O dia clareou preguiçoso, com aquele sol que não machuca, só avisa que a vida continua. Eu acordei primeiro, ainda meio enrolada nele, com o lençol embolado e o quarto silencioso demais pra parecer real. Victor dormia de lado, a respiração pesada, uma mão largada na minha cintura como se tivesse esquecido ali sem querer... ou como se não quisesse soltar.
Fiquei alguns minutos só olhando. O rosto relaxado, sem a tensão que ele carregava acordado. Era estranho ver aquele homem inteiro, tão inteiro, dormindo como se o mundo não precisasse dele por algumas horas.
Eu me mexi devagar pra não acordar, mas ele abriu os olhos mesmo assim.
— Já tá fugindo? — murmurou, a voz grossa de sono.
— ONG. — respondi baixo. — Vida real me chama.
Ele fez um som de desagrado, puxando o travesseiro pra perto.
— Odeio essa parte.
— Qual?
— A que tu sai.
Eu sorri sem virar o rosto.
— Você vai sobreviver.
— Talvez. — ele disse. — Mas vou reclamar.
A gente tomou banho rápido, sem pressa e sem urgência, aquele tipo de i********e que não precisa provar nada. Depois, eu me vesti de novo, cabelo preso, mochila no ombro. Ele colocou uma camisa limpa, correntinha de prata, já no modo mundo.
No carro, o silêncio era confortável. Não aquele silêncio tenso de despedida, era sómanhã.
Quando ele parou em frente à pensão, desligou o motor, mas não abriu a porta de imediato. Ficou me olhando de lado, como se quisesse guardar minha cara daquele jeito: normal, acordada, indo trabalhar.
— Que horas tu sai hoje? — perguntou.
— No fim da tarde. — respondi. — Talvez um pouco mais tarde por causa do evento.
— Eu vou te buscar.
— Não precisa—
— Eu quero. — ele cortou, simples. — Te busco pra tu dormir comigo de novo.
A frase saiu sem drama, sem peso. Como se fosse o plano mais óbvio do mundo. Meu peito deu aquele pulo traidor.
— Você fala isso como se fosse... normal.
— Pra mim já tá virando. — respondeu, dando um meio sorriso.
Eu mordi o lábio, sentindo aquela versão adolescente minha aparecer de novo.
— Aí fica combinado. Eu te busco lá.
Ele se inclinou e me deu um beijo rápido, de despedida, daqueles que não querem incendiar nada, só marcar presença.
— Vai lá. Faz teu dia.
— Você também. — respondi, abrindo a porta.
Saí do carro com o coração leve demais pra uma manhã comum. Subi as escadas da pensão sentindo o olhar dele ainda em mim, e quando entrei, Dona Tereza me lançou aquele olhar que sabia demais.
— Ah. — a voz veio da cozinha, seca, cortante, com aquele tom de quem tá controlando a própria irritação pra não virar sermão. — Voltou.
Eu respirei fundo e fui até a entrada da cozinha, tentando colocar leveza na cara como se eu fosse corajosa.
— Bom dia, Dona Tereza.
Ela estava de costas, mexendo alguma coisa na panela com força demais pro que quer que fosse. A colher de p*u ia e voltava como se ela estivesse brigando com a comida. O cabelo preso, a camiseta velha, o corpo inteiro com aquela energia de quem acordou cedo demais e ficou esperando uma pessoa que não apareceu.
— Bom dia é pra quem dorme em casa. — respondeu sem virar. — Pra quem some, eu dou "oi" no máximo.
Meu peito apertou num reflexo automático. A primeira vontade foi pedir desculpa. A segunda foi me defender. E a terceira... foi ficar ali, porque eu sabia que, por trás da bronca, tinha uma coisa que me desarmava: falta.
— Eu não sumi. — minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Eu só... dormi fora.
Ela virou de repente, com a colher de p*u na mão como se fosse uma arma branca.
— Dormiu fora. — repetiu, devagar, como quem mastiga a palavra. — Ontem dormiu fora. Anteontem chegou tarde. Hoje de manhã eu m*l vi tua sombra. Daqui a pouco tu vai virar visita aqui dentro.
