3. Ayla

1360 Words
O som do portão batendo foi o que me acordou. Um barulho seco, mas ritmado, como se o dia estivesse me chamando com jeitinho. Ainda sonolenta, rolei de lado e vi o feixe de sol atravessando a cortina fina. A claridade batia na parede descascada com uma ternura estranha. Era uma luz quente, íntima. Logo em seguida, escutei passos firmes no corredor e um leve bater na porta: — Ayla? Tá acordada, filha? Fiz um café. Bora forrar o estômago. O estômago. Eu tinha esquecido que tinha um. Me levantei devagar, os músculos reclamando da noite anterior. Dormi como não dormia há meses. Aquela cama velha, com lençol florido e travesseiro meio murcho, tinha me acolhido mais do que qualquer suíte de hotel cinco estrelas. Abri a porta ainda meio grogue. Dona Tereza já estava lá, com seu avental florido, cabelo preso em coque alto e um pano de prato no ombro. Ela sorriu quando me viu. — Você tem cara de quem tá há tempo demais sem um bom pão na chapa. Vem. Fiz café preto, pão com manteiga, cuscuz, ovo mexido, e tem um bolo de milho que ainda tá quentinho. Aquilo bateu em mim como um soco doce no peito. A cozinha era simples, mas parecia saída de um sonho. A mesa de madeira estava posta com uma toalha de plástico florida, tudo arrumado com carinho. A manteiga derretia no pão, o café exalava um aroma tão forte que me fez salivar, e o bolo... o bolo era real. Nada sem glúten, sem lactose, sem açúcar. Era bolo mesmo. De verdade. Com casquinha. — Come, menina. Tu tá com cara de vento. E eu comi. Comecei com uma fatia de bolo. A textura, o sabor, o cheiro, tudo me explodiu na boca. Era como morder memória. Depois vieram os ovos mexidos, cremosos, quentes, com cebola e cheiro-verde. O cuscuz tinha manteiga de verdade escorrendo, e o pão... ah, o pão. Tostado na frigideira, crocante nas beiradas, macio no meio. Engoli um pedaço atrás do outro, como se meu corpo estivesse pedindo socorro e só aquela comida pudesse salvá-lo. Dona Tereza me observava com os olhos sorrindo. — Parece que não vê comida há séculos, minha filha. E era verdade. Eu não comia comida de verdade fazia anos. Minha alimentação era medida em calorias, tabelas, porções milimetricamente calculadas. Era tudo funcional, sem sabor, sem amor. Era combustível, não prazer. — Isso aqui... — eu murmurei com a boca cheia, lágrimas involuntárias se formando nos olhos — isso aqui é vida. — É só café da manhã. — ela riu — Espera tu provar meu feijão. Comi até o último grão. Quando terminei, estava com o rosto suado, os dedos lambuzados de manteiga e a alma leve. Mas... dez minutos depois, o estômago começou a dar sinais de guerra. Primeiro, uma leve pressão. Depois, um desconforto quente. Me encolhi na cadeira tentando disfarçar, mas não deu. — Com licença, Tereza... acho que preciso... do banheiro. Ela entendeu na hora, sem se assustar. — A barriga estranhou, né? Tu tá desacostumada com comida de gente. Vai lá, relaxa. Teu corpo tá só lembrando que é humano. Fui correndo. Literalmente. A dor veio como uma avalanche. O intestino, adormecido por anos de líquidos detox e cápsulas digestivas, estava acordando do coma. Me sentei na privada com a testa encostada no joelho e ri. Doía, mas eu ria. Chorei de rir. Porque, pela primeira vez em anos, meu corpo estava dizendo: "Ei, tô vivo." E naquele banheiro apertado, suando e tremendo de tanto sentir, entendi o que era estar no começo de algo verdadeiro. Quando saí do banheiro, o mundo ainda girava um pouco, mas meu estômago já estava em paz. Fraco, talvez um pouco vingativo, mas aliviado. A verdade é que a explosão de comida de verdade tinha sido um choque. Um reencontro entre corpo e afeto. E mesmo com a dor, eu me sentia... preenchida. Voltei devagar pra cozinha, o chão frio sob os pés descalços, o cheiro de café ainda no ar. Dona Tereza