Sete, foi a quantidade de vezes que esbarrei no Nilo ao longo do mês, não na faculdade, no prédio em que moramos mesmo.
A primeira vez foi na escada, voltando da academia de manhã, antes da minha aula de escrita criativa. Nilo descia a escada e eu subia, paramos ao vermos um ao outro. Ele arregalou os olhos, eu recolhi os lábios. Desviei o olhar e continuei subindo, enquanto Nilo continuava me olhando surpreso.
Quando cheguei no meu andar vi que o elevador estava em manutenção.
Ok, isso quer dizer que quando estiver consertado não vou mais esbarrar nele, certo?
Estava errado.
Alguns dias depois, novamente na escada, esbarrei com ele enquanto descia para a aula e ele voltava de algum lugar.
— Bom dia. — Cumprimentei educadamente e passei por ele.
— Bom dia… — Respondeu quando eu já tinha descido dois lances de escada.
Na terceira vez foi na entrada do prédio, havia chegado da cafeteria e ele estava saindo, provavelmente, para o trabalho.
— Boa noite. — Ele cumprimentou dessa vez.
— Boa noite. — Respondi e entrei no prédio.
Isso se repetiu mais três vezes, a sétima foi a mais desastrosa.
Era noite e estava fazendo a janta, tudo em perfeita ordem enquanto recebia instruções detalhadas no telefone pela minha irmã, Letícia. Ela me guiava para fazer feijão, algo que eu tinha uma certa dificuldade em fazer.
Na verdade, qualquer coisa que envolva cozinha eu tenho dificuldade…
— Agora, quando a panela chiar, é pra abaixar o fogo. — Sua voz no telefone disse com calma.
— Ok… — Fechei a panela para deixar criar pressão. — Quanto tempo leva?
— Alguns minutos… — Respondeu, parecendo se distrair com algo. — Peraí, Cici! — Sua voz foi se distanciando do telefone.
Enquanto esperava ela voltar, ajeitei meus óculos e decidi adiantar o frango. Coloquei na panela, temperei, liguei o fogo, até aí tudo bem. O problema começou quando coloquei água no frango para cozinhar e esbarrei na panela de pressão, foi aí que começou o caos.
A panela caiu e espalhou feijão no chão.
— m***a! — Grito, pulando para trás.
Nesse pulo, derrubo a panela com frango, a carne caiu no chão.
— Não, não, não… — Comecei a murmurar desesperado, pegando a panela de frango.
Desligo o fogo e olho o estrago.
Graças a Deus, eu havia lavado o chão naquele dia, deu pra salvar a carne, mas a panela de pressão e o feijão foram com Deus.
— Voltei. — Disse Letícia pelo telefone.
— O feijão já era… E a panela de pressão também. — Falo no telefone, desolado.
— Mas eu só saí por cinco minutos… — Ela murmura do outro lado, incrédula.
Depois de cinco minutos com a Lê me dando bronca, ela desligou e decidi pedir um hambúrguer pelo aplicativo tentando conter um sorrisinho, fazer o que, né? Totalmente contra minha vontade…
Limpei, pela segunda vez, o chão da cozinha, quando terminei, decidi voltar minha atenção ao meu frango, comecei a cozinhá-lo pela segunda vez, para deixá-lo pronto na próxima vez que fosse comer. Quando estava quase pronto, a campainha tocou, corri para o quarto pegar minha carteira e depois fui atender a porta.
— Boa noite… — Quando vi o entregador minha voz morreu.
Nilo me olhou surpreso, franziu o cenho, olhou para o fim do corredor e depois voltou para mim.
— Você… — Começou, mas arregalou os olhos ao ver algo atrás de mim. — Fumaça!
Virei para trás e vi fumaça saindo da panela de frango, eu não havia desligado o fogo! Corri até o fogão, desliguei o fogo e olhei dentro da panela.
— Ah, adoro frango queimado… — Murmurei, mais desolado que antes.
Quando me volto para o Nilo, meus olhos rapidamente vão para o chão e vejo meu gato sair correndo porta afora por entre as pernas dele.
