Era um espaço de vidro, tipo uma varanda fechada que virava uma estufa improvisada, e lá dentro tinha um monte de plantas. De todo tipo. Algumas penduradas, outras em vasos grandes no chão, umas pequenas alinhadas numa prateleira, um cantinho com terra e ferramentas, borrifador, adubo.
Eu parei na porta, chocada.
— Victor! Você tem uma floresta.
— Sim pô! Minhas filhas. — Ele cruzou os braços, orgulhoso.
— Suas filhas? — Eu ri alto.
— Minhas filhas. — ele repetiu, sério demais pra ser brincadeira. — Tem nome e tudo.
Eu entrei devagar, olhando cada uma como se estivesse num museu.
— Meu Deus. — eu toquei uma folha de leve. — Você cuida delas?
— Cuido, ué. — respondeu, ofendido. — Ou tu acha que é o pai de i********:, aqui?
Eu virei com um sorriso m*****o.
— Pai de planta.
Ele abriu a boca como se eu tivesse xingado a mãe dele.
— Respeita minhas meninas.
Eu comecei a rir, de verdade, apontando pra uma que tava enorme, bonita.
— Essa aqui é o quê? A primogênita?
— Essa é a Patrícia. — respondeu, com a maior naturalidade do mundo.
Eu arregalei os olhos.
— Patrícia?!
— Patrícia. — ele confirmou. — Porque ela é chique e difícil.
— Você tá de s*******m.
— Não tô. — ele pegou o borrifador e começou a borrifar água numa outra com cuidado. — E aquela ali é a Jussara.
Meu coração deu um pulo.
— Igual sua mãe?
Ele assentiu, o olhar ficando mais macio.
— Igual. Porque essa ali sobrevive a qualquer coisa. Pode deixar no sol, pode deixar na sombra, ela não morre.
Eu engoli seco. O jeito que ele falava da mãe sem dizer diretamente… era quase uma oração. Eu cheguei mais perto dele, olhando a planta.
— Você é fofo. — eu soltei, sem filtro.
Ele parou o borrifador e me olhou como se eu tivesse cometido crime.
— Eu não sou fofo.
— É sim. — eu provoquei, apontando pras plantas. — Pai de planta.
— Eu vou te beijar de novo só pra tu parar de falar merda.
— Então beija. — eu falei brincando, mas com verdade por baixo.
Ele não respondeu. Só me puxou pela cintura e me beijou ali mesmo, no meio das plantas, o cheiro de terra molhada e folha verde no ar. Foi um beijo sorrindo, um beijo com risada presa, um beijo de gente que tá se permitindo.
Eu me afastei e encostei a testa no peito dele por um segundo.
— Você cuida de tudo aqui. — eu disse, baixo.
— Eu cuido do que é meu. — ele respondeu.
A frase era simples, mas tinha peso.
Ele me levou pra fora, por uma porta de vidro que dava num espaço aberto nos fundos. Era um mini mirante mesmo: um deck de madeira, uma mureta de proteção, umas cadeiras, e a vista… a vista era o morro inteiro.
Dava pra ver as casas, as ruas, as luzes apagadas aqui e ali, e mais longe o recorte da cidade. Um mapa vivo de onde ele mandava e também de onde ele pertencia.
Eu fiquei parada, olhando, sentindo o vento.
Victor chegou por trás e me abraçou, inteiro. O braço envolvendo minha cintura, a mão descansando na minha barriga como se aquele lugar fosse natural.
— Tá vendo? — murmurou, o queixo encostando no meu ombro. — É isso aqui.
Eu senti um aperto no peito.
— Você ama isso. — eu falei, sem ser pergunta.
— Amo. — ele respondeu. — Mesmo quando me cansa. Mesmo quando me fode.
Eu fechei os olhos por um segundo, só sentindo o abraço. Era um abraço que dizia: eu fico. E eu não sabia lidar com alguém que fica.
— Obrigada por ontem. — eu disse, baixo, a voz quase sumindo com o vento.
Ele apertou um pouco mais.
— Eu que tenho que te agradecer, pô! — ele respondeu. — Tu olhou o mar sem aquela cara de medo. Isso vale qualquer coisa.
Eu virei o rosto só um pouco, encostando a bochecha na dele.
— Você é perigoso.
— Eu sei. — ele murmurou. — Mas contigo eu tô tentando ser seguro.
A palavra me acertou em cheio.Eu ia responder quando ouvi um barulho de portão. Uma voz. Forte. Mandona. Cheia de presença.
— VICTOR! — a voz ecoou pela casa como se fosse dona do lugar.
Victor congelou por meio segundo. Depois soltou um suspiro que parecia misto de amor e “fudeu”. Eu me virei devagar, confusa. Ele baixou a cabeça e murmurou, quase resignado:
— Minha mãe.
E antes que eu conseguisse processar, uma mulher entrou pelo corredor externo com passos firmes, carregando uma sacola numa mão e energia de tempestade na outra. Cabelo preso, olhar afiado, cara de quem não pede licença pra nada, só chega.
Ela parou quando me viu. Me mediu de cima a baixo em um segundo e então olhou pro Victor como se ele fosse um menino de quinze anos que tinha aprontado.
— Ah. — ela disse, seca. — Então é você.
Victor abriu um sorriso que era metade charme, metade defesa.
— Bom dia, mãe.
Ela não devolveu o sorriso.
— Bom dia é o c*****o, Victor. — ela falou, com a mesma naturalidade com que Dona Tereza dizia “lava a louça”. — Eu subi aqui pra te dar aviso, você sabe que eu não gosto dessa sua vida, né? Ainda trazendo a moça pra essa bagunça!
Meu rosto esquentou. Eu dei um passo pra trás instintivamente, mas Victor me segurou pela mão sem nem olhar, como se dissesse fica.
A mãe dele voltou os olhos pra mim. A expressão dela não era hostil. Era… avaliadora. De mulher que conhece o filho e os riscos do mundo.
— E você, menina? — ela disse, e a voz suavizou um grau mínimo. — Tá tudo bem?
Victor abriu a boca como se fosse responder por mim. Ela cortou com um olhar.
— Victor, cala a boca. Eu perguntei pra ela.
Eu engoli seco, sentindo meu corpo entrar em alerta, não por medo dela, mas pela sensação antiga de ser avaliada por uma figura materna. Só que ali não tinha frieza. Tinha presença.
— Tá. — eu respondi, a voz baixa. — Eu tô bem.
Ela assentiu, como se guardasse a informação.
— Ótimo. — então apontou pro Victor de novo. — Porque se tu não tiver, ele vai ouvir de mim até cansar.
Victor fez drama.
— Mãe…
— “Mãe” nada. — ela retrucou. — Eu sou tua mãe e sou tua juíza. Agora entra, que eu quero falar contigo. E depois eu quero falar com ela. E se eu descobrir que tu tá fazendo gracinha com ela, eu te esfrego nesse deck.
Victor olhou pra mim por um segundo, como quem pede desculpa com os olhos. Eu só consegui pensar uma coisa, meio absurda e meio bonita: a energia era a mesma da Dona Tereza.