Enfim chegou a sexta feira e eu vou poder ir para a casa das minhas primas que moram em São João, eu acho injusto ter que ficar presa em casa durante as minhas férias durante a semana mas segundo a minha querida mãe eu preciso ajudar minha avó a cuidar da minha irmã ou então sou obrigada a levá-la para onde eu for.
‘Às vezes eu quero tanto ir que aceito mesmo ficando bem chateada, mas dessa vez não foi o caso.’
Já fiz todas as minhas obrigações dentro de casa para minha mãe não ter desculpas para me impedir de ir. Minha mochila está pronta e eu já estou arrumada aguardando ela chegar para sair.
Olho para minha irmã que está arrumada e sentada no sofá brincando com seus brinquedos, e ela retribui com um olhar tão doce que me encanta. Eu não resisto e encho ela de beijinhos por todo seu rostinho lindo e suas pernas cheias de dobrinhas. Ela gargalhou e me abraçou me prendendo mais ao seu corpinho fofinho.
‘Ficar com ela é sempre gostoso mesmo quando eu fico chateada por ser forçada a levá-la.’
Minha mãe chega parecendo chateada com alguma coisa, e como eu não vou arriscar ter minha autorização cancelada, dou um beijo rápido nela e informo:
—Mãe, fiz todas as minhas obrigações e só estava esperando a senhora chegar para sair.
Ela me olha como se só tivesse percebido naquele momento que eu estava arrumada pra sair e pergunta:
—Tá com pressa, Sol ?
—Só não quero chegar lá muito tarde, mãe.
—Tá certa, vai com cuidado e não fique falando com estranhos na rua. E não esquece que domingo quero você em casa antes do anoitecer.
—Tá bom, mãe, eu sei!
Me despedi da minha vó que está sentada no sofá, vidrada na tv com um beijo na testa.
‘Não sei como gosta tanto de novelas assim, vê a mesma novela toda vez que repete.’
Dei um outro beijo na minha mãe e mirei minha irmã que percebeu que eu ia sair e danou a chorar querendo vim comigo, dando a oportunidade perfeita para a minha mãe reproduzir:
—Você podia levar a sua irmã, ela sente sua falta quando sai.
—Ah não mãe… Já fiquei a semana toda com ela em casa. A senhora me prometeu.
—Tá bom, vai logo antes que eu mude de idéia.
Sai como uma bala pela porta da sala dando graças a Deus por conseguir minha liberdade limitada.
‘Pelo menos por um fim de semana.’
O caminho até o ponto de ônibus foi rápido, encontrei alguns conhecidos pelo caminho mas não me atrevi a parar para conversar.
‘Quanto antes pegar o ônibus melhor.’
Depois de quase 2 horas de viagem cheguei na casa das minhas primas e minha tia abre o portão pra mim, me recebendo com um abraço apertado, quase me tirando todo o ar enquanto me beija e me aperta.
—Oi tia Marta, como a senhora está?
—Tô bem minha filha, e você?
—Tô bem. As meninas estão aí?
—Estão lá em cima, pode subir . Eu vou ficar no portão conversando um pouquinho com as vizinhas, lá em cima tá muito quente.
Me soltei do seu abraço e subi correndo encontrando as duas deitadas no chão da sala vendo tv. Logo pensei:
‘Nossa, que boa troca que eu fiz deixando de ver tv na minha casa para ver aqui.’
Espantei meu pensamento, afinal pelo menos aqui tinha elas para conversar, principalmente a Ju que é como uma irmã pra mim. Nossa diferença de idade é de 1 ano, o que facilitava e muito nossa interação, nós nos damos muito bem embora sejamos extremamente diferentes. Tudo o que eu não sou, ela é!
Quando me viu Ju se levantou do chão às pressas e me empurrou me fazendo correr para o seu quarto.
—O que foi ?
Perguntei sem entender sua atitude, afinal ela não me deixou nem cumprimentar a Evelyn que estava no chão do lado dela.
—Tenho que te contar o que eu fiz … você não vai acreditar.
—Fala logo, me deixou curiosa .
—Eu fiquei com um menino chamado Luciano.
—Como assim?
Perguntei arregalando meus olhos de surpresa com aquela novidade.
Ela segura minha mão e nos leva para sentar na cama e começa a contar como tudo aconteceu, me deixando perplexa em saber os detalhes.
Fiquei feliz por ela estar super empolgada mas confesso que me senti de certa forma excluída, afinal, agora eu sou a única boca virgem que faz parte do grupinho de primas .
Levamos um susto quando Evelyn surgiu do nada, fingindo estar zangada com a Ju por ter escondido essa informação tão importante.
—Quer dizer que você já beijou e não me contou Ju?
—Shiu…. Fala baixo, nossa mãe pode ouvir.
—Ela ainda está lá embaixo. Me conta essa história direitinho.