— NÃO! — Passo pelo Nilo, quase o empurrando e vou para o corredor. — GEZORA! — Olho para o elevador e o vejo entrar, as portas fecham com meu gato dentro. — p**a QUE ME PARIU! GATO i****a!
Corro até o elevador, vejo em que andar parará.
— Gris! Mas o que… ? — Ouço a voz do Nilo atrás de mim.
— Meu gato entrou no elevador! — Gritei por cima do ombro.
O elevador para no segundo andar, desço pelas escadas correndo, abri a porta do segundo andar com tudo, fazendo um barulho enorme, vejo Jackeline parada na frente do elevador, levando a mão ao peito, olhando assustada para mim.
— Você viu meu gato? — Pergunto, desesperado.
Ela semicerrou os olhos e uma expressão de ódio se formou em seu rosto.
— Você é o b****a que jogou café em mim! — Ela grita apontando para mim.
— Me erra! — Passo por ela, ignorando seu grito de raiva, e olho o corredor, Gezora está encolhido num canto, com as pupilas dilatadas de medo. — Ah, gato i****a… — Vou até ele e o pego no colo. — Não me assuste assim…
— Nilo! Oi… — A voz de Jackeline está doce e amorosa atrás de mim.
Me viro, percebo Nilo do lado de Jackeline, com falta de ar, segurando um par de chinelos pretos… Meus chinelos pretos.
— Você saiu correndo descalço. — Diz, ignorando j**k e vindo até mim. — Aqui.
Ele joga meus chinelos no chão a minha frente, os calço e olho para ele.
— Valeu. — Agradeço sem jeito, ajeitando meus óculos para disfarçar meu constrangimento.
Nilo nota meu gato e faz um carinho nele.
— E aí, gatinho… — Murmura enquanto Gezora fecha os olhinhos com o carinho. — Qual o nome dele?
— Gezora. — Respondo, observando ele ficar todo bobo com meu gato.
— Gezora… Tipo o vilão Godzilla? — Pergunta e levanta os olhos para mim.
— É! — Respondo rindo sem jeito.
Ouço um barulho de uma porta abrindo, nos viramos e um cara sem camisa sai de um dos apartamentos daquele andar, ele segura uma jaqueta rosa.
— j**k! Sua jaqueta… — Ele para ao nos ver. — Ih, oi Nilo, o que tá rolando?
— E aí Nando, tô trabalhando. — Nilo responde.
Nando me olha com curiosidade e sorri para mim, Jackeline vai até o Nando para pegar sua jaqueta.
— Valeu… — Ela agradeceu sem jeito.
Olho a cena confuso.
— Não sabia que tinha terminado com o Pablo. — Solto sem pensar.
Jackeline me lança um olhar fulminante.
— Pablo? — Nando pergunta, se virando para ela. — Quem é Pablo?
Ela fica nervosa com o tom acusatório e n**a com a cabeça.
— Terminei com ele, faz um tempo já… — Responde.
— Mas você tava de mãos dadas com ele hoje de… — Paro de falar quando a garota me lança outro olhar homicida.
— Que história é essa? — Nando pergunta cruzando os braços.
— Não é nada disso que você tá pensando… — Ela começa a se explicar.
Eu e Nilo nos entreolhamos, vamos em direção ao elevador, deixando Jackeline se resolver com Nando no corredor. Quando as portas se fecham, começamos a rir.
— Não, jogar café na cara dela não foi o bastante! — Balanço a cabeça enquanto ria. — Eu tinha que melar o esquema dela e fazê-la me odiar!
— Sinceramente, isso foi ótimo! — Nilo quase se engasga com sua risada. — Nando se livrou de uma boa!
Chegamos no nosso andar e fomos em direção ao meu apartamento.
— Aqui. — Nilo fala, me fazendo virar para ele. — Fechei seu apartamento e tranquei, as chaves. — Me entrega as chaves.
— Ah, obrigado. — Falo, sorrindo sem jeito.
