54. Ayla

1124 Words
Eu acordei com a sensação de estar sendo observada. Não de um jeito r**m, não aquele alerta que meu corpo aprendeu a acender por trauma, era um olhar quente, quieto, paciente. Abri os olhos devagar e encontrei Victor deitado de lado, apoiado no cotovelo, me encarando como se eu fosse uma coisa rara que ele não queria assustar. — Que foi? — minha voz saiu meio amassada de sono. — Tô conferindo se tu tá na cama ainda. — ele respondeu, sério demais pra ser verdade. — Depois de ontem, eu não confio. Eu ri baixo, puxando o lençol pra cima como se eu pudesse me esconder. — Você vai ficar me humilhando por isso até quando? — Até tu fazer sessenta anos. — ele disse. — Vou contar pros nossos netos que tu caiu da cama do dono do morro. — Eu não caí "da cama do dono do morro". — eu rebati, já rindo. — Eu caí de uma cama. Ponto. Ele inclinou o rosto mais perto. — Da minha cama. — provocou, e aí beijou minha bochecha com uma calma que me desmontou. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo aquele beijo simples como se fosse coisa grande. — Levanta. — falou, de repente, mudando pro tom prático. — Vou fazer bolo. — Você? — eu arqueei a sobrancelha. — Você faz bolo? — Eu faço tudo, Loirinha. — respondeu, já levantando. — Só não faço milagre com tua cabeça se tu não deixar. A frase veio leve, mas ficou em mim. Eu levantei também, ainda com a blusa dele, cabelo bagunçado, seguindo ele até a cozinha. A casa tava silenciosa, clara, com aquele cheiro de manhã limpa. Victor abriu armário, pegou caneca, mexeu em máquina, começou a organizar a mesa como se fosse rotina antiga. Eu encostei na bancada e fiquei olhando, meio fascinada, meio boba. — Tu tá me encarando por quê? — perguntou sem virar, mas já sabendo. — Porque é estranho ver você fazendo coisas... normais. — eu confessei. Ele deu um riso curto. — Eu sou normal. — Victor, você tem uma estufa de plantas que você chama de filhas. — E isso é normalíssimo. — ele respondeu, colocando pão, fruta, e uma jarra de suco na mesa. — eu não tenho ovo, vamos ter que deixar o bolo pra amanhã. A gente tomou café sem pressa. Eu comi mais do que eu costumava permitir a mim mesma, e pela primeira vez não veio culpa junto. Victor observava isso com uma satisfação discreta, como se aquele fosse o tipo de vitória que ele não precisava anunciar. — Tu tá ficando boa nisso. — comentou, apontando pro meu prato. — No quê? — Em comer sem pedir desculpa. — ele disse, simples. Eu senti um aperto bom no peito. — Eu tô tentando. — Continua. — respondeu, e o jeito que ele falou parecia ordem e carinho ao mesmo tempo. Depois do café, ele levantou e apontou pro corredor. — Bora. As meninas tão com sede. Eu segui ele até o cantinho das plantas, ainda meio sonolenta, mas curiosa. A luz da manhã entrava diferente ali, deixando tudo verde, vivo, com cheiro de terra. Victor pegou o regador como se fosse extensão do corpo e começou a regar uma por uma, com paciência. Falava baixinho, como se estivesse conversando com elas. — Bom dia, Melissa... bom dia, Jussara... — ele murmurava, e eu arregalei os olhos. — Você tá... dando bom dia pras plantas. Ele nem se abalou. — Elas gostam. — Elas não respondem. — Respondem sim. — rebateu, sério. — Respondem ficando vivas. Que é mais do que muita gente faz. Eu ri, cruzando os braços. — Você é insuportável. — Tu me ama. — ele disse, sem olhar pra mim. Eu engasguei com o ar. — Eu não disse isso. Victor finalmente virou o rosto pra mim, com aquele sorriso de canto perigoso. — Mas pensou. Eu fui até uma das plantas menores e peguei o borrifador, tentando entrar na brincadeira. — Qual é o nome dessa aqui? — perguntei. Ele olhou e respondeu na lata: — Essa é a Sofia. — Sofia? — eu ri. — Por quê? — Porque ela é dramática. — ele explicou. — Se tu esquece um dia, ela desaba. Eu comecei a borrifar com cuidado. — Igual a você, então. Ele soltou um "ih" ofendido. — Eu não sou dramático. — Victor, você quase teve um ataque porque eu caí da cama. — Isso não é drama, é amor. — respondeu, com a maior cara de p*u do mundo. Eu senti o rosto esquentar e tentei disfarçar borrifando mais água. — Tá bom, pai de planta. — eu murmurei, só pra provocar. — Mãe de planta. — ele devolveu, rápido, apontando pra minha mão no borrifador. — Já tá pegando responsabilidade. Eu ia retrucar quando ouvi o som do portão. Passos firmes. Mas dessa vez, o clima não veio pesado. Veio... calmo. Resolvido. Victor parou de regar e suspirou. — Minha mãe. Meu estômago deu um salto involuntário, uma lembrança do outro dia. Mas antes que a ansiedade encaixasse, ele já virou pra mim com um olhar firme. — Relaxa. Hoje ela tá de boa. — Você tem certeza? — eu perguntei, baixinho. — Tenho. — ele respondeu, e a voz veio diferente. — Se não tivesse, a casa tinha tremido. O portão abriu e a mãe dele entrou sem pressa, sacola na mão, expressão neutra. O olhar dela passou pela casa, pelo filho, e só então parou em mim. Dessa vez não teve aquele "fiscal". Teve avaliação... e curiosidade. — Bom dia. — ela disse, simples. — Bom dia. — eu respondi, sentindo minha coluna endireitar. Victor foi até ela, pegou a sacola da mão dela e beijou o rosto dela rápido. — Bom dia, mãe. Ela olhou pra ele como se ele fosse um problema conhecido, mas o canto da boca dela levantou um pouco. — Tá regando as plantas? — ela perguntou, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. — Tô. — ele respondeu. — Pra elas não morrerem de tristeza. — Dramático. — ela comentou, e eu quase ri. Victor apontou pra mim, sem cerimônia, e falou como quem apresenta uma decisão. — Mãe... essa é a Ayla. Ela me olhou com calma. — Eu sei quem é. — respondeu. — Eu vi. Victor respirou fundo e, antes que eu pudesse me preparar pra qualquer coisa, ele completou, direto, do jeito dele: — Oficialmente minha namorada. O ar pareceu parar por um segundo. Eu congelei. Meu coração deu um pulo tão forte que eu senti na garganta. Eu abri a boca pra falar alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu.
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