, os sinais são claros, será que ninguém além de mim notou? Seus pais? Seus amigos?
Talvez apenas eu tenha notado por que já passei por isso?
Um calafrio passeia pelo meu corpo, lembranças intrusivas ameaçam vir até mim, mas as afasto imediatamente.
Não pense nisso, por favor não…
*
Indo para o refeitório, Gris está numa mesa mexendo no seu computador, enquanto Vanessa e a amiga gótica deles, que descobri se chamar Roberta, estão conversando animadamente do seu lado. Me aproximo e Vane logo me cumprimenta, noto Gris levantar o olhar do seu computador para mim, ele sorri em minha direção, me sinto um pouco desconcertado, sem saber o que fazer, me viro para Vanessa e dou atenção a ela.
Roberta me olha com curiosidade, seu olhar vai de mim para Vanessa, mas não diz nada.
— Anda falando com a j**k? — Vanessa pergunta indiferente.
— Não, do pessoal só ando falando com o Lipe e a Marta… Às vezes. — Falo, lembrando do rápido encontro que tivemos ontem na sala. — As coisas ficaram estranhas depois que Gris jogou café na j**k pra te defender. — Respondo, olhando de canto para ele, que parece completamente alheio a nossa conversa.
— Ih. — Roberta solta. — Mas isso rolou faz tempo, sinceramente queria ter estado lá para ver isso…
— Você teria adorado. — Falo sorrindo. — Ele foi incrível sinceramente.
Gris não demonstra nenhuma reação.
— Estranhas como? — Vanessa pergunta.
— Bom, o pessoal do curso meio que se dividiu, uns ficaram do lado da j**k, outros do seu. — Explico. — Estão fazendo um drama por nada, parecem um bando de adolescentes.
— Eles saem do ensino médio, mas o ensino médio não sai deles. — Roberta comentou, me fazendo rir.
— Isso define muito bem a situação. — Digo, recebendo um sorriso dela.
— Não tem lado nenhum. — Vanessa revira os olhos. — j**k quer sair nisso como vítima e me culpar, mas a culpa é do Pablo, incrível como continuam namorando…
— Ah, falando em ensino médio, você já confirmou se vai no reencontro? — Roberta pergunta para Vanessa.
— Já, acho que todo mundo confirmou, menos o Cláu. — Vanessa se vira para o Gris, que está com os lábios entreabertos, completamente imerso no seu computador. — Você vai?
Ele não respondeu.
— Ele tá no mundinho dele… — Roberta murmura rindo.
Observo Gris com atenção, imaginando como seria esse mundinho em que ele se perde com tanta facilidade, no fundo, querendo fazer parte.
— Cláudio. — Vane chama novamente. — Cláu!
— Hum? — Murmurou, erguendo o olhar para ela.
— Você não me respondeu. — Ela diz de forma séria.
— Não ouvi. — Um sorriso envergonhado surge no seu rosto. — Fala.
Vanessa conta sobre o reencontro que vai acontecer num tal sítio “Amor Eterno”, o qual Gris não está nem um pouco interessado, mas parece que ela conhece as palavras certas para convencê-lo a ir.
— … Todo mundo vai estar lá! — Ela implora.
Gris muda sua expressão imediatamente, seus lábios estremeceram, noto Roberta olhando para ele com preocupação.
O que será que ele tá pensando?
As palavras dele no chão do banheiro daquele boteco naquela noite imediatamente vem à mente.
— A pessoa que mais amei na vida… Entrou num avião para nunca mais voltar… Pra mim… E me disse… Que não me queria mais… Não sou capaz… De fazer ninguém feliz.
Gris… Você tá pensando nessa pessoa?
— Todo mundo quem? — Pergunta, com falso ar de indiferença.
Vanessa olha seu celular, conferindo uma lista de presença num grupo do w******p, Gris, por sua vez, saca um cigarro e o acende, Vanessa o olha com irritação.
— Você vai morrer assim…
— Deus te ouça… — Gris murmura durante uma tragada.
Outra lembrança me vem à mente.
— Se eu sumisse… Ninguém iria notar. — Sua voz triste e enrolada daquela noite vibra em minha mente.
Nossos olhos se encontram, por um momento, só por um momento, considero em dizer em voz alta o que pensei naquela noite quando me disse isso.
Eu notaria.
Meu ar parece ter sido roubado, por que estou me importando tanto?