Nilo me dá um sorriso diferente dos que já havia me dado, não era arrogante, ou forçado, nem sedutor, era genuíno.
Verdadeiro.
— Ah, ainda tem que pagar o hambúrguer… — Lembro, abrindo a porta.
Coloco meu gato no chão, que sai correndo para debaixo do sofá. Nilo pega a maquininha, pego a carteira que deixei no balcão, tiro meu cartão e coloco na maquininha. Efetuo o pagamento, ele guarda a maquininha e sorri para mim.
— Aproveite. — Nilo diz educadamente.
— Obrigado, tome cuidado no trabalho. — Falo e vejo seu olhar surpreso em mim.
Ele sorri, vai em direção ao elevador, fecho a porta, respiro fundo, encosto a testa na porta e começo a rir do caos que acabou de acontecer. Gezora mia atrás de mim querendo comida, olho para ele e ergo as sobrancelhas.
— Miau é o c****e. — Murmuro irritado. — Fugiu de mim, seu desgraçado…
Olhei novamente a panela de frango, dava para comer a carne, era só ignorar as partes queimadas… Suspirei, vi meu hambúrguer me esperando na mesa, liguei a televisão e pus no YouTube.
— O que veremos hoje…? — Pergunto a Gezora ao me sentar no sofá com meu hambúrguer na mão.
Ele mia para mim, como se respondendo.
— Análise de “creepypasta”? Gosto da ideia… — Murmuro colocando um vídeo qualquer.
Acho que nunca vivi tantas emoções em menos de vinte minutos…
A expressão surpresa de Nilo ao me ver abrindo a porta vem em minha mente, o jeito que me olhou preocupado por estar descalço, o olhar que deu para o meu gato no meu colo, aquele sorriso…
— Gezora… Tipo o vilão do Godzilla? — A voz profunda dele passeia pela minha mente.
Seu sorriso sincero e logo depois seu olhar surpresa no final, começo a rir e noto Gezora me olhando como se perguntando “qual é a graça?”
— Não tô rindo, você que tá… — Respondo, seu olhar questionador persiste.
Gezora deita a cabeça sobre suas patas e fecha os olhos, desistindo.
Sou um i****a…
*
Letícia veio ao meu apartamento no dia seguinte para me emprestar uma panela de pressão, acabou que também a usou para fazer feijão para mim, porque ficou com medo de eu estragá-la também.
O que não duvido que poderia acontecer.
— Aí, quando você comprar uma nova, você me devolve essa. — Diz na porta do meu apartamento.
Letícia e eu temos os mesmos olhos azuis, seu cabelo cacheado é mais escuro que o meu, cortado num corte curto, realçando sua maturidade. Do mesmo jeito que eu, ela possui olheiras, mas são menos profundas que as minhas, sua pele é um pouco mais escura que a minha, seu nariz é mais delicado e seus lábios mais finos que o meu.
Ela tem sua própria paleta de cores, como eu, que sempre uso cinza, preto ou branco, ela usa tons de vermelho, branco e rosa. Seu vestido branco com mangas curtas tem vários corações vermelhos, usa uma sapatilha rosa clarinha, maquiagem para disfarçar as olheiras, pequenos brincos de argola e uma bolsa vermelha de lado.
Existem semelhanças físicas entre nós, mas numa olhada rápida, poderiam dizer que ela nem minha irmã é.
Ela sabe ficar bonita quando quer…
— Quem é o sortudo? — Pergunto apoiado no batente e ajeitando os óculos.
— Um cara do Tinder, o nome dele é Nelson. — Diz já esperando meu comentário.
— Nelson? Quantos anos ele tem? Quarenta e cinco? — Provoco.
— Ele tem incríveis vinte e seis anos. — Responde na mesma entonação, revirando os olhos. — Me deseje sorte.
— Espero que ele seja normal. — Digo, dando um abraço de despedida.
Ouço o barulho de algo batendo, eu e Lê olhamos em direção ao barulho, que foi no fim do corredor.