Julia me olhou como se não quisesse falar na frente da irmã, mas sem poder fazer nada, resolveu nos contar todos os detalhes.
A zoação foi enorme mas no fim, Evelyn concordou em não delatar a Ju aos seus pais.
Depois mudamos de assunto, eu guardei minha mochila no guarda-roupa e seguimos para a sala e entramos em várias assuntos diferentes.
(...)
Um tempo depois meus tios apareceram na sala, meu tio tinha chegado do trabalho e trouxe com ele minha tia. Quando me viu sorriu e disse.
—Hoje é a Sol que vai preparar minhas coisas para o banho.
Achando graça fui até ele o abraçando e ele retribuiu deixando um beijo no topo da minha cabeça e me abraçando de volta.
Eu sei que pode parecer estranho, mas nesta casa existe um ritual onde as filhas tem que deixar no banheiro para ele uma muda de roupa limpa e os chinelos quando ele chega do trabalho. E como eu sou considerada por eles como a Caçulinha, também sou obrigada a fazer.
Mas quer saber? Eu gosto de fazer parte disso.
Eu não convivo há muitos anos com o meu pai e de certa forma isso me preenche.
Me levantei mais que depressa para cumprir minha tarefa e quando acabei avisei meu tio. Que contente seguiu para o seu banho, mas não antes de distribuir entre nós os chocolates que sempre traz pra casa ao voltar do trabalho.
—Obrigada tio.
—Obrigada pai.
—Obrigada pai.
(...)
A noite seguiu entre conversas e risadas naquela sala ampla com meu tio contando o que tinha acontecido no trabalho e algumas piadas. E o jantar foi como sempre, todos sentados à mesa com minha tia me forçando a comer todo tipo de legumes que eu detesto.
Ela me olha com aquela cara de mandona e pergunta …
—Vai colocar ou eu coloco?
—Ai tia, eu não gosto de jiló. Não posso comer só a cenoura e a abóbora?
—Não, senhorita, tem que comer todos os legumes que estão aí.
—Você quer fazer a garota vomitar de novo igual da outra vez Marta?
Diz meu tio lembrando a todos nós desse fato verídico.
—Ela não vai vomitar de novo, né Sol?
—Eu não garanto tia.
Falei, olhando para aquele jiló bem duvidosa.
—Não precisa comer Sol, sua tia exagera muito.
Diz meu tio em meu socorro e pelo menos hoje eu consigo fugir desse legume horrível.
—Aproveita hoje porque amanhã seu tio vai estar trabalhando na hora do almoço e você vai comer.
Diz ela me encarando, e eu olho para meu tio e ele me olha com pesar.
‘Bem … pelo menos hoje eu não vomito.’
(...)
Algumas horas depois do jantar decidimos dormir, as meninas e eu nos despedimos dos meus tios, nos arrumamos, juntamos as duas camas de solteiro e ligamos os ventiladores mas o calor que faz nessa casa é insuportável, e mesmo com dois ventiladores parados em cima de nós não foi o suficiente.
Como sempre, as ideias sempre vinham da Ju e ela não perdeu tempo em querer ir para o quarto dos meus tios que estavam no geladinho do ar condicionado. Fazendo assim aflorar em nós o mesmo desejo. Levantamos as três pegando os colchões, travesseiros e lençois e seguimos no maior silêncio possível para tentar entrar no quarto sem fazer barulhos desnecessários.
Logo meus tios perceberam nossa invasão, mas não reclamaram enquanto colocamos tudo dentro do quarto que estava geladinho como havíamos imaginado. Arrumamos tudo e deitamos.
Como sempre, Ju e eu começamos a cochichar nossos segredos mas fomos interrompidas pelo meu tio que já queria dormir pois no dia seguinte iria trabalhar novamente. Nos apressamos em ficar quietas, afinal, não queríamos voltar para o calor do outro quarto.
O silêncio reinou e foi aí que ouvimos um barulho alto que nos alvoroçou novamente porque a risada foi geral.
Evelyn: —Aí pai, por favor, pára de peidar.
—Olha o respeito , quem disse que fui eu ? Pode ser sua mãe.
—Eu não fui, seu ridículo, e sai de perto de mim. Vai pro banheiro.
—Por favor pai, a gente já conhece o som do seu peido, né.
E de novo ouvimos mais um estrondo e as risadas aumentaram acompanhadas de tapas que ele recebia da minha titia.
—Aí amor … pára com isso, seus tapas dói.
Julia: —Isso mesmo, mãe, não tolera isso.
—Já chega! Parou a palhaçada.
Minha tia decreta e o silêncio reinou novamente.
Só aí me deixei levar pelos meus pensamentos que voltaram para a revelação da Julia e me fez questionar:
‘Até quando eu vou conseguir permanecer sem beijar?’