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O DONO DO MORRO E A MODELO DISFARÇADA

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Blurb

Ayla é uma supermodelo internacional, conhecida nos quatro cantos do mundo, menos em um: o morro onde Victor, ou melhor, VT, comanda. Após um colapso emocional causado por anos de abusos na indústria da moda, Ayla foge dos holofotes e vai parar, por acaso, em um projeto beneficente no alto do morro. Lá, encontra um universo onde glamour não significa nada, mas onde, pela primeira vez, ela sente que pode ser vista de verdade.

VT é o tipo de cara que comanda sem mandar: um líder nato, respeitado, temido por quem merece, e amado pela comunidade. Brincalhão, debochado e cheio de ginga, ele não esperava que uma mulher do mundo das câmeras balançasse tanto seu cotidiano.

Mas enquanto a conexão entre eles cresce, forças externas ameaçam a paz da comunidade e a sanidade de Ayla. Um inimigo invisível se infiltra, e segredos que ligam os dois mundos começam a vir à tona.

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1. Ayla
Eu tinha doze anos quando tudo começou. Doze. Me lembro como se estivesse acontecendo agora, como se eu estivesse presa naquele corpo pequeno demais pra tanta expectativa. O salto era alto demais. O vestido pinicava. E o sorriso... o sorriso era treinado. Era sempre o mesmo. O de "sim, senhor", o de "eu aguento", o de "podem me moldar como quiserem". Naquele dia, a cidade estava um forno. Interior de São Paulo, uma passarela improvisada no meio da praça central, com meninas tentando parecer adultas enquanto suas mães rezavam por contratos. Eu só queria comer algodão doce. Mas minha mãe disse que açúcar inchava o rosto. Então fiquei de boca seca, olhando para o olheiro da agência como se ele fosse Deus e eu estivesse em julgamento. Ele me escolheu. É claro que escolheu. Me disseram que eu tinha "a estrutura perfeita", "o olhar misterioso", "a inocência vendável". Palavras bonitas pra disfarçar o óbvio: eles viam em mim um produto cru. E estavam prontos pra me lapidar com lixa grossa. Com treze, eu já viajava sozinha para ensaios em São Paulo. Dormia em camarins, comia barras de proteína e decorava frases como "menos carboidrato, mais casting". Aos quatorze, meu corpo era internacional. Meu rosto, um outdoor. Mas minha alma... minha alma estava cada vez mais apertada dentro de mim. Lembro da primeira vez que chorei num provador. Um stylist me disse que minha cintura "estava preguiçosa". Eu não entendi. Fui ao banheiro, me curvei diante da privada e vomitei tudo que tinha comido no dia anterior: duas folhas de alface e meia fatia de peito de peru. Quando voltei, ele me sorriu. Disse: "Agora sim." Isso foi o começo do meu elogio mais constante: "agora sim." "Agora sim, você cabe." "Agora sim, você aprendeu a andar como mulher." "Agora sim, você tá pronta pra Paris." Em Paris, com quinze anos, um fotógrafo famoso me pediu pra "ficar mais à vontade". Estávamos sozinhos. Ele trancou a porta. Disse que era assim que as grandes começavam. Eu não lembro direito o que aconteceu depois, minha mente cortou. Mas lembro do barulho da fechadura. Lembro do flash. Lembro da náusea. Contei pra minha agente. Ela suspirou e disse que aquilo era "parte do jogo". Que se eu denunciasse, "minha imagem ia perder força". Então calei. Vesti outra roupa. Sorri com os olhos, mesmo com eles cheios de água. E continuei. Continuei quando minha amiga desmaiou durante um desfile. Quando uma modelo se cortou no banheiro porque estava cansada de viver em silêncio. Quando um diretor de revista colocou a mão na minha coxa durante um jantar com patrocinadores e me chamou de "menina de ouro". Continuei... porque era isso ou o esquecimento. Agora, às vezes, quando me olho no espelho, ainda vejo aquela garota de doze anos. Os pés pequenos, os olhos assustados, o vestido