A cozinha estava cheia de vestígios de comida boa. O cheiro de alho refogado ainda pairava no ar, misturado ao calor do fogão que parecia nunca descansar. Pratos empilhados, talheres dentro da bacia, panelas com restinho de feijão colado no fundo, copos com marca de suco de caju. A mesa tava vazia, mas o rastro de gente ainda estava lá: risadas, vozes altas, o vai e vem do almoço.
Eu estava de pé, com um pano de prato no ombro e o cabelo preso de qualquer jeito.
— Menina, segura essa bucha direito! Tá parecendo que tá pegando em cobra! — Dona Tereza ralhou, mas com um sorriso largo no rosto.
— Tô tentando, mas esse negócio escorrega! — retruquei, rindo.
Ela pegou a bucha da minha mão e mostrou, como se estivesse ensinando um segredo de gerações.
— Ó: dedão aqui, palma firme. Se deixar frouxo, quebra prato. Se apertar demais, voa sabão na cara. Louça é equilíbrio. Igual à vida.
— Filosofia da vasilha?
— Sempre. — ela respondeu, séria por dois segundos, e depois deu uma risada rouca e gostosa que me fez rir junto.
Dona Tereza era uma força da natureza. Mandona sem ser grossa, firme sem perder o afeto. Tinha aquele tipo de energia que preenchia o espaço sem pedir licença, e a gente aceitava, porque fazia bem.
Lavei mais um prato, passei a bucha com cuidado, e entreguei pra ela secar. Estávamos em sintonia silenciosa, o tipo de silêncio bom, que acalma. Até que ela quebrou.
— E a sua mãe, Ayla? — A voz veio leve, sem pressão. Só curiosidade.
Fiquei com o prato na mão por tempo demais. A espuma escorrendo pelo meu pulso. Não olhei pra ela. Fiquei ali, olhando pra água escorrendo da torneira, como se fosse mais interessante do que a pergunta.
— Ela deve estar em Paris. Ou Milão. Ou num dos lugares onde o nome dela parece mais bonito no contrato.
Dona Tereza parou de secar. Esperou.
— Não tenho muito contato. — continuei, num tom mais baixo. — A gente fala quando precisa. Mas ela não sabe que eu tô aqui. Nem se importaria muito se soubesse.
— E o pai?
Soltei um riso curto, sem alegria.
— Nunca foi parte da equação. Só um nome nos documentos.
Ela não respondeu de imediato. Terminou de secar um prato, o colocou no armário com cuidado, e então voltou pra perto de mim.
— Sabe o que é? Às vezes, a gente nasce em terreno errado. Planta linda, mas o solo não presta. Aí a vida tem que arrancar a gente à força, levar pra outro canto, até achar onde a raiz pega de verdade.
Meus olhos arderam.
— Eu só queria que, uma vez na vida, alguém me procurasse porque sente minha falta. Não porque precisa de mim para me exibir, ou para me amostrar, ou porque tem um cheque envolvido. Eu só queria... — engasguei — ...ser importante pra alguém sem ter que merecer isso.
Ela largou o pano de prato e me puxou num abraço apertado, de peito contra peito, palma firme nas minhas costas.
— Aqui, minha filha, você não precisa merecer. Só precisa estar.
Fechei os olhos e deixei que aquela frase fizesse morada. Fiquei quieta por um tempo, respirando o cheiro de sabão em pó da camiseta dela, sentindo o calor do fogão ainda pulsando na cozinha. Não chorei, não ali. Mas algo dentro de mim amoleceu. Um bloco de gelo antigo começou a rachar.
Quando ela se afastou, voltou com o pano de prato e me cutucou o braço.
— Agora lava essa panela aqui. Essa é a temida: fundo queimado de arroz. Se passar por ela, tá pronta pra casar.
— Então vou desistir agora. — respondi, rindo.
— Besteira. Cê já tem até olhar de quem aprendeu a morar no mundo sem pedir licença. Agora só falta aprender a usar o lado áspero da bucha.