— Todo mundo que estudou na nossa sala confirmou… Vai ter várias pessoas de outros anos também… — Vanessa olha para seu celular. — Falta só você.
Gris estica o braço e pega o celular da mão dela, olha a tela, passa o dedo algumas vezes, como se procurando algo e o vejo estremecer. Seu cigarro balança em seus lábios, lembrando de algo, Roberta ainda o olha com aquele ar preocupado.
A fumaça do cigarro sai pelo seu nariz, o deixando com um ar melancólico, o cheiro não é tão forte, mas parece deixar uma presença só dele no ar.
Ele devolve o celular, age de forma descontraída, confirma sua presença, enfia a mão no bolso, pega o seu isqueiro e o observa atentamente. Sua expressão endureceu, algo r**m passando em sua mente, algo doloroso.
Qual o significado desse isqueiro pra você?
Vanessa e Roberta estão distraídas, então aponto para a testa do Gris e chamo sua atenção.
— Parece que tem muita coisa acontecendo aqui…
Ele sorri, um sorriso que me quebra, não esperava essa reação, não esperava ter essa reação.
— Devia ver o que tá acontecendo no meu coração… — Sua voz é doce, mas as palavras têm um gosto amargo.
Sua resposta sincera me deixou feliz, era como se ele estivesse revelando, mesmo que bem pouco, um lado dele que não mostrava para qualquer um.
Me inclino em sua direção, dou uma rápida olhada para as meninas, não quero que elas ouçam o que tenho a dizer apenas para ele.
Meus olhos estão nos seus.
— Incrível como você nunca deixa de me surpreender… — Sussurro.
O vejo erguer as sobrancelhas e franzir o cenho, não concordando comigo.
— Lhe-garanto… — Gris responde com outro sussurro. — Eu sou a pessoa mais tediosa que você poderia conhecer na sua vida.
Aconteceu de novo, dei um passo na sua direção e ele deu dois para trás. Quero dizer que, em quase dois meses, pensei nele muito mais do que conseguiria pensar se fosse uma pessoa tediosa.
Mas será mais um passo em sua direção e dois para trás.
Lembro do que o Nando me disse alguns dias atrás.
— … Você foi muito incisivo, sei lá… Você sempre faz algo assim…
Cautela.
*
— Fiquei exausta! — Vanessa suspira após sairmos da sala de prova.
— Acabou, agora curtir as férias… — Falo me espreguiçando.
Vanessa encosta na parede, parece pensativa.
— Nilo, me responda com sinceridade… — Vanessa não olha para mim. — Pareço alguém que só quer chamar atenção?
Reviro os olhos.
— Sabe, Vane, uma coisa que aprendi com a vida. — Digo enfiando as mãos no bolso. — As pessoas falam pelas costas dos outros, porque quando falam de si mesmas ninguém as escuta.
Ela arregala os olhos e começa a rir.
— Obrigada, você… É um cara legal. — Ela dá de ombros. — Nada o que dizem sobre você é verdade.
Sorrio para ela.
— Digo o mesmo de você. — Com o canto do olho, percebo Gris no fim do corredor.
Seu semblante está bem cansado, parece que não dormiu bem, está um pouco pálido, mas é difícil ter certeza com seu tom de pele. Seus olhos azuis estão semicerrados, por um momento penso que está irritado, mas noto seus óculos na sua mão. Ele fecha os olhos com força, aperta o indicador e o polegar entre as sobrancelhas.
O que ele tem? Tá passando m*l?
Tomás, um cara que está saindo com a Vanessa, vem na nossa direção. Ele é baixinho, cabelo preto num corte raspado, pele um pouco mais escura que a do Gris, olhos verdes, se veste como um riquinho mimado, mas é um cara bem de boa.
Ele acena para Vanessa, que sorri de volta e vai até ele, dá um beijo no seu rosto, entrelaça o braço no dele, acena para mim e vai na direção do Gris. Ela o cumprimenta, conversam e noto o esforço do Gris para manter o sorriso no rosto, eles se despedem e Gris vem em minha direção, agora usando óculos.
Como sempre, ao me ver, sorri e acena discretamente para mim, aceno de volta e começo a andar do seu lado.
— Você tá bem? — Pergunto, preocupado.
Gris me encara, estranhando minha ação.
— Enxaqueca… — Murmurou, cansado.
