Eu não planejei. Não fiz mala organizada, lista de itens essenciais, aviso prévio, nada. Quando a decisão finalmente me atravessou, ela veio como uma onda alta, barulhenta, que simplesmente me arrastou. Eu só... fui.
Acordei depois de mais uma noite sem dormir, o rosto grudado no travesseiro, a cabeça latejando. O quarto do hotel parecia menor, como se tivesse encolhido durante a madrugada. Tudo ali me sufocava: as roupas penduradas, os sapatos caros alinhados na gaveta, os press kits espalhados no chão, lembrando o tempo todo quem eu "tinha que ser".
Fiquei alguns minutos olhando para minhas próprias mãos. Tão cuidadas, tão perfeitas... e tão inúteis pra mim mesma.
Levantei devagar, como quem tem medo de si, e peguei a mala pequena que estava no canto. Não escolhi roupas, enfiei o que vi pela frente: duas calças largas, três camisetas, um moletom antigo que nunca me deixaram usar em público, uma escova de dentes e meu passaporte. O resto, deixei pra trás. Aquelas coisas não eram minhas de verdade. Eram do personagem.
Depois fui para o banheiro e encarei meu reflexo. O rímel borrado me deixava com cara de fantasma. É assim mesmo, murmurei pra mim. Hoje você não precisa ser bonita pra ninguém.
Peguei o celular e esse foi o momento em que senti medo.
Abri o i********:. Dezesseis milhões de seguidores. Milhares de comentários. Todos discutindo minha postura, minha vida, meu corpo, minhas "falhas". Aquela versão da Ayla tinha nome, tinha imagem, tinha contratos. Mas não tinha alma.
Meu dedo deslizou até configurações.
"Desativar conta."
Apertei.
O aplicativo implorou:
"Tem certeza?"
Sim.
Depois apaguei o Twitter, o t****k, o aplicativo da agência, o e-mail corporativo. Tudo. De uma vez. Cada exclusão era uma parte de mim se desfazendo e, ao mesmo tempo, um pedaço de mim finalmente voltando pra casa.
Peguei meu laptop. Entrei nas mensagens da ONG que eu tinha lido alguns dias antes. Li de novo sobre o Morro do Rosário: "projetos comunitários, crianças em situação vulnerável, voluntários, casas simples para aluguel por temporada". Era exatamente isso que eu precisava. Um lugar onde ninguém me reconhecesse nem tentasse me consertar.
Pesquisei:
"alugar casa simples Rio de Janeiro morro"
Depois refinei:
"quarto para alugar em comunidade Rio morro Rosário"
Apareceram anúncios em sites pequenos, quase caseiros. Casas com parede de reboco, sofás velhos, cozinhas improvisadas. Mas havia algo naquilo... algo que parecia mais humano do que qualquer cobertura onde eu já havia ficado.
Enviei mensagem para um anúncio. Era de uma senhora chamada Tereza. O texto era direto:
"Quarto pra moça sozinha. Janela grande. Água às vezes falha, mas a gente dá jeito. 600 reais por mês. Sorrir de volta é obrigatório."
Sorri pela primeira vez em dias.
Reservei.
Fechei o laptop. O quarto estava silencioso demais, como se o mundo estivesse prendendo a respiração comigo. Coloquei a mala no chão e puxei o zíper com força. Era isso. Não importava o que minha equipe fosse dizer. Não importava o caos que viria depois.
Coloquei um boné, um óculos escuro grande e o moletom jogado. Saí pela porta sem olhar pra trás.
No corredor, sentia o coração batendo no pescoço. Cada passo era um protesto contra tudo que eu tinha aguentado. O elevador demorou, como se o universo estivesse testando minha coragem. Quando finalmente abriu, entrei com a mala e apertei o térreo.
Respirei fundo.
Eu estava fugindo. Não de paparazzi, não de fãs, não de uma polêmica. Eu estava fugindo, de quem eu tinha me tornado e correndo, pela primeira vez, em direção a mim mesma.
(…)
A primeira coisa que senti foi o calor. Não o de temperatura: o do ar. Um calor denso, grudado na pele, que invadia até os ossos. Diferente do frio elegante e abafado de Paris, onde tudo é controlado, filtrado, onde até a dor precisa sair com classe. No Rio, não. No Rio, tudo era cru. E real.
O voo foi longo, mas não lembro da maior parte. Meu corpo estava ali, mas minha cabeça estava presa em tudo que eu estava deixando. Apaguei as redes sociais, avisei à recepção do hotel em Paris que teria "uma emergência familiar" e simplesmente desapareci. Um sumiço elegante, como os assessores chamariam se pudessem gerenciar minha fuga. Mas não podiam. Dessa vez, ninguém ia escolher por mim.
Aterrissei no Galeão sem maquiagem, com uma calça larga, moletom velho e óculos escuros enormes que não escondiam minhas olheiras. Ninguém me reconheceu, como eu esperava. A mulher do controle de passaporte me olhou com tédio. O taxista perguntou se eu era gringa. Eu respondi com um sorriso cansado:
— Sou só... alguém tentando voltar pra casa.
Mas eu nem sabia onde era "casa".
Do aeroporto, peguei um carro de aplicativo e segui com o endereço que a dona Tereza havia me mandado por w******p: Rua da Laje, entrada do Morro do Rosário, ao lado do bar do Riba, casa amarela com parede descascada.
O motorista hesitou quando viu o destino.
— Moça, tem certeza que é pra lá?
— Tenho. — E completei, quase sem pensar: — Tô começando uma nova vida.
Durante o trajeto, encostei a cabeça no vidro e deixei a cidade me invadir. Os morros surgiam como muralhas vivas, coloridas, pulsantes. Vi roupas secando nas janelas, crianças correndo descalças pelas vielas, botecos abrindo as portas ao som de pagode. Havia vida ali. Uma vida que ninguém fingia esconder.
Nada era perfeito. Tudo era verdadeiro.
Chegamos no pé do morro e ele parou.
— Aqui eu não subo, não. A senhora entende, né?
Assenti. Peguei minha mala — uma só — e caminhei com passos incertos pelas primeiras ladeiras. Meu coração batia acelerado. Não de medo, mas de antecipação. Era como se eu estivesse atravessando um portal. De um mundo onde fui fabricada, para um onde talvez, só talvez, eu pudesse ser descoberta.
O caminho era estreito, com casas empilhadas, muros pichados e um cheiro agridoce de comida misturada com gás de botijão. Alguns homens me olharam de lado. Mulheres também. Ninguém me reconheceu. Ali, "Ayla da campanha da Dior" não era ninguém. E, pela primeira vez, isso foi libertador.
Quando vi a casa amarela da dona Tereza, suspirei. A porta estava aberta, e uma mulher de coque alto, bata florida e sandálias de dedo sorriu como se já me conhecesse.
— Chegou, minha filha? Bem-vinda. Aqui é tudo pequeno, mas tem cama, fogão, e café fresco todo dia. E se chorar, chora alto, viu? Aqui ninguém disfarça dor.
Eu engasguei com as palavras. Apenas balancei a cabeça. Ela apontou para dentro:
— Vai entrando. Esconde esse sol no rosto, tira esse moletom quente, menina. Aqui o calor é de verdade. E é bom.
Entrei. A casa era simples, cheirava a sabão em pó e café passado. A parede estava descascando em alguns cantos, mas havia um vaso de flores improvisado na janela, e uma brisa quente me tocou o rosto como um abraço.
Sentei na cama e fechei os olhos. Respirei fundo. Pela primeira vez em anos, sem filtro. Sem marca. Sem pauta.
Era o começo, o verdadeiro.