sob o mesmo teto

997 Words
O caminho até a casa dele foi em silêncio. Não um silêncio confortável. Era pesado. Denso. Cheio de coisas não ditas. Eva mantinha as mãos apertadas sobre o casaco dele, ainda tentando entender o que estava acontecendo. Tudo tinha sido rápido demais… brutal demais. Ela perdeu tudo. E agora estava dentro do carro de um estranho. Um estranho perigoso. Ela olhou de relance para ele. Vinícius Ferraz dirigia com uma calma quase irritante. Uma das mãos no volante, a outra apoiada, postura relaxada… como se nada daquilo fosse fora do comum. Como se encontrar uma garota machucada na rua e simplesmente levá-la embora fosse… rotina. A luz dos postes iluminava o rosto dele por segundos — o maxilar marcado, o olhar frio, distante. Inatingível. Eva desviou o olhar rapidamente. Algo nele… puxava. E assustava na mesma intensidade. — O portão se abriu antes mesmo do carro parar. Automático. Silencioso. Imponente. A casa surgiu diante dela como um contraste brutal com o que tinha acabado de acontecer. Grande. Moderna. Fria. Sem vida. Sem alma. Como ele. O carro parou. Mas Eva não se mexeu. — Sai — a voz dele veio firme. Ela hesitou por um segundo… mas obedeceu. Assim que colocou os pés no chão, sentiu o quanto estava fraca. O corpo doía, a cabeça girava. Vinícius contornou o carro e parou na frente dela. De perto… era pior. Mais intenso. Mais real. Mais perigoso. Os olhos dele desceram lentamente pelo corpo dela, analisando cada detalhe dos machucados. Não havia desejo ali. Havia… cálculo. Raiva contida. — Você consegue andar? — ele perguntou. Eva assentiu, mesmo não tendo certeza. Ela não queria parecer fraca. Não na frente dele. Não sabia por quê… mas não queria. Ele virou de costas sem esperar resposta e começou a andar. Ela teve que se apressar para acompanhar. — A casa por dentro era ainda mais fria. Poucos móveis. Tudo impecável. Organizado demais. Sem fotos. Sem lembranças. Sem qualquer sinal de afeto. Era um lugar… vazio. Assim que a porta fechou atrás deles, Eva sentiu. Ela estava completamente sozinha ali. Com ele. O coração acelerou. Vinícius caminhou até uma mesa, pegou o celular e digitou algo rápido. — Vai ter gente aqui em alguns minutos — disse, sem olhar para ela. — Gente…? — a voz dela saiu baixa. — Médico. Ela engoliu seco. — Não precisa… Ele levantou os olhos lentamente. E aquilo bastou. Ela se calou. — O silêncio voltou. E dessa vez… ficou mais pesado. Eva ficou parada no meio da sala, sem saber o que fazer, para onde ir, como agir. Aquilo não era a casa dela. Ele não era… nada dela. Então por que ela estava ali? — Por que você me ajudou? A pergunta escapou antes que ela pudesse segurar. Vinícius demorou alguns segundos para responder. Como se estivesse decidindo… se valia a pena. — Porque eu quis. Simples. Direto. Sem emoção. Eva franziu levemente a testa. — Só isso? Ele deu um passo na direção dela. Um. E foi o suficiente para o ar mudar. — Você prefere que eu não tivesse ajudado? A voz dele abaixou. Perigosa. Eva prendeu a respiração. — Não… — Então não questiona. Ela assentiu rapidamente. O coração batendo forte demais. — A campainha tocou. Eva quase se assustou. Vinícius nem se mexeu. Alguns segundos depois, um homem entrou com uma maleta. O médico. Tudo foi rápido. Limpeza dos machucados. Pontos leves em um corte. Remédio. Eva m*l sentia dor. Era como se o corpo tivesse desligado. Ou talvez… estivesse ocupado demais sentindo outra coisa. Ele. O tempo todo, Vinícius ficou ali. Observando. Em silêncio. Sem interferir. Mas presente. E aquilo… de alguma forma estranha… trazia segurança. — Quando o médico foi embora, o silêncio voltou. Mais íntimo. Mais perigoso. — Tem um quarto no andar de cima — disse Vinícius, seco. — Você fica lá. Eva assentiu. Mas não se moveu. Algo dentro dela… travou. Ela não queria subir. Não queria ir pra longe dele. E aquilo não fazia sentido. Nenhum. — Obrigada… — ela disse, quase em um sussurro. Ele não respondeu. Ela respirou fundo. — Eu… não sei como agradecer. Silêncio. Então ele respondeu: — Não precisa. Mas havia algo diferente no tom. Algo… mais baixo. Mais carregado. Eva deu um passo na direção dele. Sem pensar. Sem planejar. Só foi. — Mesmo assim… eu quero. Vinícius ficou imóvel. Os olhos fixos nela. Analisando. Medindo. Ela estava perto demais agora. Perto o suficiente para sentir o cheiro dele. Forte. Limpo. Intoxicante. O coração dela disparou. — Você não devia — ele disse. Baixo. Quase um aviso. Mas não se afastou. Eva engoliu seco. — Por quê? E então… ele inclinou levemente o rosto na direção dela. Os olhos escurecendo. — Porque você não faz ideia de onde está se metendo. O ar ficou pesado. Quente. Perigoso. Mas Eva não recuou. Não conseguiu. — Então me mostra. Silêncio. Um segundo. Dois. E então Vinícius se afastou de repente. Como se tivesse quebrado algo. — Sobe — a voz voltou a ser fria. — Agora. A mudança foi brusca. Cortante. Eva sentiu. Mas obedeceu. Sem discutir. — No quarto… sozinha… ela finalmente deixou o corpo cair na cama. O teto parecia distante. Tudo parecia. Mas uma coisa não. Ele. A voz. O olhar. A presença. O perigo. Eva fechou os olhos. E, mesmo destruída… mesmo sem nada… mesmo tendo perdido tudo— um sentimento crescia. Errado. Forte. Irreversível. Ela levou a mão ao peito, sentindo o coração ainda acelerado. E sussurrou, quase sem perceber: — O que você fez comigo…? — No andar de baixo… Vinícius ainda estava parado no mesmo lugar. Imóvel. Mas por dentro… algo tinha saído do controle. Ele passou a mão pelo rosto, irritado. Incomodado. — Droga… Não era pra acontecer. Não com ela. Não daquele jeito. Ele respirou fundo… tentando recuperar o controle. Mas já era tarde. Porque pela primeira vez em muito tempo… algo tinha atravessado a barreira dele. E tinha nome. Eva.
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