desconfortável. Ela me encara. Me pergunta por que não fugimos antes. E eu não sei responder. Eu não sei dizer exatamente quando a minha cabeça começou a rachar. Não foi uma explosão. Foi um acúmulo. Como água vazando pelas beiradas de um copo que já estava cheio há anos, mas que ninguém se deu ao trabalho de esvaziar. Naquela manhã, acordei com a agenda colada no rosto. Dormi em cima dela. Um ensaio às 6h da manhã em um heliporto, depois reunião com a marca da campanha da Coreia, entrevista com uma revista russa e, à noite, um jantar com patrocinadores na casa de um estilista que eu odeio desde que me conheço por gente. Tudo isso sem tempo pra um banho decente ou pra lembrar que eu tinha vinte e poucos anos e não cinquenta. Fui levada ao camarim com olheiras, mas isso "se resolvia com maquiagem pesada", disseram. Me deram um suco verde que mais parecia grama batida com bílis, enfiaram meu corpo em um vestido que me cortava a pele na altura das costelas, e me sentaram em uma cadeira com fita crepe no encosto porque "era vintage demais pra arranhar". Foi ali que soube que alguma coisa ia dar errado. O stylist me lançou um olhar como quem observa uma peça de carne. Um olhar técnico. Clínico. Mas frio. — Você ganhou dois centímetros de quadril. — Pode ser inchaço... — murmurei, mais pra mim do que pra ele. — Inchaço não vende. Alface e cardio, Ayla. Você sabe o protocolo. Ele se afastou e voltou com outro look. Um body transparente, cravejado de pedras falsas. Não havia sutiã. Nem forro. Era praticamente um raio-X ambulante. — Vai usar isso no close da campanha. O conceito é "a beleza despida do luxo". Só você, crua. Autêntica. Me senti nua antes mesmo de tirar a roupa. Não de um jeito sensual. De um jeito violento. Um jeito que me lembrava da primeira vez que disseram que "autenticidade vende", mas só se for a autenticidade que eles escolherem. Fui para o banheiro com o body nas mãos. Tranquei a porta. Encostei as costas na parede e deixei o tecido escorregar pelo meu colo. Olhei para o espelho. O que vi não foi uma mulher. Era uma boneca em frangalhos. Cabelos penteados com força, olheiras encobertas com corretivo, e um sorriso que... que já nem sabia ser meu. E então eu lembrei da menina de doze anos que só queria um algodão doce na praça. Lembrei da primeira noite em Milão, chorando em silêncio no travesseiro duro do hotel. Lembrei das mãos do fotógrafo. Das palavras da minha agente. Do sangue que vi na pia do banheiro depois de uma amiga quebrar um copo com os punhos. Lembrei do gosto da bile. Da fome. Da raiva. De mim. Foi naquele banheiro que meu corpo tremeu sem controle. Me encolhi no chão frio com as costas escoradas na parede e os joelhos contra o peito, sentindo meu coração bater tão rápido que achei que ia parar de vez. Pela primeira vez em anos, eu não chorei em silêncio. Eu chorei com som. Com dor. Com tudo que tinha segurado por tanto tempo. A produtora bateu na porta. Perguntou se eu estava bem. Menti. Disse que era só cólica. Cólica vende mais empatia do que pânico. Saí do ensaio antes que pudessem me impedir. Chamei um carro, fui para o hotel onde estava hospedada e me tranquei no quarto por três dias. Ninguém me viu. Ninguém me ligou. Só mensagens curtas e frias como: "Precisamos conversar sobre sua atitude." Mas naquele terceiro dia, entre uma insônia e outra, eu abri o notebook. Digitei no navegador: "lugares para desaparecer" Depois: "lugares no Rio com gente de verdade." Apareceu uma matéria de um blog pequeno sobre uma ONG chamada "Raízes Vivas" que fazia projetos com crianças no Morro do Rosário. O texto dizia: "Lá, moda não é tendência. É sobrevivência. E beleza é o sorriso de quem acorda e tenta de novo." Eu reli aquela frase dez vezes. Aquilo bateu em mim como um tapa e pensei: é lá que eu quero ser esquecida... ou finalmente lembrada.

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