Capítulo 8: Vídeo.

2484 Words
Estou pagando meus pecados, não só dessa vida, mas de vidas anteriores. Numa vida passada devo ter negado comida a órfãos ou roubado dinheiro de dízimo da igreja, só isso poderia explicar o que está acontecendo comigo. Tem um vídeo meu, no fórum da faculdade, levando café gelado na cara… Deus, me leve agora, seu filho está pronto. Descobri isso recebendo gifs e alguns TikToks de alguns colegas do meu curso, mostrando o momento em que o café atinge meu rosto, em looping. Tom perguntou o que aconteceu, pois o que diziam nos comentários da postagem no fórum não faziam sentido algum. Engoli em seco enquanto acessava o site. Um conselho: nunca leia os comentários de um vídeo seu. Nunca. Todos eram anônimos, alguns estavam rindo da minha situação, outros me acusavam de defender a “p**a da j**k”; a maioria dizia que merecia, pois um ninguém como eu deveria ser posto no meu “lugar”. Não precisa ser um gênio para notar que boa parte desses comentários eram de alunos ricos e mimados, qualquer pessoa com o mínimo de noção sobre a vida real jamais escreveria “colocou esse m***a no lugar dele!” Nem todos os comentários eram assim, tinha uma minoria me defendendo, dizendo que falei a verdade e que Pablo apenas era i****a demais para argumentar de volta. Incrível que parecia ter uma legião monitorando esses comentários específicos, já que sempre tinha alguém respondendo, acusando de inveja ou de hipocrisia, já que eu mesmo joguei café na cara de quem eu supostamente estava defendendo. Não tá completamente errado… No final das contas, acho que recebi o que mereci: carma de café. Ao rever o vídeo, pois amo me torturar, noto que o vídeo começou a ser gravado um pouco antes de eu chegar ao caixa, como se já estivesse prevendo o que ocorreria. O ângulo também parecia indicar alguém sentado perto do conflito. Penso um pouco, mas não consigo me lembrar dos clientes daquele dia, estava muito focado em dizer minha opinião não solicitada para olhar ao redor e reparar se tinha alguém filmando. Merda, tudo culpa da minha boca grande. Já fiz uma reclamação ao site, dizendo que estavam usando minha imagem sem consentimento, recebi a resposta em menos de cinco minutos. “Analisaremos sua reclamação no prazo de 14 dias úteis, responderemos com um e-mail, caso após o prazo você não receba uma resposta, por favor vá ao centro de informática da faculdade.” Praticamente olharam meu problema e cagaram pra mim. Claro, minha situação teve um retorno positivo na cafeteria, recebemos muito mais clientes pedindo café gelado, que sempre sorriam para mim, esperando minha reação. Hilário. Alguns dias depois, Vane e Rô vieram me ver no trabalho, tomar um cafezinho e rir da minha cara. Amizade verdadeira é tudo. — E por que você foi brigar com o Pablo? — Vane perguntou no meio de uma gargalhada. Como sempre, vestia uma roupa em tons verde e bem feminina. — Eu não briguei com ninguém, ele apenas não soube argumentar com o que eu disse… — Me justifiquei. Peguei um pano e comecei a limpar o balcão, a cafeteria estava num movimento fraco, tirando algumas pessoas da faculdade bebendo café gelado, olhando para mim com desdém e cochichando. Isso estava se tornando frequente ao longo dos dias… Acenei para eles, que desviaram o olhar na hora. Covardes. — Alguma hora alguém falaria umas verdades na cara dele. — Roberta tem um sorriso travesso. — Pena que esse alguém foi você. Rô usava suas típicas roupas pretas e maquiagem pesada mesmo fazendo um calor absurdo. — Azar o meu… — Murmuro irritado, colocando o pano na pia atrás de mim. — Sabe quem filmou? — Mateus pergunta ao lado dela. Mateus, namorado da Roberta, é alto, tem cabelo castanho espetado e olhos escuros, mais magro que eu, quase da minha altura, sempre usando uma camisa diferente do “Star Wars”, poderíamos ser grandes amigos se a Rô parasse de o monopolizar. — Não e não vão tirar o vídeo do ar… Pelo menos não nos próximos dez dias úteis. — Falei com mais irritação. O sininho da porta abre, uma garota muito parecida com a Jackeline entra na loja, ela olha para mim e acena. Franzo o cenho e semicerro os olhos, minhas lentes de contato devem estar ruins… Não pode ser a… — … Jackeline? — Pergunto incrédulo. — Boa tarde. — Me cumprimenta. — Desculpa o atraso. Eu estava incrédulo. Seu cabelo preto estava num corte bem curto, mas muito feminino, suas sobrancelhas, geralmente finas, estavam um pouco mais grossas, mas não por algum tipo de maquiagem, estavam de forma natural. Falando em maquiagem, usava bem pouco dessa vez, apenas base, rímel, pouco blush — sem ser no estilo chinelada nas bochechas — e um batom bem suave. Seus brincos eram pequenos diamantes rosas, usava uma blusa justa num rosa clarinho, um short preto social e sapatilhas, parecia uma pessoa totalmente diferente. Meu queixo estava no chão. Linda. — O que foi? — Perguntou, desviando o olhar constrangida. Devia estar encarando de um jeito estranho. — Foi m*l… — Desviei o olhar envergonhado. — Nossa… — Vane murmura com um sorriso leve de aprovação. Alguns dias antes, depois do incidente do café jogado na minha cara, Jackeline pediu desculpas a Vane sobre os boatos de ter flertado com Pablo. De início, a ruiva não levou muito a sério, mesmo assim aceitou o pedido de desculpas. Vane não era do tipo que guardava rancor, não se engane, ela perdoa mas não confiará de novo, então claro que não voltaram a ser grandes amigas. Vanessa parece, aos poucos, notar melhorias na personalidade da Jackeline, mas já deixou claro que não vão mais ser amigas, não a culpo sinceramente. — p**a que pariu… — Rô murmura incrédula enquanto a olha de cima a baixo. — Quem é ela? — Mateus pergunta, totalmente perdido. — Ficou estranho? — Jackeline pergunta, levando a mão ao cabelo. — Achei que seria bom mudar… — Tu parece uma princesa. — Falo sem pensar. Todos olham para mim, ela arregala os olhos para mim, sinto meu rosto queimar. Por que eu sou assim? Por que eu sempre falo a pior coisa…? — Obrigada. — Jackeline diz, interrompendo meus devaneios, Ela dá a volta no balcão, vai para os fundos da loja, volta com seu avental e sorri para mim, me fazendo sentir aliviado por não caçoar do que eu disse. — Hum… Sobre o vídeo… — Jackeline diz sem jeito. — Desculpa. — Não é culpa sua. — Dou de ombros. — Acho que mereci, afinal até pouco tempo fui eu que joguei café em você. Jackeline dá uma risada baixa, pigarreia e desvia o olhar. — Bom, eu… — Ela respirou fundo, nervosa, e continuou. — Descobri que Pablo veio aqui com intenção de me humilhar e gravar tudo… Ergo as sobrancelhas sem acreditar. Na verdade não, eu acredito sim, o vídeo começa no momento em que Pablo pede café gelado para Jackeline, como se estivesse esperando o momento… — Sério? — Roberta diz. — Que m***a! — Pois é. — Jackeline diz envergonhada, se vira para mim sem jeito. — Aquele café deveria ter sido jogado em mim, devia ser eu no vídeo, não você. Meu sangue ferve. — c*****o, que infantil da parte dele! Vou m***r aquele desgraçado… — Murmuro puto, balancei a cabeça e levei a mão ao rosto. — Não tá bravo comigo? — Jackeline pergunta nervosa. Todos a olhamos confusos. — Por que ele ficaria bravo com você? — Vane pergunta unindo as sobrancelhas. — Você jogou o café em mim por acaso? — Pergunto com sarcasmo. — Porque, pelo que me lembro foi seu ex… — Não… Mas… — Jackeline tenta explicar, mas logo desiste. — Agora tudo faz sentido! Aposto que os comentários anônimos são dos coleguinhas de medicina dele! — Roberta diz irritada. — A gente tem que fazer alguma coisa! — Não adianta fazer nada, isso vai passar. — Respondo dando de ombros, deixando a raiva passar. — Já fiz a minha parte em pedir para tirar o vídeo, logo, logo, esquecem de mim… Como sempre. — Você é muito passivo… — Rô murmura m*l-humorada. — Na verdade eu sou ativo, mas às vezes gosto de variar. — Sorrio, sem vergonha nenhuma. Antes que Roberta pudesse responder minha provocação, o sininho da porta toca e Nilo entra apressadamente com o celular na mão, parece agitado. — Você viu o fórum hoje? — Pergunta vindo para o balcão. — Não… Por quê? Mais comentários maldosos? — Suspiro, cansado. Só quero que isso acabe… — Não, é sobre o Pablo. — Nilo diz com um sorriso. Han? Arregalo os olhos, pego meu telefone, abro o fórum acadêmico e vejo um vídeo recente na timeline, Pablo aparece no frame do vídeo. Meus amigos se reúnem ao meu redor, vemos Pablo num bar, bebendo com outros caras, provavelmente amigos do curso de medicina, ele está rindo bastante. — Não… Pior que o café nem era pra aquele viadinho! — A voz de Pablo está embriagada e bastante feliz. — Quem deveria levar era aquela p**a! Aprender a me respeitar! Noto Jackeline recolher os lábios nervosamente ao meu lado. — O que vai fazer agora? — Pergunta alguém fora do vídeo. — Vou atrás dela… Encher ela de p*****a! — Pablo grita rindo. Jackeline estremece do meu lado, leva a mão à boca e seus olhos mostram medo. — Assim aprende quem é quem manda! — Ele continua gritando. — Primeiro… Tenta terminar comigo… Depois fode outro?! — Pablo bebe um gole na cerveja e dá de ombros. — Tudo isso porque traí ela? Eu sou homem… p***a! Os olhos de