Eu acordei com a sensação de estar sendo observada.
Não de um jeito r**m, não aquele alerta que meu corpo aprendeu a acender por trauma, era um olhar quente, quieto, paciente. Abri os olhos devagar e encontrei Victor deitado de lado, apoiado no cotovelo, me encarando como se eu fosse uma coisa rara que ele não queria assustar.
— Que foi? — minha voz saiu meio amassada de sono.
— Tô conferindo se tu tá na cama ainda. — ele respondeu, sério demais pra ser verdade. — Depois de ontem, eu não confio.
Eu ri baixo, puxando o lençol pra cima como se eu pudesse me esconder.
— Você vai ficar me humilhando por isso até quando?
— Até tu fazer sessenta anos. — ele disse. — Vou contar pros nossos netos que tu caiu da cama do dono do morro.
— Eu não caí "da cama do dono do morro". — eu rebati, já rindo. — Eu caí de uma cama. Ponto.
Ele inclinou o rosto mais perto.
— Da minha cama. — provocou, e aí beijou minha bochecha com uma calma que me desmontou.
Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo aquele beijo simples como se fosse coisa grande.
— Levanta. — falou, de repente, mudando pro tom prático. — Vou fazer bolo.
— Você? — eu arqueei a sobrancelha. — Você faz bolo?
— Eu faço tudo, Loirinha. — respondeu, já levantando. — Só não faço milagre com tua cabeça se tu não deixar.
A frase veio leve, mas ficou em mim.
Eu levantei também, ainda com a blusa dele, cabelo bagunçado, seguindo ele até a cozinha. A casa tava silenciosa, clara, com aquele cheiro de manhã limpa. Victor abriu armário, pegou caneca, mexeu em máquina, começou a organizar a mesa como se fosse rotina antiga.
Eu encostei na bancada e fiquei olhando, meio fascinada, meio boba.
— Tu tá me encarando por quê? — perguntou sem virar, mas já sabendo.
— Porque é estranho ver você fazendo coisas... normais. — eu confessei.
Ele deu um riso curto.
— Eu sou normal.
— Victor, você tem uma estufa de plantas que você chama de filhas.
— E isso é normalíssimo. — ele respondeu, colocando pão, fruta, e uma jarra de suco na mesa. — eu não tenho ovo, vamos ter que deixar o bolo pra amanhã.
A gente tomou café sem pressa. Eu comi mais do que eu costumava permitir a mim mesma, e pela primeira vez não veio culpa junto. Victor observava isso com uma satisfação discreta, como se aquele fosse o tipo de vitória que ele não precisava anunciar.
— Tu tá ficando boa nisso. — comentou, apontando pro meu prato.
— No quê?
— Em comer sem pedir desculpa. — ele disse, simples.
Eu senti um aperto bom no peito.
— Eu tô tentando.
— Continua. — respondeu, e o jeito que ele falou parecia ordem e carinho ao mesmo tempo.
Depois do café, ele levantou e apontou pro corredor.
— Bora. As meninas tão com sede.
Eu segui ele até o cantinho das plantas, ainda meio sonolenta, mas curiosa. A luz da manhã entrava diferente ali, deixando tudo verde, vivo, com cheiro de terra.
Victor pegou o regador como se fosse extensão do corpo e começou a regar uma por uma, com paciência. Falava baixinho, como se estivesse conversando com elas.
— Bom dia, Melissa... bom dia, Jussara... — ele murmurava, e eu arregalei os olhos.
— Você tá... dando bom dia pras plantas.
Ele nem se abalou.
— Elas gostam.
— Elas não respondem.
— Respondem sim. — rebateu, sério. — Respondem ficando vivas. Que é mais do que muita gente faz.
Eu ri, cruzando os braços.
— Você é insuportável.
— Tu me ama. — ele disse, sem olhar pra mim.
Eu engasguei com o ar.
— Eu não disse isso.
Victor finalmente virou o rosto pra mim, com aquele sorriso de canto perigoso.
— Mas pensou.
Eu fui até uma das plantas menores e peguei o borrifador, tentando entrar na brincadeira.
— Qual é o nome dessa aqui? — perguntei.
Ele olhou e respondeu na lata:
— Essa é a Sofia.
— Sofia? — eu ri. — Por quê?
— Porque ela é dramática. — ele explicou. — Se tu esquece um dia, ela desaba.
Eu comecei a borrifar com cuidado.
— Igual a você, então.
Ele soltou um "ih" ofendido.
— Eu não sou dramático.
— Victor, você quase teve um ataque porque eu caí da cama.
— Isso não é drama, é amor. — respondeu, com a maior cara de p*u do mundo.
Eu senti o rosto esquentar e tentei disfarçar borrifando mais água.
— Tá bom, pai de planta. — eu murmurei, só pra provocar.
— Mãe de planta. — ele devolveu, rápido, apontando pra minha mão no borrifador. — Já tá pegando responsabilidade.
Eu ia retrucar quando ouvi o som do portão.
Passos firmes. Mas dessa vez, o clima não veio pesado. Veio... calmo. Resolvido.
Victor parou de regar e suspirou.
— Minha mãe.
Meu estômago deu um salto involuntário, uma lembrança do outro dia. Mas antes que a ansiedade encaixasse, ele já virou pra mim com um olhar firme.
— Relaxa. Hoje ela tá de boa.
— Você tem certeza? — eu perguntei, baixinho.
— Tenho. — ele respondeu, e a voz veio diferente. — Se não tivesse, a casa tinha tremido.
O portão abriu e a mãe dele entrou sem pressa, sacola na mão, expressão neutra. O olhar dela passou pela casa, pelo filho, e só então parou em mim.
Dessa vez não teve aquele "fiscal". Teve avaliação... e curiosidade.
— Bom dia. — ela disse, simples.
— Bom dia. — eu respondi, sentindo minha coluna endireitar.
Victor foi até ela, pegou a sacola da mão dela e beijou o rosto dela rápido.
— Bom dia, mãe.
Ela olhou pra ele como se ele fosse um problema conhecido, mas o canto da boca dela levantou um pouco.
— Tá regando as plantas? — ela perguntou, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Tô. — ele respondeu. — Pra elas não morrerem de tristeza.
— Dramático. — ela comentou, e eu quase ri.
Victor apontou pra mim, sem cerimônia, e falou como quem apresenta uma decisão.
— Mãe... essa é a Ayla.
Ela me olhou com calma.
— Eu sei quem é. — respondeu. — Eu vi.
Victor respirou fundo e, antes que eu pudesse me preparar pra qualquer coisa, ele completou, direto, do jeito dele:
— Oficialmente minha namorada.
O ar pareceu parar por um segundo.
Eu congelei.
Meu coração deu um pulo tão forte que eu senti na garganta. Eu abri a boca pra falar alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu.