O abraço dele ficou mais tempo do que eu esperava.
Mais tempo do que eu estava acostumada a receber sem alguém cobrar uma explicação, um desempenho, um "por quê". Eu respirei fundo contra o peito dele, senti o coração dele batendo forte e constante, e por um momento eu só fiquei ali, como se meu corpo estivesse reaprendendo que segurança podia existir sem negociação.
Victor soltou o ar devagar e, do nada, mudou o peso da energia com uma habilidade quase irritante.
— Tá. — ele falou, como quem encerra uma reunião. — Chega de clima de velório. Tu vai me dizer que veio até aqui pra chorar e estragar meu sofá de rico?
Eu levantei o rosto devagar, ainda com os olhos molhados, e encarei ele com aquela expressão que era metade incredulidade, metade vontade de rir.
— Você é... impossível.
— Eu sou necessário. — ele corrigiu, sério demais, e apontou pra dentro da casa. — Vem.
Eu deixei ele me puxar pela mão até a sala. Ele me colocou no sofá como se eu fosse uma coisa delicada, ajeitou uma almofada atrás das minhas costas com uma eficiência que não combinava com o homem que zoava todo mundo na boca.
— Fica aí. — ordenou.
— Eu não sou criança.
— Hoje tu é. — ele respondeu, já indo em direção à cozinha. — Hoje tu é minha criança adulta. Fica quieta.
Eu abri a boca pra retrucar, mas ele ergueu a mão sem olhar, tipo "nem tenta". Eu fiquei olhando ele sumir na cozinha e ouvi gaveta abrindo, armário fechando, embalagem sendo mexida.
Quando ele voltou, veio com um pacote colorido na mão e um copo.
— Toma. — ele disse, jogando no meu colo.
Eu olhei.
Chocolate.
Daqueles bem exagerados, com recheio, que eu costumava chamar de "proibido" na outra vida.
— Victor... — eu comecei.
— Não começa. — ele cortou. — Come.
— Você acha que açúcar resolve trauma?
Ele sentou no sofá ao meu lado, esticando as pernas, e me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais óbvia do mundo.
— Não resolve. — respondeu. — Mas resolve essa tua cara de quem tá pedindo desculpa por existir.
Eu engoli seco, porque ele tinha acertado.
— Eu não tô...
— Tá sim. — ele insistiu, e a voz dele não foi dura, foi firme. — E eu não gosto.
Eu abri o chocolate devagar, como se fosse um ritual. A embalagem fez barulho alto demais no silêncio da sala. Eu dei a primeira mordida com cuidado, esperando aquela culpa automática aparecer. Não apareceu.
Só apareceu o gosto doce, macio, simples.
— Tá bom? — perguntou, como se fosse coisa séria.
Eu fiz que sim com a cabeça, mastigando, e ele sorriu satisfeito, como se tivesse ganho uma batalha.
— Sabia. — murmurou. — Eu conheço minhas soluções.
Eu soltei um riso pequeno, quase involuntário. E foi o suficiente pra ele relaxar de verdade.
— Aí. — ele apontou pra mim com o queixo. — Tá vendo? Tu ainda sabe rir. Então tu tá viva. Perfeito.
— Você fala como se eu fosse um gato atropelado.
— Tu tá parecendo um pouco. — respondeu, sem dó. — Só que mais bonita.
Eu revirei os olhos, mas senti o peito aliviar.
Comendo o chocolate, eu fui escorregando pro lado dele sem perceber. No começo foi só o ombro encostando. Depois foi a minha cabeça procurando o peito dele como se fosse imã.
Victor não comentou. Só abriu o braço e me puxou pra mais perto, me encaixando como se fosse natural.
Eu deitei no peito dele com o chocolate ainda na mão, e ele passou a mão pelo meu cabelo devagar, como quem faz carinho em bicho arisco.
— Melhorou? — perguntou baixo.
— Um pouco. — eu respondi, sincera.
— Tu quer falar?
Eu respirei fundo e neguei com a cabeça.
— Não agora.
— Tá bom. — ele disse, sem drama. — Então vamos falar de coisa inútil.
Eu levantei um pouco o rosto, curiosa apesar de mim.
— Tipo o quê?
Ele pensou dois segundos com uma seriedade ridícula.
— Tipo... se tu fosse uma planta, qual tu seria?
Eu fiquei olhando pra ele, processando.
— Você tá de s*******m.
— Não. — respondeu, ofendido. — Minhas filhas são assunto sério.
Eu ri de verdade dessa vez, o som saindo mais solto.
— Eu seria... sei lá... uma dessas que morre fácil. Porque eu esqueço de regar.
— Mentira. — ele falou, passando o dedo no meu queixo como se fosse bronca. — Tu é daquelas plantas que quase morre, mas volta. Teimosa.
— Isso não é elogio.
— É sim. — ele insistiu. — Planta teimosa é planta que fica.
Eu senti o coração apertar de novo, mas agora sem dor.
— E você? — perguntei, devolvendo a brincadeira. — Que planta você seria?
— Eu? — ele fez uma pausa dramática. — Eu sou aquela que parece bonita e inofensiva, mas se tu mexe errado tu sai machucado.
— Um cacto?
— Um cacto. — ele confirmou, com a maior dignidade do mundo.
Eu gargalhei, escondendo o rosto no peito dele.
— Você é ridículo.
— Eu sou o teu ridículo. — ele respondeu, e eu senti ele sorrindo contra meu cabelo.
Eu fiquei quieta por alguns segundos, ouvindo o coração dele e o barulho distante do morro lá fora. A leveza era estranha. Era como se eu estivesse vestindo uma roupa que não era minha ainda, mas que começava a caber.
— Você quer assistir filme? — perguntou.
— Não. — eu falei, honestamente. — Quero ficar aqui.
Ele assentiu, sem tentar mudar nada.
— Então fica.
Eu terminei o chocolate devagar, como quem prova uma liberdade pequena. Quando acabei, joguei a embalagem na mesa e me ajeitei melhor nele, como se eu tivesse decidido que aquele peito era meu travesseiro oficial.
Victor beijou o topo da minha cabeça, um beijo simples, sem urgência.
— Pronto. — ele murmurou. — Agora sim. Agora tu tá do jeito certo.
— Que jeito?
— Aqui. — ele respondeu. — Comigo. Sem pedir desculpa.
E eu fechei os olhos, deixando aquela frase me embalar como se fosse a coisa mais segura do mundo.
A leveza do riso ainda pairava no ar, misturada com o cheiro adocicado do chocolate. Eu estava afundada nele, no sofá, meu corpo mole e finalmente sem a armadura habitual. A mão de Victor continuava seu passeio lento pelo meu cabelo, um carinho hipnótico que parecia desfazer nós que eu nem sabia que tinha.