Às vezes, família nasce no meio da espuma.
A panela já estava quase seca e eu enxugava as mãos quando ouvi os passos. Vários. Apressados, barulhentos, despreocupados. E logo em seguida, a voz que já era impossível de confundir.
— Tiaaaaaa Tereza! — VT gritou, empurrando a porta como se fosse a casa dele. — Chegamos com fome e fé!
Dona Tereza nem se virou. Só suspirou, como quem já previa o teatro.
— O que é isso agora, Victor?
— Operação fome da quebrada. — respondeu com aquele sorriso que era quase uma marca registrada. — Tu sabe que o feijão daqui é o melhor da Zona Norte.
— Sei. Sei também que tu já deve ter comido em pelo menos duas casas antes de vir aqui me encher o saco.
— Três, na real. Mas era só "aperitivo emocional". O almoço oficial é o da senhora.
— Aff, Victor — ela balançou a cabeça. — E trouxe tua tropa?
Foi aí que vi. Três caras atrás dele, todos com ares diferentes: um com cara de quem tinha acabado de sair da quadra de futebol, outro com o olho inchado de sono, e o terceiro mascando chiclete como se a vida dependesse disso.
— Boa tarde, dona Tê. — disseram em coro, já entrando com a maior cara de p*u.
— Boa tarde, o escambau. Vocês só sabem me visitar quando tão com a barriga cantando.
VT se encostou na pia ao meu lado. Estava suado, cheiro de rua e sol. Me olhou, mas não disse nada de imediato. Só arqueou a sobrancelha, com aquele sorrisinho que dizia: "Vai fugir de mim até quando, princesa?"
Fingi que não notei.
Dona Tereza abriu a geladeira, pegou a travessa de feijão e o arroz num pote de sorvete.
— Vocês não prestam. — ela resmungou. — Eu devia era botar vocês pra lavar roupa.
— Mas a senhora ama a gente. — disse o de boné, já pegando pratos do armário.
— Amo igual amo jiló: só cozido, bem temperado, e bem longe da minha vista depois da refeição.
A cozinha ficou cheia. VT encostado perto de mim, os outros brincando entre si, e Dona Tereza bufando, mas com os olhos brilhando daquele jeito que só mãe de muitos tem: exausta, mas feliz.
— Ayla, cê pode sai daí, viu. — ela falou, me cutucando. — Tu já lavou prato demais por hoje. Agora quem limpa essa zona são eles.
— Opa, opa! — VT protestou. — Calma lá, chefia, a princesa aqui já tá ganhando favoritismo?
— Favoritismo é o caramba. Tu quer comer, tu lava. Todo mundo lava. Até você.
— Eu? — ele arregalou os olhos, teatral. — Mãos de ouro como as minhas lavando vasilha? Um talento desses, desperdiçado assim?
— VT, se tu não calar essa boca, vou te enfiar um pano de prato na garganta. Vai esquentar o arroz ou quer que eu desenhe?
A galera explodiu em risada.
Ele foi até o fogão, abriu a panela, encheu um dos pratos, esquentou no micro-ondas como um bom malandro que conhece a casa como o quintal dele.
Depois voltou e se jogou à mesa, já se servindo.
— Ayla, tu não comeu nada? — perguntou com a boca cheia.
— Já comi. Inclusive, lavei a louça da sua comida antecipadamente.
— Ah, então é você que tá amolecendo o coração da minha tia? Vai acabar perdendo a imunidade diplomática.
— Cala a boca e mastiga, Victor. — Dona Tereza ralhou, jogando um guardanapo em cima dele.
E por um momento, ali naquela cozinha apertada, cheia de vozes, pratos tilintando, gente demais no mesmo cômodo, risadas cruzando o ar e VT sendo mandado calar a boca pela própria tia, eu sorri. De verdade.
Talvez fosse só bagunça.
Mas tinha gosto de lar.