estava sentada com uma xícara nas mãos, rindo sozinha de alguma coisa que passava na TV pequena sobre a geladeira. Quando me viu, deu um sorrisinho cúmplice. — Já tá viva de novo, né? — perguntou, com aquele tom de quem já cuidou de muita gente na vida. — Um pouco mais humana do que antes. — respondi, rindo fraco. — Mas talvez uns vinte quilos mais cheia. — Isso é só tua alma voltando pro corpo, menina. Senta. Vai devagar agora, só uma banana com aveia pra rebater. Obedeci. A mesa ainda tinha farelos de bolo, um pouco de cuscuz, e um pote com goiabada caseira. Tudo convidativo. Mas dessa vez, respeitei meus limites. Enquanto comia a banana, ouvi barulhos no corredor, risos, passos firmes, uma voz masculina brincando alto com alguém. — Já chegou o bagunceiro — murmurou Tereza, revirando os olhos com um meio sorriso. — Quem? — Meu sobrinho. VT. Veio me trazer o gás que acabou ontem. É só o que ele faz, rir e encher meu bujão de gás. E de história. Você vai ver. Antes que eu pudesse perguntar mais, a porta da cozinha se abriu com um estrondo teatral. Um homem entrou com o botijão nos ombros, camiseta branca sem manga, bermuda jeans surrada, boné virado pra trás e um sorriso que parecia ter nascido pronto. — Tá achando que sou entregador agora, tia? Daqui a pouco boto uniforme e tudo. Dona Tereza apenas apontou para o canto da cozinha: — Deixa ali e não me quebra a parede, muleque. Ele largou o gás com cuidado, como se fosse brincadeira. Só depois pareceu me notar. Meus olhos já estavam nele desde o primeiro segundo. — Epa — disse, olhando direto pra mim. — Não sabia que tinha visita de novela aqui hoje. — Essa é a Ayla, nova hóspede. Chegou ontem. Veio ajudar no projeto da criançada. — Tereza disse casualmente, sem detalhes, exatamente como eu tinha pedido. VT me olhou com mais atenção. Seu olhar não era invasivo, mas... curioso. Vivo. Como se tentasse me decifrar sem pressa. Ele estendeu a mão, o sorriso brincando nos lábios. — Prazer. Victor. Mas todo mundo me chama de VT. Se me chamar de Victor, vou achar que tu tá brava. Apertei sua mão. Firme, quente. Minha pele se arrepiou, mas disfarcei. — Ayla. Só Ayla mesmo. — Nome de estrela. — ele disse, se encostando no batente da porta com a confiança de quem já nasceu no lugar certo. — Mas fala aí, princesa. Tá gostando do cinco estrelas da minha tia? — Mais do que esperava. — sorri. — Inclusive, sua tia quase me matou com café da manhã. Ele riu alto. Um riso aberto, contagiante, de quem sabe rir da vida antes que ela ria da gente. — Ela tem esse dom. Mata a gente com carinho e manteiga. — Vai sentar e comer, ou vai ficar desfilando aí feito g**o na laje? — Tereza disse, já colocando mais pão na chapa. — E vê se não enche o saco da menina, que ela é quieta. — Quieta? — VT arqueou uma sobrancelha. — Essa daí tem cara de quem esconde tempestade no olhar. Antes que eu respondesse, outra pessoa entrou na cozinha: uma mulher de uns trinta, cabelo black trançado até os ombros, carregando uma sacola de feira. — Trouxe maracujá, Dona Tê. E açúcar, porque o seu tava parecendo areia. — Essa é a Marta, mora no outro quarto. — Dona Tereza explicou, enquanto Marta me cumprimentava com um sorriso caloroso. Logo em seguida, outro hóspede apareceu: um rapaz magricelo, de chinelo, óculos redondos, e uma camiseta do Flamengo rasgada. Chamava-se Júnior e era professor voluntário na ONG. A mesa foi ficando cheia. Vozes, risos, pão quentinho, suco de maracujá fresco. E eu ali, sentada com um prato simples na mão e o coração se abrindo aos poucos. Ninguém sabia que eu viera de Paris. Ninguém falava meu nome como se fosse manchete. Ninguém me pedia para sorrir "naturalmente" para a câmera. Ali, eu era só, Ayla. Uma estranha. Uma curiosa. Uma possível amiga.
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