O alho já tava quase virando pasta de tanto que o Victor amassava com raiva disfarçada de "tô trabalhando", e eu ainda tava rindo por dentro quando meu celular vibrou em cima da mesa.
Eu nem tinha percebido que ele tava ali, porque eu praticamente não usava mais. O aparelho tinha virado um pedaço morto da minha vida antiga e, de repente, ele lembrou que existia.
Na tela, um nome que não era só um nome. Meu estômago virou na hora. O riso morreu, seco, como se alguém tivesse apagado a luz.
Eu senti o ar mudar dentro de mim. A cozinha ainda era a mesma, o cheiro de comida, a Dona Tereza mexendo panela, o Victor cortando alho... mas meu corpo reconheceu perigo do jeito que reconhece tempestade antes da chuva.
O Victor olhou pra minha cara e estreitou os olhos.
— Que foi, Loirinha?
Eu engoli em seco, peguei o celular rápido, como se esconder o nome fosse proteger todo mundo daquela parte da minha vida.
— Nada. — minha voz saiu fina. — Eu já volto.
Eu saí da cozinha andando rápido, o coração batendo alto demais, e fui pro corredor. Encostei na parede, respirei fundo uma vez, duas... e atendi.
— Oi.
Do outro lado, a voz dela veio lisa. Fria. Controlada. Aquela voz que nunca perguntava como eu tava, só perguntava o que eu tinha feito.
— Ah, então você resolveu atender. Milagre.
Eu fechei os olhos por um segundo.
— Eu...
— Não, Ayla. — ela me cortou, sem me deixar começar. — Não vem com drama. Você não tem direito a drama depois do que você fez.
Eu senti a garganta fechar. Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Eu não fiz nada.
Ela riu. Um riso curto, sem humor.
— Você desapareceu. Você sumiu do hotel. Sumiu do set. Sumiu da sua vida. Você tem ideia do tamanho do ridículo? Do prejuízo?
— Eu precisava... — eu comecei, mas a palavra morreu porque eu não sabia explicar "eu tava morrendo por dentro" pra alguém que nunca me viu viva.
— Precisava de quê? — ela perguntou, e eu ouvi o veneno sorrindo. — De atenção? De brincar de garota comum? De fazer birra?
— Não é birra.
— É sim. — ela falou, firme, como quem decreta verdade. — Você acha bonito virar manchete? Você acha bonito deixar todo mundo na mão? Você não é uma adolescente, Ayla. Você é uma marca.
Eu abri os olhos, e encarei o nada do corredor como se ele fosse mais seguro do que lembrar do meu rosto em outdoor.
— Eu não sou uma marca.
Silêncio. Dois segundos. Aí ela veio com o golpe, do jeito que sempre vinha: com calma e crueldade.
— Você é sim. E se você não entende isso, então é mais burra do que eu pensei.
Eu senti as mãos ficarem geladas.
— Mãe, para...
— Não. — ela respondeu. — Alguém precisa te colocar no lugar, já que você acha que pode fazer o que quer. Você tem contrato, Ayla. Você tem obrigação. Você tem gente assinando cheque porque você existe daquele jeito. Do jeito que a gente construiu. E você... joga tudo no lixo por um capricho emocional.
Capricho emocional. Como se meu trauma fosse frescura. Eu respirei, tentando manter minha voz estável.
— Eu não vou voltar.
A frase saiu antes de eu pensar. Saiu do meu peito, do meu osso. Uma verdade que eu vinha ensaiando em silêncio há semanas. Ela ficou muda por um instante. O tipo de silêncio que anuncia tempestade.
— Como é que é?
Eu senti o medo tentar subir, mas eu segurei firme no chão com os pés, como se eu pudesse fincar raiz no cimento.
— Eu não vou voltar agora. Eu tô... bem aqui.
— Bem? — ela riu de novo, e dessa vez doeu. — Você tá aonde, Ayla? Numa roça? Numa favela? Brasil não é pra você!
Eu fechei os olhos, vergonha e raiva misturadas, porque eu sabia que ela não tinha dito "favela" como geografia. Ela tinha dito como ofensa.
— Não fala assim.
— Eu falo do jeito que eu quiser, porque eu que sempre resolvi tudo pra você! — ela elevou um pouco a voz, sem perder a classe. — Eu te tirei do nada. Eu fiz você. Eu aguentei suas crises, suas frescuras, seus "não quero comer", seus "não consigo dormir". Eu aguentei você sabotando tudo que a gente conquistou. E agora você some, envergonha todo mundo e ainda acha que pode bater o pé?
Meu coração bateu tão forte que eu senti na garganta. Eu mordi o inside da bochecha, sentindo o gosto metálico, pra não chorar.
— Eu não pedi pra ser "feita".
— Claro que pediu. — ela disse, com um desprezo doce. — Você adorava. Você gostava de ser admirada. Você gosta até hoje. Só tá brincando de vítima porque é mais conveniente.
A palavra vítima me cortou como faca.
Eu senti o corpo inteiro tremer, e uma parte de mim quis correr, se encolher, pedir desculpa só pra parar a dor. Era o reflexo de sempre: apaziguar pra sobreviver.
Só que, dessa vez, eu não tava sozinha num quarto de hotel. Eu tinha uma casa com cheiro de alho, uma velha brava, um sofá gasto, e um pedaço de paz que eu não ia entregar assim.
Eu puxei ar, bem devagar.
— Não fala do que você não sabe.
— Eu sei de tudo. — ela retrucou. — Eu sei que você tá acabando com a sua carreira. Eu sei que a agência tá furiosa. Eu sei que tem cláusula. Eu sei que se você não voltar, vão te processar, vão te destruir, e eu não vou mover um dedo pra te proteger dessa vez.
Minha mão apertou o celular com força.
— Então não protege.
Silêncio de novo. Agora mais pesado.
— Você tá me desafiando?
Eu senti uma coragem estranha subir, uma coragem que parecia emprestada de alguém que finalmente entendeu que a própria vida vale mais do que aprovação.
— Eu tô me escolhendo.
Ela soltou uma risada baixa, quase um sussurro.
— Você sempre foi ingrata.
Eu engoli seco. Essa palavra eu conhecia desde criança.
— Eu sempre fui... sozinha. — eu disse, e minha voz falhou no meio, mas eu continuei. — E eu cansei.
— Ayla, você não tem noção do ridículo que você tá fazendo. — ela voltou pro tom de comando. — Você vai voltar. Hoje. Eu já mandei carro pro aeroporto. Eu já falei com sua assessoria. Você vai voltar e vai pedir desculpas. Porque quem manda nessa sua vida sou eu.
Meu estômago embrulhou. Aquele "quem manda" acendeu um gatilho no meu corpo como sirene. Eu senti o mesmo frio de set, o mesmo peso de mão no meu ombro, o mesmo "você vai porque eu disse".
Eu fechei os olhos e forcei minha respiração a descer.
— Não. — eu falei, com clareza.
— Não o quê?
— Não. Eu. Não. Vou.
Minha voz saiu firme. E foi a primeira vez que eu ouvi essa firmeza saindo de mim pra ela. Do outro lado, eu senti a raiva dela ficar elegante.
— Você está delirando.
— Eu tô... acordando. — eu respondi, e eu mesma me surpreendi com a frase.
Ela soltou o ar, impaciente.
— Então eu vou ser direta: se você não voltar, eu corto tudo. Entendeu? Cartão, conta, ajuda, qualquer coisa que você ainda tiver no seu nome com acesso meu. E eu vou dizer pra todo mundo que você enlouqueceu. Que você tá drogada. Que você tá instável. Que você é um risco.