Coloco a mão no seu ombro, parando ele rapidamente, que novamente me olha com estranheza. Não é difícil reconhecer os sinais: mau-humor, palidez, apatia, dor de cabeça, cansaço…
— Você comeu alguma coisa hoje? — Tento ser cuidadoso.
Ele bufa incomodado, por um momento penso que irá me afastar como Marta fez ou apenas desconversar, mas não, parece se esforçar para pensar antes de responder minha pergunta.
— Não… Saí de casa com pressa e tô sem tempo pra almoçar. — Responde dando de ombros.
Fico tenso com sua indiferença.
— Cê vai passar m*l assim… — Falo preocupado.
— Tô de boa. — Gris me interrompe e afasta minha mão delicadamente do seu ombro. — Tenho que ir.
E vai embora, mas não consigo deixar de me preocupar.
*
Chegando na cafeteria, do lado de fora tem vários alunos de vários cursos conversando e segurando seus copos com café, cappuccino, frappuccino, smoothies e outras bebidas. Quando passo, a maioria me olha e me cumprimenta, quando entro na cafeteria, vejo Gris dirigir seu olhar cansado por trás do óculos para mim, mas logo se voltam para a Ana, uma garota insuportável do curso de odontologia, com quem fiquei algumas vezes. Várias pessoas preenchem as mesas, alguns me olham e cochicham, outros me cumprimentam.
— Nilo! Como foi na prova? — Pergunta um cara que nem sei o nome.
— Foi de boa, a gente se vê. — Falo e vou até a fila.
Juliana, uma garota que também já fiquei, me vê e sorri.
— Oi, Nilo, quer passar na minha frente? — Ela pergunta com um sorriso doce.
— Ah, obrigado. — Agradeço e passo na sua frente.
Ouço a voz enjoada de Ana reclamando com Gris
— Olha, eu tô de dieta, não posso comer algo tão açucarado assim. — Ana fala irritada.
Gris parece fazer um esforço sobre-humano para manter a calma.
— Garanto, é apenas caramelo.
Com irritação, me inclino e bebo a bebida dela pelo canudinho rosa, ela me olha surpresa, mas sorri quando nota que sou eu.
— Nilo! Para com isso! — Diz com um tom totalmente diferente do que usava com Gris.
Olho para o Gris, que me observa curioso.
— Bom, Ana, isso é claramente caramelo. — Digo irritado, mas sorrio para ele.
Os cantos da boca do Gris sobem por um instante, seus olhos azuis cansados parecem dizer algo que não sou capaz de identificar.
Ana fala alguma coisa que não escuto, se afasta e posso finalmente conversar com ele.
— Comeu alguma coisa? — Pergunto, preocupado.
— Eu vou, daqui a uma horinha… — Ele suspira, parecendo desconfortável. — Então, o que vai pedir?
Recolho os lábios, não pensei muito no que fazer ao entrar na fila, na verdade, não pensei muito no que fazer quando vim até a cafeteria.
Meus olhos vão para os bolos expostos no balcão e uma ideia surge na minha mente.
— Qual é seu sabor preferido?
Ele franze o cenho e ajeita os óculos.
— Pra que você quer saber? — Gris pergunta de volta, sem entender.
— Quero uma sugestão.
Ele dá de ombros.
— A torta de limão daqui é maravilhosa. — Um sorriso forçado surge em seu rosto, algo que me irrita.
— Você gosta desse sabor? — Pergunto com mais irritação do que queria demonstrar.
Uma risada espontânea passa pelos seus lábios, uma reação que me aquece, mas logo se contém ao olhar a fila atrás de mim
— Sim, é meu sabor favorito. — Murmura, tem sinceridade.
— Quero duas fatias, uma pra viagem e uma pra comer aqui. — Peço.
Ele faz todo o processo do pagamento, depois põe uma fatia num prato e outra numa embalagem de plástico, me entrega a nota, coloca as fatias no balcão, pego apenas a fatia com embalagem, aponto para a torta num prato e digo:
— Essa é sua, aproveite. — Rapidamente me afasto, sentindo um calor subir pelo meu rosto.
Do lado de fora, meu constrangimento é palpável, não pensei muito no porquê fiz isso, estava preocupado com ele e tomei uma atitude por impulso. Mas sinto que fiz a coisa certa, vou em direção ao prédio onde moro com um sorriso i****a no rosto, entro no meu apartamento, vou na cozinha, pego um garfo, abro a embalagem e começo a comer a fatia de torta que comprei.
É realmente muito boa…