Jackeline começam a marejar. — Não seria a primeira vez que bato nela… Ela nunca aprende… — O vídeo acaba. Silêncio rodeia nosso pequeno grupo, olho para Jackeline, que está de cabeça baixa, tremendo. O único que não olhou para ela foi Nilo, que sorria para mim. — Tão caindo em cima dele agora! — Nilo diz animado. — Estão dizendo que você… Não ouvi o resto, coloquei as mãos nos ombros dela e a levei para os fundos. Márcia pergunta se está tudo bem quando passamos por ela, a peço para ficar no caixa por alguns minutos, antes de dar chance para alguma pergunta, levo Jackeline para a sala de descanso dos funcionários. Ao fechar a porta, ela se desmanchou em lágrimas, caiu numa cadeira e levou as mãos ao rosto. Puxo uma cadeira e sento do seu lado. — Tudo bem… Pode chorar… Ficamos assim por alguns minutos, ela levanta os olhos borrados de rímel para mim. — Eu… Não queria que ninguém soubesse… — Seus olhos vão para suas mãos, que tremiam. — Tô morrendo de vergonha… — Ei, ei, não tem que sentir vergonha. — Falo levantando a mão até seu ombro, ela estremeceu olhando minha mão com medo, paro e recolho a mão. — Pablo é um m***a, ele quem tem que sentir vergonha. Jackeline balança a cabeça. — Tentei… Me afastar depois da primeira vez que ele… — Ela funga, pego um pacote de guardanapo em cima da mesa e entrego a ela. — Obrigada. — Assoa o nariz e respira fundo. — Mas ele não aceitou, me deu flores… Presentes… Disse que nunca mais faria isso… — Entendo. — Murmuro calmamente. — Não… Ninguém entende… — Ela suspira. — Eu pensei… — Pensou que ele amava você. — Jackeline levanta os olhos para mim. — Que a culpa era sua pelo que ele fez, porque disse que você fez ou deixou de fazer algo sendo obrigado a agir dessa forma. — Respiro fundo. — Nas palavras dele, a culpa era sua pelo temperamento dele, você o provocava, por que alguém que diz que te ama não pode te bater à toa, né? A culpa tem que ser sua, né? — Balanço a cabeça negando. — Te contar um segredo: a culpa nunca foi sua. Ela arregala os olhos para mim. — Você…? — Pois é. — Quem…? — Minha mãe. — Minha voz falha. — Sabe, ela agia da mesma forma, primeiro batia depois beijava o lugar que bateu… Nunca encostou um dedo na minha irmã, então achei que o problema fosse eu. — Cocei a nuca. — Tem pessoas que não sabem amar. — Dei uma risada triste. — Diria que não sei ser amado. E nem mereço ser. Não sou capaz de encará-la, esse é o tipo de coisa que não se deve dizer em voz alta, se não as pessoas à sua volta mudam o jeito que te veem. Como aconteceu com Gael… — Tirando minha irmã e outra pessoa, você é a única que sabe… — Respirei fundo, ainda sem a encarar. — Então… Vamos dizer que esse é um segredo nosso. Vejo sua mão segurar a minha, levanto os olhos para ela surpreso, seu rosto não possui pena ou dó, tem empatia, compaixão e… Afeto? — Vou guardar seu segredo. — Segurando minha mão com firmeza. Sorrio para ela, meu coração bate aliviado. — Quer ir pra casa? Ela negou com a cabeça. — Não, me sinto melhor já. — Jackeline pega outro guardanapo da mesa e tenta limpar seu rímel borrado às cegas. — Tá muito r**m? Ela espalhou mais. — Parece um panda. Jackeline me lança um olhar irritado. — Para de rir, seu bosta… — Murmura. Isso me faz rir, ela me dá um t**a suave no braço, tentando parecer brava, mas percebo que está tentando conter um sorriso. Levo minha mão até o guardanapo que segura, levanto até seu rosto, paro no meio do caminho, lembrando de como reagiu quando tentei tocar seu ombro. — Posso? Jackeline me encara por um momento, depois confirma com a cabeça; devagar, limpo seus olhos, que me encararam com atenção, me deixando inquieto. Sensação estranha. — Bem melhor agora. — Digo ao terminar. — Se quiser ficar aqui mais um pouco não tem problema. — Me levanto e ouço um barulho do lado de fora da sala. Meu coração para, vou até a porta e abro com tudo, mas não tem ninguém. — Você… Ouviu um barulho? — Pergunto nervosamente. — Não, por quê? Respiro aliviado. Devo estar ouvindo coisas. — Por nada, enfim… Descanse. — Fecho a porta atrás de mim. Volto para o balcão, explico resumidamente para Márcia que Jackeline está com um problema pessoal, que logo voltará para o trabalho, minha compreensível gerente apenas confirma e volta para a cozinha, quando me posiciono atrás do caixa vejo meus amigos preocupados. — j**k tá legal? — Vanessa pergunta. — Tá, só… Precisa de um momento. Noto que Nilo me olha estranhamente, faço um pequeno aceno com a cabeça em sua direção, que apenas sorri. Um sorriso forçado.
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