O Don das Sombras
POV. Massimo
O ar aqui no alto das colinas de Nápoles é bem melhor do que a sujeira do centro da cidade. Da varanda do meu sítio — um lugar gigante, cercado por arvores e muros de pedra escura —, consigo ver o mar de longe e a fumaça da cidade lá embaixo.
Eu odeio a cidade. Odeio o barulho, o cheiro de asfalto quente e a quantidade de gente. É gente demais. Um bando de urubus e caras de terno que só querem respirar meu ar e encostar a mão na p***a do meu dinheiro. Na cidade, qualquer aperto de mão parece que vai terminar com uma facada nas minhas costas. Aqui no meu canto, não. O único barulho é o do vento e dos meus próprios passos no chão frio.
Fui até o espelho do escritório e arrumei a camiseta preta e o paletó. Tenho trinta e três anos, mas não pareço um cara comum. Tenho um metro e noventa e dois de altura, ombros largos e um jeito de andar que faz qualquer um se encolher antes mesmo de eu abrir a boca.
Passei a mão pelo queixo, sentindo a barba curta. Meu rosto tem uma marca que ninguém esquece: uma cicatriz feia e funda que começa embaixo do olho esquerdo, cruza a bochecha e desce pelo pescoço. Ganhei essa lembrança numa emboscada em Palermo quando tinha vinte e quatro anos. O desgraçado que fez isso demorou três dias para morrer, mas a marca ficou para sempre. E não é a única. Por baixo da camisa, meu peito, costas e braços são cheios de cicatrizes antigas e tatuagens de tinta preta bem escura — espinhos, frases em latim e um corvo grande de asas abertas no meio do peito.
Meu nome é Massimo Romano. Me chamam de Il Corvo. Sou o chefe da máfia de Nápoles e o medo é a minha melhor arma.
Todo mundo tem pavor de mim. Caras durões, que mandam em muitos soldados, abaixam a cabeça quando eu entro na sala. Já vi homem feito chorar no chão do meu galpão pedindo pelo amor de Deus para não morrer. E com as mulheres é a mesma coisa.
As poucas que foram em alguma suíte comigo nos últimos tempos não aguentavam ficar a sós comigo. Algumas choravam de pavor na minha cama, encolhidas no canto, tremendo feito varas verdes, mesmo que eu nunca tivesse encostado um dedo nelas para machucar. Eu nunca precisei ser agressivo com mulher nenhuma; meu tamanho e minha cara já faziam o serviço. O tom da minha voz, meu olhar frio e essa cicatriz enorme no pescoço faziam qualquer uma achar que estava do lado do próprio capeta. Eles achavam que eu era um monstro? Que achassem. O medo mantinha todo mundo na linha e meu império de pé.
A porta do escritório abriu direto, sem ninguém bater. Só uma pessoa no mundo tinha coragem de fazer isso e continuar viva.
— Você devia parar de encarar o espelho, Massimo. Sua cara não vai mudar só porque você tá olhando fixo pra ela — disse Rocco, entrando com as mãos no bolso da calça.
Rocco é meu braço direito, meu conselheiro e o cara que tá do meu lado desde que a gente era moleque e não tinha nada na vida. Ele tem trinta e um anos, é forte, rápido e tá sempre com aquele sorriso de canto de boca que engana os idiotas que não sabem o quanto ele é perigoso com uma arma na mão. Ele usava um terno cinza meio largado, sem gravata e com os primeiros botões da camisa abertos.
— O que você quer, Rocco? — perguntei, acendendo um charuto. A fumaça subiu devagar entre a gente.
— Vim trazer os relatórios das rotas e ver as reuniões da semana — ele respondeu, encostando na minha mesa e acendendo um cigarro. — Mas na real? Passei aqui pra ver se você não surtou de vez. Você passa dias trancado nesse sítio, cara.
— O silêncio daqui me dá paz — falei seco, soltando a fumaça. — Na cidade só tem verme querendo meu sangue ou a p***a do meu dinheiro. Aqui o vento é a única coisa que me enche o saco... e você.
Rocco deu uma risadinha fraca e tragou o cigarro.
— Sabe que o pessoal lá fora acha que você é um monstro, né? Os soldados novos morrem de medo de vir aqui. Acham que esse sítio é um cemitério.
— Ótimo. Que continuem achando — murmurei, olhando pela janela. O sol tava descendo e deixando o céu de Nápoles meio vermelho. — No dia em que pararem de ter medo de mim, eu perco o controle de tudo.
— É, mas ninguém vive só de medo — Rocco disse, ajeitando a postura e me olhando sério. — Nenhuma mulher nunca vai entrar aqui, vai sair correndo no dia seguinte como se tivesse visto um assombração. Não vão esperar o sol nascer.
— Elas são fracas — falei sem me importar. — Choram na minha cama sem eu nem encostar nelas. Tremem só de olhar pra minha cicatriz. Não tenho paciência pra mi-mi-mi. Não tô aqui pra ser bonzinho com ninguém.
— Ninguém tá pedindo pra você ser bonzinho, Don — ele rebateu. — Mas você tem trinta e três anos, é o cara mais poderoso dessa região e vive parecendo um bicho do mato, só com uma arma na cintura e um copo de uísque na mão.
— E tá dando certo — olhei bem nos olhos dele. — Meu império tá de pé. Os inimigos engolem a seco antes de falar meu nome. Essa cicatriz aqui garante que ninguém esqueça quem eu sou.
— Beleza, ninguém duvida do que você faz com quem te enfrenta — Rocco disse, jogando a bituca do cigarro no cinzeiro. — Só quero ver até quando você vai aguentar viver trancado entre muros altos e mato.
— Até o dia em que eu morrer — apaguei o cigarro. — O mundo lá fora é podre, e eu sou a pior coisa que tem nele.
Fui até a gaveta, peguei minha pistola com o desenho do corvo no cabo e enfiei no coldre embaixo do paletó. Olhei no espelho uma última vez e ajeitei as mangas. Eu era o monstro do topo da montanha. E enquanto o medo do meu nome mantivesse Nápoles aos meus pés, ninguém ia me derrubar.