— Que m***a foi essa? — Pergunta.
— Sei lá. — Falo, me voltando a ela. — Dá um beijo na Cicinha.
— Outro… — Responde, se encaminhando para o elevador.
Depois que a vejo as portas fecharem, volto para o interior do meu apartamento e descido almoçar para depois cair de cara no meu roteiro.
*
Já estava quase no fim, mas precisava de alguns ajustes e do final, assim poderia enviar para o meu professor de escrita criativa, acabando logo com esse trabalho. O prazo era para daqui a quatro dias, mas queria folgar para as férias do meio do ano logo.
Não vejo as horas passarem, estou tão focado que nem pego no meu celular para checar as mensagens, até esqueço de beber água, quando vejo que está tudo em ordem, me espreguiço e olho as horas, são quase onze da noite.
Ok, só preciso organizar o final e posso relaxar…
Sinto minha garganta seca, tiro os óculos, os ponho na mesa, me levanto para beber uma água e quando dou um passo para longe da mesa, bato o mindinho no pé da cadeira que estava sentado.
— Aí! — Grito e começo a pular num pé só com a mão no outro pé. — m***a! Cadeira i*****l do c*****o…
Ouço a campainha tocar, olho para a porta pensando ser uma alucinação auditiva.
Merda, é um Woodcrawler…
— Quem é? — Pergunto, ignorando a platéia imaginária que grita para eu não atender, porque sou burro demais para ver que estou num curta de terror de baixo orçamento algum youtuber metido a James Wan.
— Sou eu, o Nilo.
Franzo o cenho, vou até a porta mancando de leve e abro sem medo. Realmente é o Nilo, ele está com sua jaqueta de moto e com o capacete na mão.
— Tá tudo bem? — Pergunta, aquele tom de preocupação que me deixa tenso. — Tava passando e ouvi um barulho.
— Ah, a cadeira me atacou. — Falei dando de ombros. — Ela tá p**a comigo porque fiquei sentada nela por quase sete horas seguidas fazendo um trabalho…
Gezora começa a miar desesperado atrás de mim, me viro para ele e ergo as sobrancelhas.
— Cê tá com fome? — Ele mia mais. — Miau pra você também… — Falo e vou até a cozinha, pego sua ração e coloco no seu pires. — Pronto, come. — Ele me olha com seus olhos amarelos, esperando outra coisa. — Não, nada de petisco, anda… — Gezora mia em reclamação, mas começa a comer. — Isso…
Levanto meu olhar, Nilo fechou a porta e andou até o meio da minha sala, olhando a decoração com curiosidade.
— Você realmente gosta de cinza… — Comenta.
Bom, cortinas cinzas, sofá cinza, porta-retratos metálicos, tirando os móveis de madeira falsa e as paredes da sala, que são brancas, quase tudo que tenho é nessa cor.
— É uma cor bonita. — Digo voltando para a cadeira que tinha me atacado. — Me lembra o céu nublado, dias de chuva…
Seus olhos…
Paro imediatamente de falar, pego meus óculos e olho para o meu computador.
— Pode ficar a vontade. — Falo educadamente, coloco meus dedos de volta no teclado. — Só não vou poder te dar atenção agora, tô terminando um treco…
Um silêncio domina a sala por alguns segundos, ouço o barulho da cadeira do meu lado se arrastar, a presença do Nilo é forte, mas resisto a vontade de levantar meus olhos, estou ocupado dando um final triste na história de amor do meu roteiro.
— Você tá nisso a sete horas?
— Hum… Sim… — Murmuro sem olhar para ele.
— Você comeu alguma coisa? — Seu tom é de preocupação.
— Almocei… — Respondo, pensando na próxima fala do protagonista enquanto vê aquele que partiu seu coração ir embora de avião.
Logo ouço um barulho de cadeira se arrastando, depois a porta do meu apartamento abrir e fechar, levanto os olhos, Nilo sumiu.
Ah, ok…
Não é como se eu estivesse lhe dando atenção, de qualquer forma estou ocupado e está tarde. Dez minutos depois, Nilo volta com uma sacola, fico sem entender nada.
