50. Ayla

1098 Words
O abraço dele ficou mais tempo do que eu esperava. Mais tempo do que eu estava acostumada a receber sem alguém cobrar uma explicação, um desempenho, um "por quê". Eu respirei fundo contra o peito dele, senti o coração dele batendo forte e constante, e por um momento eu só fiquei ali, como se meu corpo estivesse reaprendendo que segurança podia existir sem negociação. Victor soltou o ar devagar e, do nada, mudou o peso da energia com uma habilidade quase irritante. — Tá. — ele falou, como quem encerra uma reunião. — Chega de clima de velório. Tu vai me dizer que veio até aqui pra chorar e estragar meu sofá de rico? Eu levantei o rosto devagar, ainda com os olhos molhados, e encarei ele com aquela expressão que era metade incredulidade, metade vontade de rir. — Você é... impossível. — Eu sou necessário. — ele corrigiu, sério demais, e apontou pra dentro da casa. — Vem. Eu deixei ele me puxar pela mão até a sala. Ele me colocou no sofá como se eu fosse uma coisa delicada, ajeitou uma almofada atrás das minhas costas com uma eficiência que não combinava com o homem que zoava todo mundo na boca. — Fica aí. — ordenou. — Eu não sou criança. — Hoje tu é. — ele respondeu, já indo em direção à cozinha. — Hoje tu é minha criança adulta. Fica quieta. Eu abri a boca pra retrucar, mas ele ergueu a mão sem olhar, tipo "nem tenta". Eu fiquei olhando ele sumir na cozinha e ouvi gaveta abrindo, armário fechando, embalagem sendo mexida. Quando ele voltou, veio com um pacote colorido na mão e um copo. — Toma. — ele disse, jogando no meu colo. Eu olhei. Chocolate. Daqueles bem exagerados, com recheio, que eu costumava chamar de "proibido" na outra vida. — Victor... — eu comecei. — Não começa. — ele cortou. — Come. — Você acha que açúcar resolve trauma? Ele sentou no sofá ao meu lado, esticando as pernas, e me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais óbvia do mundo. — Não resolve. — respondeu. — Mas resolve essa tua cara de quem tá pedindo desculpa por existir. Eu engoli seco, porque ele tinha acertado. — Eu não tô... — Tá sim. — ele insistiu, e a voz dele não foi dura, foi firme. — E eu não gosto. Eu abri o chocolate devagar, como se fosse um ritual. A embalagem fez barulho alto demais no silêncio da sala. Eu dei a primeira mordida com cuidado, esperando aquela culpa automática aparecer. Não apareceu. Só apareceu o gosto doce, macio, simples. — Tá bom? — perguntou, como se fosse coisa séria. Eu fiz que sim com a cabeça, mastigando, e ele sorriu satisfeito, como se tivesse ganho uma batalha. — Sabia. — murmurou. — Eu conheço minhas soluções. Eu soltei um riso pequeno, quase involuntário. E foi o suficiente pra ele relaxar de verdade. — Aí. — ele apontou pra mim com o queixo. — Tá vendo? Tu ainda sabe rir. Então tu tá viva. Perfeito. — Você fala como se eu fosse um gato atropelado. — Tu tá parecendo um pouco. — respondeu, sem dó. — Só que mais bonita. Eu revirei os olhos, mas senti o peito aliviar. Comendo o chocolate, eu fui escorregando pro lado dele sem perceber. No começo foi só o ombro encostando. Depois foi a minha cabeça procurando o peito dele como se fosse imã. Victor não comentou. Só abriu o braço e me puxou pra mais perto, me encaixando como se fosse natural. Eu deitei no peito dele com o chocolate ainda na mão, e ele passou a mão pelo meu cabelo devagar, como quem faz carinho em bicho arisco. — Melhorou? — perguntou baixo. — Um pouco. — eu respondi, sincera. — Tu quer falar? Eu respirei fundo e neguei com a cabeça. — Não agora. — Tá bom. — ele disse, sem drama. — Então vamos falar de coisa inútil. Eu levantei um pouco o rosto, curiosa apesar de mim. — Tipo o quê? Ele pensou dois segundos com uma seriedade ridícula. — Tipo... se tu fosse uma planta, qual tu seria? Eu fiquei olhando pra ele, processando. — Você tá de s*******m. — Não. — respondeu, ofendido. — Minhas filhas são assunto sério. Eu ri de verdade dessa vez, o som saindo mais solto. — Eu seria... sei lá... uma dessas que morre fácil. Porque eu esqueço de regar. — Mentira. — ele falou, passando o dedo no meu queixo como se fosse bronca. — Tu é daquelas plantas que quase morre, mas volta. Teimosa. — Isso não é elogio. — É sim. — ele insistiu. — Planta teimosa é planta que fica. Eu senti o coração apertar de novo, mas agora sem dor. — E você? — perguntei, devolvendo a brincadeira. — Que planta você seria? — Eu? — ele fez uma pausa dramática. — Eu sou aquela que parece bonita e inofensiva, mas se tu mexe errado tu sai machucado. — Um cacto? — Um cacto. — ele confirmou, com a maior dignidade do mundo. Eu gargalhei, escondendo o rosto no peito dele. — Você é ridículo. — Eu sou o teu ridículo. — ele respondeu, e eu senti ele sorrindo contra meu cabelo. Eu fiquei quieta por alguns segundos, ouvindo o coração dele e o barulho distante do morro lá fora. A leveza era estranha. Era como se eu estivesse vestindo uma roupa que não era minha ainda, mas que começava a caber. — Você quer assistir filme? — perguntou. — Não. — eu falei, honestamente. — Quero ficar aqui. Ele assentiu, sem tentar mudar nada. — Então fica. Eu terminei o chocolate devagar, como quem prova uma liberdade pequena. Quando acabei, joguei a embalagem na mesa e me ajeitei melhor nele, como se eu tivesse decidido que aquele peito era meu travesseiro oficial. Victor beijou o topo da minha cabeça, um beijo simples, sem urgência. — Pronto. — ele murmurou. — Agora sim. Agora tu tá do jeito certo. — Que jeito? — Aqui. — ele respondeu. — Comigo. Sem pedir desculpa. E eu fechei os olhos, deixando aquela frase me embalar como se fosse a coisa mais segura do mundo. A leveza do riso ainda pairava no ar, misturada com o cheiro adocicado do chocolate. Eu estava afundada nele, no sofá, meu corpo mole e finalmente sem a armadura habitual. A mão de Victor continuava seu passeio lento pelo meu cabelo, um carinho hipnótico que parecia desfazer nós que eu nem sabia que tinha.
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