Eu senti a garganta fechar. Não por medo dela. Por uma sensação r**m de estar devendo presença. Como se eu tivesse pegado algo que não era meu e agora alguém estivesse cobrando.
— Eu tenho trabalhado na ONG. — falei, firme, tentando não deixar a culpa dominar. — A senhora sabe.
— Eu sei. — respondeu, e o olhar dela ficou mais afiado ainda. — Eu não tô falando da ONG. Eu tô falando de você entrando e saindo dessa casa como se isso aqui fosse... um lugar qualquer.
Eu fiquei quieta um segundo, sem saber o que dizer. Porque doía. Doía porque ela tinha razão num ponto que eu nem sabia nomear: aquela casa não era "um lugar qualquer" pra mim. Ela virou um tipo de chão.
— Dona Tereza... — eu comecei, tentando achar um tom.
— Não. — ela me cortou de novo, mas dessa vez a voz saiu menos dura, mais carregada de verdade. — Tu acha que eu não vejo? Tu acha que eu não entendo?
Ela apontou a colher na minha direção, e não era ameaça. Era diagnóstico.
— Tu tá indo. Tá indo pra lá, tá gostando, tá vivendo... e tá deixando aqui pra trás.
Meu estômago revirou. Eu dei um passo pra dentro da cozinha sem perceber, como se aproximar pudesse consertar.
— Eu não tô deixando ninguém pra trás.
— Tá sim. — respondeu. E dessa vez saiu com mais emoção do que bronca. — Eu não tô dizendo que tu não pode viver tua vida, menina. Pelo amor de Deus. Eu só tô dizendo: não faz isso do jeito que tu sempre fez. Não some.
A palavra caiu pesada.
Porque era exatamente isso que eu fazia. Eu sumia. Eu desaparecia. Eu achava que ir embora antes do afeto firmar era me proteger.
Eu engoli seco, sentindo o olho arder, mas não deixei cair lágrima. Eu me recusei a chorar ali como se fosse vítima. Eu não queria ser vítima.
— Eu... — minha voz falhou, e eu respirei fundo pra continuar. — Eu não tô acostumada com alguém notar.
O olhar dela mudou na hora. Continuou firme, mas o foco ficou mais humano, mais... maternal sem ser meloso.
— Pois acostuma. — ela disse, simples. — Porque aqui a gente nota. Aqui a gente sente falta. Aqui a gente reclama, briga, xinga e espera tu voltar.
Eu fiquei parada, sentindo a frase me atravessar como coisa perigosa. Ela suspirou, como se estivesse cansada de ser brava e triste ao mesmo tempo. A mão com a colher baixou um pouco.
— Eu volto. — eu disse, firme, sem desviar o olhar. — Eu volto sim.
Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada como sempre.
— Volta quando?
— Todo dia. — eu respondi. — E se eu for dormir fora, eu aviso. Eu juro.
Ela me mediu em silêncio. A cozinha ficou quieta por um instante, só o barulho baixo do fogo.
— Tá. — ela falou, finalmente. — Então hoje tu aparece pro almoço.
Eu soltei o ar que eu nem sabia que tava prendendo.
— Eu apareço.
— E não vem com cara de pena. — completou, já voltando pro jeito dela. — Eu tô te dando bronca porque eu gosto de tu aqui. Se eu não gostasse, eu nem perdia saliva.
Eu senti um sorriso puxar minha boca, pequeno, inevitável.
— A senhora sentiu minha falta.
Ela virou de costas rápido, fingindo que não ouviu, mexendo na panela de novo.
— Vai arrumar tuas coisas. E vai trabalhar. E presta atenção: antes de sair, come alguma coisa. Tu acha que amor e ONG sustenta? Come.
Eu ri, mais emocionada do que queria demonstrar, e fui até ela sem pensar. Beijei a bochecha dela rápido, como se eu tivesse medo dela reclamar se eu demorasse.
Ela resmungou na hora, previsível:
— Sai, menina. Grudenta.
Mas eu vi. Eu senti. Ela reclamava porque me queria ali e pela primeira vez, isso não me deu vontade de fugir. Me deu vontade de merecer.