— Você gosta de massa? — Pergunta, passando por mim e indo até a cozinha.
— Han… Miojo serve? — Pergunto de volta, Nilo me lança um olhar bem irritado. — Sei lá, gosto?
— Tem alergia à alguma coisa? — Tira um pacote de macarrão fino da sacola.
— Amendoim. — Respondo, continua tirando mais algumas coisas da sacola, orégano, alho, pimenta, um pacote de queijo, molho branco pronto… — Você vai… Cozinhar pra mim?
— Vou. — Responde, abrindo um armário. — Onde tem uma panela que eu possa usar?
— O armário do lado desse… Peraí! — Balanço a cabeça, sem jeito e um sorriso nervoso brota no meu rosto. — Você não precisa cozinhar pra mim, eu tenho feijão pronto, arroz, só preciso esquentar o frango… Ou até pedir comida!
— Cala a boca e termina o que cê tá fazendo. — Diz firme enquanto enche a panela que pegou com água.
Estava ocupado demais para discutir, muito menos com um cara teimoso, apenas me voltei para meu roteiro. Levei mais alguns minutos e finalmente terminei, me espreguicei e ouvi a voz de Nilo pela bancada da cozinha.
— Cabou?
— Cabei… — Falo com a voz cansada, abaixando os braços e me ajeitando no lugar.
Surge uma mão na minha frente, tirando o computador de perto de mim e colocando um prato de macarrão na minha frente.
— Hum… Obrigado.
Ele pôs outro prato na frente dele e um pacote de queijo ralado na mesa.
— Aproveite. — Nilo diz com um sorriso orgulhoso no rosto.
Bom, por que não?
Pego o garfo, enrolo o macarrão, levo até a boca e o sabor explode na minha língua, o gosto é incrível, pego o queijo ralado, dou uma salpicada no meu prato e começo a devorar. Nilo come seu macarrão calmamente, me olhando com satisfação.
— Tá gostoso? — Ele pergunta.
— É o melhor macarrão que já comi. — Respondo de boca cheia. — Minha irmã nunca me ensinou a fazer nada além do básico… Bom, não que eu seja bom em fazer o básico.
Nilo ri.
— E… Como é sua irmã? — Pergunta, curioso.
Aponto para uma foto no balcão que separa a cozinha da sala, ele olha para foto por um momento.
Na foto, eu e minha irmã estávamos do lado um do outro com camisetas do “Power Rangers”, ela era o “Ranger” vermelho e eu o branco, ao fundo o quintal da nossa primeira casa, um pouco depois do meu pai ir embora.
Minha irmã estava com o cabelo enorme, sorria e estava com uma aparência mais saudável que eu, algo que dava para notar com facilidade.
— Nossa, você era bem magro… — Nilo comentou.
— Pois é, meus pais não gostavam muito de cozinhar. — Uma risada irônica me escapa.
Usando humor para disfarçar traumas, muito maduro…
Termino de comer, olho para o prato do Nilo e o espero acabar para poder levar os pratos para a pia da cozinha. Quando chego na pia vejo que está cheia de utensílios sujos, uma panela com resto de molho branco, uma tábua usada para picotar alho e a panela que ele usou para ferver o macarrão vazia do lado da pia, pois não tinha espaço para ela.
Ótimo…
Sem reclamar, começo a lavar a louça.
— Eu lavo. — Diz Nilo bem atrás de mim.
— Ah, você fez a comida, não me importo de lavar. — Olho por cima do ombro e o vejo se apoiando na bancada. — Não entendo de comida, mas sou ótimo lavando louça.
Um silêncio sobe no ambiente, olho novamente por cima do ombro e ele continua no mesmo lugar.
— Pode ficar a vontade, ligar a T.V. ou sei lá. — Falei voltando minha atenção para a louça.
— Tá… — Ouço sua voz incerta e depois seus passos se afastarem.
Ele liga a televisão, o barulho dele apertando os botões do controle remoto se misturam com o barulho da água na minha frente, quando estava quase terminando, a voz de Nilo preenche o ambiente.
— Seu gosto pra filmes é meio estranho…
Me viro e olho para a televisão.
— Ah, Cici, minha sobrinha adora “Galinha pintadinha”. — Dou uma risada e volto para a louça. — Melhor que “Mundo Bita”, Jesus…
Nilo tem um sorriso doce nos lábios.
— Como é sua sobrinha?
Novamente me viro e aponto a mão ensaboada para um porta-retrato na mesa de centro, ele pega o porta-retrato e olha de perto.
Na foto, Cici tem cinco anos, está com um vestido azul cheio de flores brancas, seu cabelo cacheado está numa marinha-chiquinha alta e sorri, revelando não ter os dois dentes da frente. Eu e minha irmã a estamos abraçando, sorrindo para a câmera, minha irmã estava com o cabelo maior, usava uma blusa de alças finas rosa, eu, como sempre, usando uma camisa cinza.
Cici tem o mesmo tom de pele e cabelo da mãe, graças a Deus não puxou nada do pai.
— Caramba… — Nilo murmura.
Termino de lavar a louça e vou até o sofá, vejo Gezora olhando para Nilo com as pupilas dilatadas. Me sento entre meu gato e Nilo, pego Gezora e o ponho no meu colo.
— Obrigado pelo jantar. — Agradeço com um sorriso sincero. — Legal… Da sua parte.
Ele sorri mas me olha hesitante.
— De nada. — Responde, se volta para a T.V. e ergue o controle. — Então, o que vamos ver?
— “Meia-noite em Paris”. — Respondo, me acomodando no sofá.
A mão dele vai até Gezora e faz um carinho no seu pescoço, Gezora fecha os olhos, curtindo o carinho dele.
— É bom? — Pergunta, colocando o filme.
— Acho que é incrivelmente bem feito, tem um tom realista, mesmo sendo fantasioso. — Falo, começando a me perder nas palavras. — O roteiro é linear, a direção é muito superior a outros filmes de romance, tem aquele comediante como protagonista, mas ele leva um papel mais pro drama sarcástico do que…
— Só me diz se é bom. — Nilo resmunga, me olhando irritado. — Por favor.
Ah, eu falei demais de novo…
— É bom sim. — Respondo apenas, ajeitando meus óculos disfarçando meu constrangimento.
Aquela situação era absurda demais, mas fritei o meu cérebro a tarde toda com o trabalho para pensar com cuidado sobre essa situação: eu e Nilo estávamos assistindo um filme, na minha casa, depois de jantarmos uma comida que ele fez, isso classificaria como um clássico encontro…
Mas é o Nilo Garcia.
Uma vez, no início do segundo período da faculdade, uma garota passou correndo por mim chorando pelo corredor.
— Nilo Garcia fez de novo. — Ouvi as garotas perto de mim falarem.
Quando olhei para o fim do corredor, Nilo, com cabelo raspado e platinado, as mãos enfiadas nos bolsos, uma camisa justa da banda “Queen” e possui uma expressão de tédio extremo no rosto.
Até aquele momento, em minha mente, eu o apelidara de “Adônis”… Eu sei, eu sei, eu e os nomes gregos, mas depois de saber seu nome senti que o apelido que dei realmente combinava, pois sua presença, sua beleza, causava grande impacto nas pessoas ao seu redor.
Causava em mim também…
Engoli em seco.
— Ele nem parece se importar em ter feito ela chorar… — A mesma garota diz perto de mim.
Volto a realidade, na metade do filme, comecei a sentir os olhos pesados.
— Tá com sono? — A voz de Nilo me faz abrir os olhos.
— Só tô piscando devagar… — Respondi firme, me ajeitando no sofá.
Depois de alguns minutos, não conseguia mais abrir os olhos, algo me puxa, sinto um calor na lateral do meu corpo, que acaba me fazendo adormecer quase que imediatamente.
É aconchegante…